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Entrevista

“Gosto do liberalismo. Eu sou de direita, e isso não é pecado”

Abelardo Lupion, presidente do DEM no Paraná

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Brasília - A criação do Partido Social Democrático (PSD) é uma oportunidade para que o Democratas (DEM) distancie-se do centro e volte a se firmar como legenda de direita. A opinião é do deputado federal presidente da sigla no Paraná, Abelardo Lupion. Para ele, é hora de o partido reassumir teses como a defesa de um Estado mínimo, de menos impostos, do direito à propriedade privada e à livre iniciativa.

“A pessoa de centro no Brasil não tem posição. E 90% dos caras que se dizem de esquerda só querem estar na moda. É importante que os políticos estudem um pouco para saber o que é ser de esquerda e direita”, diz o parlamentar.

Lupion também define o PSD como “oportunista” e acredita que o período de debandada do DEM já terminou. “Vão dizer que nós somos pequenos. Mas nós somos o quinto maior partido do Brasil hoje”, diz o deputado, que avalia que o discurso da direita é capaz de empolgar mais de 20% do eleitorado nacional.

Como o DEM vai superar o racha provocado pela criação do PSD?

É uma coisa natural em política. Tinha um grupo insatisfeito com a direção do partido. Nós estávamos satisfeitos. Batemos chapa pela liderança do DEM e ganhamos. O grupo perdedor resolveu sair. Em democracia, é isso que acontece. Vamos perder nove deputados federais e uma senadora. Vamos continuar com 37 deputados federais e vamos continuar trabalhando. No Paraná, por exemplo, não perdemos nenhum deputado estadual.

Quais serão os reflexos no Paraná? Há mais gente para sair?

O pessoal que está no partido hoje está muito satisfeito com a nossa condução. Não vejo, a curto prazo, nenhum problema. Já conversei com os deputados estaduais, não acredito em defecções nesse momento. Agora, é óbvio que o PSD é a primeira janela que se abre depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) formular as bases da fidelidade partidária. Então é natural que as pessoas que estão insatisfeitas, não só no DEM, mas em todos os partidos, tenham uma válvula para poder migrar. Eles estão migrando de muitos partidos. Nós temos agora que nos preocupar com o resto, deixando bem claro: como ainda não há regras definidas, estamos partindo de uma interpretação da lei de que só os mandatários que foram fundadores do PSD não vão perder seus mandatos. Após isso, é uma temeridade mudar de partido.

Para o senhor, o que é o PSD?

É um partido que está se utilizando do oportunismo. O [prefeito de São Paulo, Gilberto] Kassab está usando o partido para si só. Ele está jogando para ir para a situação. Eles vão ser base do governo federal. Mas nós, do DEM, não fomos eleitos para sermos situação. Por isso eu acho uma temeridade aqueles que saem do DEM para ir para a situação porque o seu eleitor não vai entender. Oposição é tão importante quanto situação. Nós precisamos fiscalizar, debater, coibir impostos. O nosso papel é relevante. Aqueles que estão saindo estão deixando para trás um compromisso com as urnas.

O que está sendo feito para evitar um encolhimento ainda maior do DEM?

Nós já fizemos várias coisas. A presidência já foi mudada. Te­­­remos convenções municipais agora em julho, em agosto ocorrem as estaduais e em setembro teremos uma grande convenção nacional na qual será eleito um novo presidente. A grande mu­­dança que estamos fazendo é de pessoas. Estão saindo aqueles que não estão satisfeitos com o partido e nós vamos começar um novo momento. Vão dizer que nós somos pequenos. Mas nós somos o quinto maior partido do Brasil hoje. Vamos continuar lutando pelos nossos espaços, sendo críticos, fiscalizadores. Esse é um reflexo de oito anos de oposição e mais quatro ainda pela frente. Muita gente que não sabe viver sem mamar nas tetas do governo sucumbe.

Muita gente reclama do tom da oposição, como a senadora Kátia Abreu, que migrou do DEM para o PSD. O senhor concorda?

