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Vizinhança

No Mossunguê que não conhece a solidão

Membros de ONG da Vila Fanny se mudam para casas de bairro e mostram que comprar na venda, fazer sabão e plantar horta é possível numa grande cidade

  • José Carlos Fernandes
Débora e Eduardo na Casa da Videira do Mossunguê: cultivo em área nobre |
Débora e Eduardo na Casa da Videira do Mossunguê: cultivo em área nobre
 
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No Mossunguê que não conhece a solidão

Quem passa pela Rua Pedro Nico, no Mossunguê, pode até imaginar o que acontece por aquelas bandas: umas poucas casas de madeira de Clotildes e Teresas dividem espaço com condomínios de luxo e espigões que se erguem do chão, anunciando que a Curitiba de antigamente não mora mais ali.Mas não é o caso. Apesar das muralhas e da imponência da Ecoville, um movimento urbano nasce na região mostrando, acreditem, que o tal do mundo novo não é coisa de ficção. Ali, um bosque, o “Dona Justina”, está sendo cuidado pelos moradores. O condomínio produz pouco lixo e abriga ovelhas. Há hortas caseiras e relações de vizinhança tal e qual nos tempos da nonna Pina.À frente dessa história está o ex-dentista fluminense Cláudio Oliver, 53 anos, morador de um condomínio de luxo, desses com piscina, porteiro e um quintal de mato verde, ao fundo, para deleite das 30 famílias que pagaram para respirar ar puro e se proteger da violência. Eis um convite ao pouco caso – mas não foi o que se deu.

O tal do “mato ao fundo” virou motivo de conversa entre Cláudio e os condôminos, assim que ele, a pediatra Kátia e a filha do casal, Giovana, se mudaram para a Pedro Nico. O que o bom falante – versado em línguas, Filosofia, Teologia e estudioso aplicado de sociedade sustentável – argumentou, não se sabe. O fato é que em pouco tempo as ovelhas negras Rita Lee e Beto (de Roberto de Carvalho) passaram a circular livremente pela muralha, alterando a paisagem, e sinalizando não se tratar de um lugar qualquer.

O segundo passo foi dado nos limites do sobrado dos Oliver, uma espécie de Cabo Kennedy em miniatura, de onde lança suas ideias. Num terreninho de 40 metros quadrados o “ativista cristão”, como prefere ser chamado, plantou uma horta – que lhe rende 350 quilos de alimentos por ano – e desenvolveu um processo de compostagem de lixo orgânico.

“Aqui fica todo o lixo da casa”, avisa, referindo-se às caixas pretas de plástico, todas vedadas, com minhocas a bordo, empilhadas num canto do muro, e nada mais. Detalhe: dá para o vizinho vê-las pelo muro, o que bastou para que um, e depois outro, adotasse a prática revolucionária como um levante. Da experiência nasceu um dos muitos slogans de mister Oliver: “Do meu lixo cuido eu”.

Em paralelo, o animado Cláu­­dio lotou seu “armário de Nár­­nia”, na despensa, com potes e potes de geleias caseiras – que divide, claro, com os mais próximos. Também fabrica sacolas de pano e promove jantares “naturebas” no quintal da village, entre outros mimos que o tornam o boa praça do pedaço.

De tão simples e tão fácil – com exceção de um condômino – to­­dos aderiram à compostagem, ao recolhimento de óleo de cozinha para fazer sabão, à coleta de pó de café usado, entre outros segredos de salvamento do meio am­­biente que meio planeta conhece, aprova, mas não sabe como dar conta.

Pois Cláudio tem a resposta. “Fale com seu vizinho, ora”, diz, a postos para explicar por que as duas quadras do Mossunguê em que transita estão prestes a se tornar um modelo municipal de gestão comunitária. A boa e velha conversa, seguida de negociação e senso de limite se encarregam do resto. E o resto é que são elas: as ações nascidas no sobrado 6 já atravessaram a rua e atingiram um pequeno núcleo de antigas casas de madeira.

