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Direita x esquerda

“O pensamento politicamente correto levou à demonização da divergência”

Entrevista com o jornalista Reinaldo Azevedo

  • Marcio Antonio Campos
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Há um ano, o PT realizava seu 3º Congresso Nacional e divulgava um vídeo em que, entre outras afirmações, defendia que “não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político de Estado a seu serviço”. O jornalista Reinaldo Azevedo, articulista da revista Veja, tem se dedicado a mostrar, em um dos blogs de política mais lidos do Brasil, como o PT coloca o Estado a seu serviço. Em O País dos Petralhas, livro que Azevedo lança quarta-feira em Curitiba, ele seleciona textos publicados no blog, além de artigos publicados nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Ao longo da obra, o leitor revive escândalos de corrupção, tragédias aéreas, bizarrices de presidentes vizinhos e até a visita do Papa ao Brasil. Confira alguns dos trechos da entrevista que Azevedo deu, por e-mail, à Gazeta do Povo.

Gazeta do Povo - A esquerda conseguiu associar "direita" e "ditadura" a ponto de haver uma vergonha coletiva em se dizer "de direita". É possível escapar dessa armadilha em um país onde a memória do regime militar continua relativamente fresca?

Reinaldo Azevedo - O único caminho é demonstrar que isso é falso e, claro, correr o risco de não ser devidamente compreendido. Mas esse é o risco permanente de quem decide participar, de algum modo, do debate público. E eu, sem ser político, participo. A rigor, o trabalho de todo jornalista tem essa dimensão. Não estou certo de que exista uma memória negativa do regime militar. Acho até que acontece o contrário, o que não é exatamente bom. Afinal, falamos de um período em que não havia democracia. Acho que a associação negativa se dá entre "direita" e a tal "exclusão social". Aí, sim, a esquerda é eficiente em propagar essa mentira. E, em certos ambientes subuniversitários, logo alguém se lembra de sacar aquela tolice do Bobbio segundo a qual um direitista é sempre um defensor do statu quo, e um esquerdista, alguém interessado em justiça. É uma definição pobre e estúpida.

E qual é a sua definição, então, de esquerda e direita?

Destacando que a minha definição vale para sociedades democráticas, com leis democraticamente votadas e instituídas, acho que o esquerdista é aquele que acredita que a lei possa ser transgredida para fazer o que ele chama "justiça social", e o direitista é aquele que está certo de que a transgressão legal provocará sempre mais injustiça. Para um direitista, nessa acepção, o caminho das mudanças é sempre a reforma institucional. Nessa definição, é evidente que sou, então, de direita.

Está se espalhando na sociedade um modo binário de pensar: quem critica o delegado Protógenes é acusado de defender Daniel Dantas; quem critica o revanchismo da Lei da Anistia é chamado de "defensor de torturadores"; críticos do PT são rotulados de tucanos; adversários do MST são chamados de amigos de grileiros; opositores do socialismo são acusados de defender a exploração dos trabalhadores. Como se chegou a um nível tão simplista de debate político?

Chegamos a esse ponto com a demonização da divergência, graças ao pensamento politicamente correto. Perdemos os matizes, que são uma característica fundamental do mundo e do pensamento. É evidente que sempre participamos de um debate com conceitos de "certo" e "errado". Isso é correto, é legítimo. Todos temos uma moral privada, pessoal, e adotamos uma ética pública, para o coletivo. Isso só se dá porque fazemos escolhas: "Isso eu aceito, isso não". Pois bem. É preciso que fique claro que o outro também faz escolhas. E que elas podem não ser as minhas, nem por isso menos legítimas.

Quer dizer que todo pensamento, então, tem legitimidade e merece ser respeitado?

Não! De maneira alguma!

Então explique o que parece ser uma contradição com a sua resposta anterior.

