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Andr Rodrigues/Gazeta do Povo

Andr Rodrigues/Gazeta do Povo / Miriam Brando, no apartamento onde vivia com o desaparecido Renato: Se toca a campainha, penso ser ele. Miriam Brando, no apartamento onde vivia com o desaparecido Renato: Se toca a campainha, penso ser ele.
Ausncia

O dia em que minha casa caiu

Reportagem acompanha o drama das famlias dos desaparecidos. Histrias se arrastam por anos e paralisam a vida dos parentes. Policiais e assistentes sociais se tornam amparo para aqueles que se negam a fazer luto em meio incerteza

Publicado em 25/08/2013 |
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Ele tem 1,67 metro e 67 quilos. baixinho. Talvez esteja de barba. No sei como meu marido fica de barba..., entristece-se Miriam Brando, porta do apartamento onde mora, no bairro Ah, em Curitiba. Ele o engenheiro Renato Brando, 56 anos, desaparecido desde 13 de setembro de 2011, durante um passeio de bicicleta, levando a chave da casa e R$ 120. Ela no perde a oportunidade de descrev-lo e de distribuir um dos 2,5 mil cartazes que imprimiu, com foto e telefone.

INFOGRFICO: Confira fotos dos locais onde familiares procuram por parentes que saram de casa e no voltaram

Procura-se

Nem sempre eles saem para comprar cigarro. Podem sair para comprar po e no voltar. H quem sofra de Alzheimer e quem no fez uso adequado de medicao. Esses e outros casos tm endereo certo na capital o albergue do Resgate Social, no Centro de Curitiba. No raro, famlias procuram seus desaparecidos na fila de moradores de rua em busca de pernoite. Os educadores contam essas histrias como causos.

O andarilho

Os ps machucados foram o principal sinal de que um dos jovens fila do albergue poderia ser um desaparecido. A assistente social Rosane Nunes de Deus e sua equipe desconfiaram que ele teria andado muito at chegar ali. Os modos e as roupas denunciavam que no morava na rua. Precisamos ter percia nessas horas. No bolso da cala dele encontramos uma passagem de Joinville. Achamos a famlia e descobrimos que o rapaz tinha deixado de tomar seus medicamentos.

A bela

Ela estava bem vestida, maquiada e passou a noite toda no Terminal de Santa Felicidade. A Ao Social foi acionada, mas a mulher no deixava ningum se aproximar de sua bolsa na qual deveriam estar os documentos. Era arisca. No dizia uma palavra, conta Rosane, sobre a desaparecida de 37 anos, legtimo personagem de novela. Restou arrumar um espelho e fazer com que a bela se olhasse. Ao se ver, disse seu nome, o que permitiu encontrar o marido, j em desespero.

O ressuscitado

A educadora social Ivanete Mendes tem fama de p quente. So seus os mais incrveis episdios da FAS. Certa vez, na madrugada, encontrou um rapaz na Vila Verde. Era de Cerro Azul. Levou-o at l. Ao v-lo, a me se benzia e gritava. O povo em volta. Tempos antes, a mulher tinha recebido um corpo como sendo do filho sumido.

Via-sacra

Cada rgo que pode ajudar a encontrar desaparecidos tem suas estatsticas. Nem sempre coincidem, o que impede fazer um diagnstico com o perfil e a quantidade de pessoas que no voltaram para casa.

1. Delegacia Eletrnica Fazer boletim de ocorrncia eletrnico no costuma ser a primeira medida tomada por familiares de desaparecidos. Mas devia. O sistema se sofisticou e d retaguarda para a tradicional Delegacia de Vigilncia e Capturas, a DVC, que investiga 122 desaparecidos no Paran. Nos ltimos quatro meses a Delegacia Eletrnica fez 146 BOs de desaparecimento, com divulgao no Facebook: 62 (42%) foram localizados.

2. Sicride Em se tratando de crianas, procura feita por servio especializado que conta com 12 policiais, mais grupos de apoio no interior. A delegacia investiga 28 casos, alguns desde a dcada de 80. O rgo recebe em mdia trs denncias por dia.

3. Albergue da FAS Um dos primeiros impulsos achar que o familiar desaparecido perdeu a memria e virou mendigo. Da a busca nos albergues. O maior deles tem 300 leitos os moradores crnicos, cerca de 40%, costumam ser boa fonte de informao para parentes em busca. As suspeitas comeam no preenchimento do cadastro, quando o candidato a uma cama no sabe o prprio nome. No h dados oficiais.

