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Marcelo Andrade/Gazeta do Povo / A psicóloga Eleonor Cecília Batista no pavilhão masculino “Lins de Vasconcellos”, já desativado: celas, paredes largas e vãos nas portas são documento sobre mentalidade manicomial do século passado A psicóloga Eleonor Cecília Batista no pavilhão masculino “Lins de Vasconcellos”, já desativado: celas, paredes largas e vãos nas portas são documento sobre mentalidade manicomial do século passado
Cidade

Uma paisagem em despedida

Hospital que deu nome ao bairro Bom Retiro será transferido e demolido, apagando do cenário curitibano a arquitetura que guarda memória da psiquiatria brasileira

Publicado em 26/08/2012 |
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Em breve, quando uma criança do Bom Retiro perguntar a seus pais por que o lugar onde mora se chama assim, não será mais possível respondê-la com um simples apontar de dedo, na direção dos altos da Rua Nilo Peçanha. O Hospital Bom Retiro – cujo título acabou se estendendo também ao bairro – será demolido nos próximos dias, depois de 67 anos de funcionamento. Não será fechado, como se chegou a alardear, mas transferido para uma nova sede, no Jardim Botânico, o que diminui apenas em parte o impacto de mais essa mudança drástica na paisagem e na memória urbana de Curitiba.

O prédio segue a arquitetura padrão dos sanatórios brasileiros da primeira metade do século passado. Não é tombado pelo Estado nem considerado unidade de interesse de preservação. Tampouco é oficialmente preservado o bosque que ladeia os 50 mil metros quadrados do terreno. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente informa que logo que um novo projeto de ocupação for apresentado, técnicos farão um estudo do local, que abriga nascentes e pequena mata de pinheiros-do-paraná. Nos muros que tomam quase todo o quarteirão, moradores têm expressado seu medo de que junto com o edifício se perca também a mata que faz do Bom Retiro, “aquele bairro do hospital”, um dos poucos com um arvoredo de quarteirão.

Daqui pra frente

Demolição do velho Bom Retiro depende de finalização de obras da nova sede. Para administradores, “é questão de dias”, pois há compromissos firmados com os novos proprietários. Valor da negociação não foi revelado.

Ponta do lápis – O Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro vai manter o nome de fundação, feita em 1945, mesmo quando se mudar para o Jardim Botânico, mês que vem. Como as novas instalações são menores, o número de vagas baixou de 145 para 122. Cada paciente custa ao SUS R$ 67 por dia e o gasto do hospital é de R$ 700 mil/mês. “Com os CAPs [centro de atendimento psicossocial] e o hospital-dia, acabamos atendendo mais pessoas do que no modelo de internação”, pondera o administrador da Federação Espírita do Paraná, Marco Antônio Negrão, 57.

Filosofia – A nova sede – atrás do Supermercado BIG da Avenida das Torres – foi construída dentro dos parâmetros do Ministério da Saúde. Não há portas nos quartos e enfermarias. Cortinas de vidro tornam os corredores transparentes e bem iluminados. Todo prédio é térreo. Vai se repetir ali a experiência dos últimos anos no “velho” Bom Retiro: convivência máxima entre todas as pessoas que estão na casa. “Apartamos mais namoros dos pacientes que brigas”, dizem os profissionais.

Desmanche – A Federação Espírita do Paraná será a responsável pela demolição do prédio da Rua Nilo Peçanha, 1.552, entregando o terreno limpo. Janelas, escadas de madeira e demais equipamentos com valor patrimonial serão resgatados. Os restos mortais do benfeitor Lins de Vasconcellos devem ser transladados para um espaço da federação, na cidade de Balsa Nova, na RMC. Nos preceitos espíritas, uma cerimônia reservada deve ser celebrada no interior do hospital, em data não divulgada.

O que será? – Conforme apuração da reportagem, o projeto do InvesPark no terreno do antigo hospital ainda não foi registrado na prefeitura. Extraoficialmente não se vai fazer ali mais um shopping convencional para atender a pequena população do bairro – pouco mais de 5 mil moradores –, mas um mix de condomínio vertical de alto padrão e comércio, tirando proveito da proximidade com o bosque, espera-se.