É preciso ir ao começo. Até pouco tempo, Oliver e um grupo de 70 entusiastas administravam a bem-sucedida ONG Casa da Videira, na Vila Fanny. O espaço se tornou uma referência “brincante”, oferecendo oficinas audiovisuais para adolescentes em situação de risco. Ou não. O Canal Futura se interessou pelo projeto e assim permanece até hoje, reproduzindo em parceria os vídeos feitos na organização.

Mas a turma da ONG queria mais e decidiu levar à risca o termo “casa”, mudando para uma – melhor, para cinco. Não foi complicado. Em vez de habitarem um único local, passaram a formar uma rede de militantes debruçados no portão. Tal como previsto, o milagre das videiras se deu. Em especial na Rua Pedro Nico. Além de Cláudio e família, mora por lá o casal de educadores Eduardo e Débora Feniman, vinculados ao projeto, inquilinos de uma duas águas modelo “vovó.”

O termo “zona de influência”, tão usado por comunicadores, encontrou ali um case doméstico. Cláudio, Eduardo e Débora têm cativado a redondeza para os ditames da vida simples. Em vez de supermercado, compram no armazém do seu Gabriel. E carregam tudo no tuperware. O trio almoça junto todos os dias, cria galinhas, cultiva a terra, faz sabão para vender, capta água da chuva. Detalhe: não se vê mosca nem se sente mau cheiro.

“O pessoal acha que não dá tempo para essas práticas. Mas o segredo é fazer tudo de forma coletiva. Não gasto mais do que quatro horas por dia nas tarefas”, explica Eduardo, que estuda Pedagogia na UFPR e vive com R$ 2 mil por mês. “Meu grande trabalho é descobrir o que fazer com as coisas que as pessoas descartam.”

Por tempo, entenda-se muito mais do que dar de comer às galinhas – responsáveis instantâneas pelo consumo do lixo do coletivo e dos simpatizantes. A moçada da Videira deu de ocupar terrenos baldios, onde planta árvores e espalha odes de amor à natureza. Típicos “agricultores urbanos”, chegam de Kombi e em regime de mutirão trocam o mato pelo canteiro de flores. “Será que é possível resgatar o homo sapiens?”, indagam-se.

A prefeitura já ralhou com essas ações. Mas a turma das Casas da Videira é afiada. Lembra aos fiscais que é melhor um canteiro do que uma área baldia para fumar crack. O mesmo se diga das galinhas. “Ah! Ter 20 cachorros pode, né...”, esbravejam. Como no Mossunguê das antigas todo mundo tinha granjas e pés-de-quê, a volta dos tempos de antanho não tem causado guerrilhas no 156.

Para quem achou essa história uma viagem, o coletivo avisa que vem mais. Um dos planos é tratar do próprio esgoto. O outro é viver com cada vez menos dinheiro. Quem quiser, que os siga. “Para 2011, vou abandonar o cartão de crédito”, avisa Cláudio, que está 80% sem carro em 2010 e se prepara para implantar o programa “Bicicleta Branca” na Pedro Nico. É só chegar, pegar a bike, e seguir. A devolução fica por conta da consciência do usuário.Melhor não duvidar. Cláudio é um ser conectado. A experiência da Videira, nesse momento, está sendo debatida em um encontro na República Dominicana, para falar de um dos países em que gerou entusiasmo. Amparado nas teorias do norte-americano John McKnights, um papa na relação entre vizinhança e desenvolvimento, o ativista do Mossun­guê ganha o mundo comendo morangos do quintal.

Com sorte, seu vizinho mais ilustre, o pré-candidato ao governo Beto Richa, pode dar um passeio pela Pedro Nico e confirmar com os próprios olhos esse sururu dos arrabaldes. Há pelo menos de concordar com uma das máximas de Cláudio – “esqueça o idealismo. Aqui, um outro mundo acontece”.

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