No meu mundo, é proibido, por exemplo, solapar as regras do jogo democrático. Eu não tenho de ser tolerante com quem tenta destruir as leis que me garantem a liberdade, por exemplo. Não posso ser estúpido de permitir que meu inimigo, em nome dos valores dele, tente me silenciar, enquanto eu, em nome dos meus, garanto seu direito à palavra. Democracia requer reciprocidade e respeito às regras do jogo. O lugar de alguns líderes do MST é a cadeia não porque eles queiram reforma agrária, mas porque invadem propriedades privadas produtivas. E isso está fora da regra do jogo. O que é legítimo? Que eu ache a reforma agrária uma estupidez e que eles achem uma coisa boa. Mas eu tenho de seguir a lei, e eles também.

Muitos dizem que você é excessivamente agressivo às vezes; que, em certas circunstâncias, você pode deixar de lado a argumentação elegante. Na sua opinião, isso ocorre? Não há o risco de se fazer uma caricatura do "Reinaldo briguento"?

Cada um chame como quiser. Não me preocupo com isso. Já classifiquei alguns de "vagabundos" e "ratazanas"? Já. E não me arrependo. Se preciso, chamo de novo desde que se comportem como vagabundos e ratazanas. Não respeito quem faz jornalismo a soldo; não respeito quem, sob o pretexto de combater um empresário bandido, recebe dinheiro de outros empresários bandidos. Ora, isso não é jornalismo nem debate público. É coisa de gente mafiosa. Como também desprezo quem aluga sua pena ao governismo - geralmente, qualquer governo. Acham deselegante? Paciência. Já passei da idade de retribuir com flores quem vem com pedrada. Prefiro o bom argumento. Se querem enfiar o dedo no olho, também faço isso com excelência. Se você me pedir que diga se me acho muito bom no debate elegante, deixo para você julgar. Se você me perguntar se me acho muito bom em enfiar o dedo no olho do adversário, responderei sem hesitar: sim, sou muito bom. Quanto à caricatura, ela seria feita de qualquer jeito, ainda que eu fosse sempre um anjo de delicadeza. Veja o que fizeram com José Guilherme Merquior. E não estou me comparando a ele, não. Ora, sempre foi um príncipe, no texto e no trato pessoal. Era tomado como sinônimo de truculência e servilismo à ditadura. Agora morto, dizem: "Ah, ele, sim, era elegante, não esse Reinaldo, esse Diogo, esse Nelson Ascher". Para eles, conservador bom e delicado é conservador morto.

Em abril de 2007, você comentava no blog que "o povo é de direita" (página 140 do livro) e apontava as falhas do DEM, incapaz de representar essa parcela da população. Alguma coisa mudou nesse ano e meio? O que falta para o DEM se tornar efetivamente um partido que represente os brasileiros "de direita"? Quem são os possíveis líderes de uma eventual direita brasileira? Existe algum deles no Paraná?

Começo pelo fim. Não me atreveria a citar possíveis líderes porque eles podem não gostar... fiz aquela afirmação com base numa pesquisa do Datafolha que demonstrava que os valores do tal "povo" são conservadores. E que nenhum partido, nem o DEM, assume essa perspectiva. Dou um exemplo claro: a população brasileira é majoritariamente contrária ao aborto. Mas não há um só partido com essa diretriz no país. Pior: os líderes políticos preferem driblar o assunto. Por quê? Medo de uma imprensa que é majoritariamente pautada pelos valores de esquerda. Eu não gostei quando o PFL mudou de nome, para DEM, porque a palavra "liberal" desapareceu das legendas brasileiras. Mas acho que o partido tem assumido posições corajosas, como fez liderando a resistência à CPMF. Mas não acredito que vá querer se colocar como uma legenda de direita, a exemplo do que acontece nas democracias européias. Seria esmagado pela imprensa. Não custa notar que ela chama o Democratas de "demo". Ora, não se trata apenas de uma forma sincopada: trata-se, literalmente, da demonização de uma partido que não reza segundo a cartilha de esquerda. Mesmo sendo moderadíssimo.