Acho engraçado isso porque a senadora era uma das principais dirigentes do DEM. Ela teve todas as oportunidades dentro do partido. Foi a relatora das principais teses do DEM. Foi extremamente mordaz, crítica. Agora, o que ela está fazendo: a senadora é presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Pro­­­va­­­velmente o governo iria apoiar outro candidato para a CNA. Para não perder a presidência, ela resolveu parar com as críticas e ir para o governo. Acho uma falta de bom gosto criticar o lugar que nos acolheu e nos deu a eleição. A vida inteira ela foi prestigiada. E agora sai atirando contra uma legenda que não fez nada de mal para ela? Isso é um problema de caráter. Precisamos comedir as nossas declarações, sob pena de nos arrepender em breve.

Falando sobre ideologia, como o senhor define o DEM hoje? O partido é a direita brasileira?

Acho que a direita em qualquer lugar do mundo é extremamente importante. Eu sou de direita, nunca escondi isso. A grande maioria das pessoas que estão ficando no partido é de direita. É muito cômodo você hoje, dentro de um Estado Democrático, ficar no centro. O centro é sinal de não ter definição, não ter ideologia, não ter posição. Eu defendo a propriedade privada, um Estado menor, menos impostos, gosto do liberalismo. Nós precisamos assumir as nossas teses. Aqueles que não acreditam nisso não podem ficar no DEM. O DEM é um partido de direita e espero que assuma sua posição. A minha já foi assumida. Eu sou de direita e isso não é pecado. É uma tendência ideológica, política e uma obrigação com aqueles que me elegem.

Há uma espécie de consenso social-democrata na política brasileira com a polarização entre PT e PSDB. Há espaço para a direita?

Nós temos entre profissionais liberais, empresários e produtores rurais mais de 20% da população que se encaixam no perfil da direita. Todo proprietário se encaixa, todo homem empreendedor. A direita é o Estado mínimo. Nós precisamos de um Estado mínimo que se preocupe com saúde, educação e segurança e deixe que a iniciativa privada corra o risco no resto. Assim, quando correr risco e quebrar, não somos nós que vamos pagar. Veja a Petrobras, maior empresa brasileira. O Estado teve de aportar R$ 70 bilhões nela neste ano. Quem pagou? Fomos nós. Todo tipo de concepção política precisa ser respeitada. Todo país tem esquerda, centro e direita.

Há como dissociar a imagem da direita da ditadura militar e de figuras que estão ficando folclóricas como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ)?

Todo regime de exceção não é de direita. Ele não tem ideologia, só tem força. O grande problema dos políticos brasileiros é que ninguém conhece uma tese política, não sabem o que significa ideologia. É muito mais oportunismo do que qualquer outra coisa. Você hoje chega em certas cidades e não entende nada. Você veja o prefeito Luciano Ducci em Curitiba. Ele fez uma aliança com todos os partidos. Não tem ideologia. O Beto Richa quando saiu candidato fez aliança com todos os partidos... No Brasil, nós não temos comprometimento com princípios. Infeliz­­­mente, o político brasileiro é despreparado e poucos são os que têm coragem de se definir ideo­­logicamente. É bom deixar essas coisas muito bem separadas: sou de direita e sou contra qualquer regime de força. Eu sou um democrata. Como não aceito não defender os princípios da igualdade e da fraternidade. Essa é uma posição de quem conhece política. Se você for perguntar para uma pessoa que não conhece, ele sempre vai te responder: “Eu sou de centro”. A pessoa de centro no Brasil não tem posição. E 90% dos caras que se dizem de esquerda só querem estar na moda. É importante que os políticos estudem um pouco para saber o que é ser de esquerda e direita.

O senhor acredita que as pessoas vão prestar mais atenção nisso?

É uma questão de tempo, uma mudança de geração. A geração que está entrando agora é muito mais preparada. Você encontra hoje escolas de política. Meu filho, que se elegeu agora [o deputado estadual Pedro Lupion], fez mestrado em ciências políticas nas duas melhores universidades da Europa e na melhor universidade dos Estados Unidos nessa área, a Georgetown. Apesar dos seus 27 anos, ele conhece mais do que qualquer um dos 54 deputados da Assembleia Legislativa. Porque estudou, sabe defender teses, está preparado para isso. Precisamos preparar nossa nova geração para que possa assumir esse espaço. Botar despreparados representando a população não vai dar coisa boa. Como já não está dando.

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