VÍDEO: Veja filmagem dos bastidores do Hospital Psiquiátrico Bom Retiro

FOTOS: Veja slideshow com imagens atuais e antigas

Nos bastidores da instituição, tanto quanto perguntar sobre o sumiço do “Bom Retiro” é provocar lágrimas, sempre muito discretas, bem à moda dos espíritas, criadores e mantenedores da obra. A Federação Espírita do Paraná (FEP) vendeu o hospital para a incorporadora InvesPark, não sem antes enfrentar um telecatch entre os membros dos 323 centros espíritas que formam a FEP. O argumento mais usado é que o local foi erguido graças à doação do mítico empresário Lins de Vasconcellos (1891-1952), inclusive sepultado no jardim da instituição, segundo seu desejo.

O bate-boca chegou às redes sociais, mas pesa sobretudo o argumento de que as instalações do Bom Retiro não satisfazem mais às exigências do atendimento psiquiátrico. Há escadas em demasia, paredes grossas demais e problemas estruturais de tal monta que fazem da bela paisagem também uma grande tormenta.

O mesmo vale para os pacientes que ocupam os 145 leitos disponíveis [foram, um dia, 260]. Por mais que os tratamentos tenham se modificado, o que os pacientes veem em volta remete aos capítulos mais cinzentos do serviço manicomial. Eis o paradoxo. Para o sistema de saúde, o prédio do Bom Retiro deve ser aposentado. Para a história, aquela arquitetuta espartana é um verdadeiro dicionário dos lugares que, uma vez, receberam o nome de “hospício”.

É o que há. Pavilhões, já desativados, são dos tempos em que havia celas – à moda monástica –, janelas pequenas e altas, para evitar fugas e suicídios, frestas nas portas para passar medicamentos e pálidos filetes de luz nos corredores. Impossível não se imaginar ali e não se entristecer. Onde seria a mesa de eletrochoque? “Está tudo impregnado de sofrimento”, comenta Eleonor Cecília Batista, 59, coordenadora dos 160 profissionais de saúde que atuam ali.

A chorar, Eleonor prefere lembrar que o Bom Retiro assistiu à maioria dos embates terapêuticos do século. Foi protagonista. Enfrentou sobressaltos e críticas, como as ligadas à publicação do livro O canto dos malditos, de Austregésilo Carrano. “Respondemos a todos os ataques trabalhando e criando”, afirma sobre a que é uma das mais inglórias áreas da saúde.

Nos últimos dois anos, por exemplo, o Bom Retiro aboliu os muros internos que separavam pacientes homens e mulheres. Fez do refeitório um território livre. Ainda mantém o crachá marcando, de 1 a 5, em que nível o paciente está, mas há mais visitas de parentes e amigos. Uma cantina. Telefones públicos – pequenas estratégias para diminuir o sofrimento mental. É preciso. No pátio, um canta sertanejo universitário, outro reza “Ave Maria”, alguém grita: “Quer polenta?”. Eis a trilha sonora.

Temia-se que com menos barreiras entre os internos o Bom Retiro iria se transformar numa tormenta a cada cinco minutos. Que nada. “Nunca mais precisamos chamar socorro. Estávamos certos. Quanto menos confinamento, mais harmonia. Foi uma revolução”, festeja a enfermeira Elizete Pierri, 50, sobre o local um dia erguido para proteger os esquizofrênicos da sociedade, e vice-versa, erguendo-lhes uma fortaleza, para que ali se retirassem. “É passado”, dizem, desviando da mudança que se acumula pelos cantos.

Vida e Cidadania | 2:46

Um hospital em retirada

Em um mês, centro de saúde que dá nome ao bairro do Bom Retiro vai ser demolido, apagando da paisagem curitibana prédio cuja arquitetura ajuda a entender a psiquiatria no Brasil do século 20.

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