Você vê algum partido europeu ou norte-americano que poderia servir de exemplo para a direita brasileira? Se existem, que características você destacaria nesses partidos que podem ser transpostas à nossa realidade?

Essa transposição é muito difícil. Cada uma dessas direitas está profundamente ligada à história local. Veja o caso dos franceses: tem-se ali uma direita antiamericana, por exemplo, uma questão derivada do século 19, reforçada depois pelo gaullismo. A espanhola tem características ligadas à Igreja Católica que são muito próprias. A direita italiana vive a sua fase circense... eu tenho grande admiração por tudo aquilo que os republicanos representam nos EUA. Ali se trava ainda uma luta que considero essencialista: o indivíduo contra o Estado. Tenho enorme admiração por aquele "meião" vermelho, vermelhos republicanos que dizem “deixem-me em paz”. São ridicularizados pelo militantismo politicamente correto porque este não cessa de ser estúpido. De lá saíram os soldados que atravessaram o Atlântico ao menos três vezes para lutar na Europa. A Normandia esconde muitos cadáveres daquela brava gente.

Você critica o PT por tentar destruir a oposição, a ponto de haver petistas dizendo que o DEM deveria ser extinto. Em Curitiba, há um cenário em que a oposição na Câmara é praticamente inexistente, e o Legislativo municipal atende a todas as vontades do prefeito, que é do PSDB. Como você avalia essa situação?

Não conheço a situação curitibana. Em tese, a inexistência de oposição é ruim para a política e para os cidadãos. O que não quer dizer que toda oposição seja boa e de princípio. Há gente que resiste a isso ou àquilo para aumentar o valor do resgate... mas aí é preciso fazer uma distinção: o PSDB é um partido com um projeto "hegemonista"? Não! Ainda que, em Curitiba, seja como você diz. O PT votou contra todos - TODOS - os projetos modernizantes do governo FHC. Aliás, negou-se a homologar a Constituição. PSDB e PFL, agora DEM, pagaram na mesma moeda? Não: ajudaram o PT a fazer a reforma da Previdência que o PT os impediu de fazer, por exemplo. Você já viu tucano ou democrata atacando o superávit primário ou a Lei de Responsabilidade Fiscal? Você os viu tentando sabotar o PAC ou, agora, as MPs contra a crise? Isso é participar do jogo democrático. Não são partidos que lidam com a lógica do presente eterno.

Caso o PT não consiga emplacar um nome viável para 2010 e perca as eleições, e considerando o sucesso dos métodos de Gramsci usados hoje, você vê possibilidade de um retorno de Lula em 2014?

Lula será sempre uma ameaça de retorno... se o PT perder as eleições em 2010, veremos de novo o PT que conhecíamos até 2002: vai tentar inviabilizar o próximo governo. E estará numa posição privilegiada para isso, já que tem o domínio dos sindicatos, está infiltrado no Judiciário, no Ministério Público, na Polícia Federal, na Abin, nas estatais, nos fundos de pensão, na padaria da esquina... o PT aparelha até festa de batizado e velório. Ora, o partido e a CUT, que é seu braço sindical, deram apoio, em São Paulo, a uma greve de policiais civis que foram armados às ruas. Destaco: greve de gente com arma na mão. Um coronel da PM foi baleado. O nome disso é sabotagem.

O primeiro capítulo de seu livro reúne textos sobre a imprensa, e sobre como ela engole facilmente qualquer versão esquerdista da realidade. É possível "desaparelhar" as redações no Brasil? Como?

Se soubesse, juro que diria. O fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista, no médio prazo, pode ser útil. Escolas de jornalismo são verdadeiras madraçais da esquerdopatia. Elas odeiam a imprensa. No mais, o caminho é fazer o debate público. Até porque nem todo mundo sabe que está seguindo uma cartilha.

No livro Bias, Bernard Goldberg fala do viés liberal da imprensa norte-americana, e afirma que muitos jornalistas não acordam de manhã e decidem atacar os conservadores; eles fazem isso automaticamente porque aprenderam a pensar assim: que os conservadores são maus. Esse pensamento é tão impregnado que o jornalista nem precisa ter a intenção de agir como age. Você vê esse "aparelhamento inconsciente" no jornalismo brasileiro?

Concordo, claro. Realiza-se a antevisão de Gramsci, segundo quem o Moderno Príncipe, que é como ele chamava o partido que conduziria a passagem para o socialismo, deveria atuar como um novo "imperativo categórico", como um "laicismo moderno". Até para se opor ao Moderno Príncipe seria preciso pertencer ao Moderno Príncipe. O caso dos palestinos é muito ilustrativo. Nove entre dez jornalistas são capazes de jurar que as lideranças palestinas praticam apenas resistência e são meras vítimas das maldades de Israel. Por quê? Porque a causa foi adotada pelas esquerdas, e eles se tornaram vítimas oficiais do establishment esquerdista da academia e da imprensa. As pessoas se contentam em ser ignorantes, desde que sejam tidas como generosas.

Quem lê seu blog sabe que você é um admirador de Bruno Tolentino e de Musil. Além deles, quem são seus principais mestres? O que cada um deles lhe ensinou de mais importante?

Seria uma resposta muito extensa, até porque gosto de muita gente pelos mais variados motivos - e tenho alguns gostos que são perversos... para estar nessa atividade, é preciso ler Weber e Marx, Burke e Tocqueville, Locke e Hobbes. Eu gosto das ironias do Marx político e da linguagem militante de Trotsky, embora possa odiar tudo o que está lá. No que respeita à literatura, não tenho gostos muito raros ou exóticos. Jornalista brasileiro que não lê – com verbo no presente – Machado, Eça e Padre Vieira está sendo deseducado com o leitor. Porque eles apresentam soluções geniais de linguagem que nos são úteis.

Nos comentários do seu blog percebe-se que os mesmos leitores que concordam com você no âmbito político discordam, às vezes com bastante veemência, quando você trata de assuntos como aborto, educação sexual e pesquisa com embriões. É paradoxal que as pessoas sejam ao mesmo tempo conservadores na política e liberais nos costumes?

Não, é até bastante coerente. Existe uma sólida tradição do pensamento liberal anti-religioso. É compreensível que assim seja. Também entre os conservadores há matizes, que vão, vá lá, do "conversador conservador" - talvez eu seja um deles - ao "conservador liberal". Eu entendo que existam essas restrições e as considero legítimas. Se eu conseguisse justificar, perante a minha própria consciência, o aborto e a destruição de embriões, com propósito tão nobre, eu o faria. Mas não consigo. E expressar as minhas restrições é uma questão de honestidade intelectual e moral com os leitores. Ainda que eles me batam um pouco por isso.

Depois de alguns lançamentos, seus leitores comentaram sobre a atenção individual que você deu a eles, sobre o fato de ter se lembrado de cada um. Se o número de leitores aumentar exponencialmente graças à divulgação do livro, você acha que será possível manter essa relação tão individualizada com eles?

Sou sempre atencioso com quem fala comigo porque sou mesmo assim. Não preciso forçar a barra. Como bato muito duro às vezes - mas só em larápios e ratazanas -, muita gente acha que tenho temperamento irascível. Não tenho. Sou uma pessoa quase sempre feliz. Ao contrário até: detesto gente que faz praça de seus maus bofes. Os leitores costumam participar do debate com apelidos. Lembro-me de muitos. Minha memória para textos sempre foi muito boa. E continua, apesar dos meus 47 anos. Sou péssimo para caminhos. Se sair para comprar cigarros, corro o risco de me perder... ainda bem que não sou - acho que não - tão desorientado quando leio ou escrevo. Mas sei que esse não é um juízo unânime. Paciência!

Colaborou Breno Baldrati

Blog: www.reinaldoazevedo.com.br

Serviço

Lançamento do livro O País dos Petralhas. Texto de Reinaldo Azevedo. Editora Record. R$ 39. Quarta-feira, às 19h30, nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação.

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