4. IML Atende entre 120 e 140 famlias de desaparecidos por ms. O instituto calcula que entre 30% a 35% das pessoas ali procuradas estejam vivas; 25% so localizadas nas 96 gavetas e que 40% se encaixem na categoria desaparecidos.

Miriam uma tpica mulher de desaparecido. Acredita que Renato est vivo. No faz luto, nem pretende, apesar do tempo e da falta de pistas. Incluiu na sua rotina de me e trabalhadora o expediente de buscadora profissional. Precisa ter nervos de ao. Nos ltimos dois anos, aprendeu a circular nos labirintos dos rgos de segurana pblica. E nos labirintos das ruas no poucas vezes saiu pela madrugada, tirando cobertor do rosto dos mendigos, para ver se um deles no era o Renato sem memria, mais magro e com barba, como supe.

H um imaginrio em torno dos desaparecidos, explorado pela fico, como se pode ver na novela Amor vida; e pelo noticirio, a exemplo do sumio do pedreiro Amarildo de Souza, em 14 de julho, na favela da Rocinha. Quem saiu de casa para comprar cigarros e no voltou, como se diz, pode ter sido vtima de atropelamento, latrocnio, queima de arquivo, distrbio mental, amnsia ou mesmo dissabores com parentes, para citar alguma das verses mais corriqueiras. Os familiares sempre se perguntam se teria sido enterrado como indigente. Ou se jaz num terreno baldio.

Quem atende no setor confirma. Fim de tarde sempre de angstia para quem tem parentes desaparecidos, diz a delegada Luciana Novaes, do Servio de Investigao da Criana Desaparecida, o Sicride. Tem famlia de desaparecido que liga diariamente para o albergue. Que vai todo dia IML. J pensou o que isso?, acrescenta Rosane Nunes de Deus, coordenadora na Fundao de Ao Social. Os parentes descobrem que o mundo muito grande. Onde vo procurar? triste. Atendo pelo menos dez mes por dia. Muitas me contam que ouvem o filho chamando no porto..., acrescenta a assistente social do IML Edina Amato.

To incerto quanto os motivos do desaparecimento e o destino do corpo o nmero de brasileiros nessas condies. H dados na Delegacia Eletrnica, no IML, na Delegacia de Vigilncia e Capturas rgos da Polcia Civil do Paran e na prefeitura (leia quadro abaixo).

Oficialmente, no Paran, so 150 desaparecidos. Tudo indica que so mais. Some-se a isso a possibilidade nada absurda de que algumas dessas pessoas tenham cruzado uma fronteira torna qualquer hiptese uma misso impossvel: ainda no se desenvolveu um mecanismo que cruze dados nacionais, o que parece longe de acontecer, apesar dos esforos de ONGs e mesmo de alguns setores do servio pblico.

O observatrio dos desaparecidos um projeto em gestao. Ainda vemos os setores que cuidam disso como lugares macabros, de tragdias, e no como um espao de cincia e dados sobre a sociedade, lamenta o mdico Porcdio Vilani, 66 anos, diretor do Instituto Mdico Legal.

Ser ou no ser

Outro problema, contudo, ainda mais difcil de ser mensurado pelas estatsticas os estragos feitos s famlias. Passados em mdia seis meses do desaparecimento, os amigos e parentes tendem a retomar suas rotinas, restando para os mais prximos a solido da busca e o fantasma do desaparecido. Toca o telefone, pode ser ele. A campainha... Um vulto na esquina, pode ser ele, com vergonha de se aproximar. Aquele carro de trs no trnsito. Ser? noite, um barulho na sala. Teria voltado? Sem falar nas contas bancrias e bens congelados, anos a fio, at que o caso se resolva.

Sinto minha vida paralisada. Meu corao dispara a cada andarilho que vejo. s vezes, penso que vou chegar do trabalho e encontr-lo na frente do prdio. Subiremos a escada juntos. Tudo isso ter passado, conta Miriam, repetindo uma narrativa parecida feita por outras pessoas que viviam na mesma casa de um desaparecido. comum que tomem algumas atitudes como doar todas as roupas ou fazer uma reforma na sala. Mas tendem a voltar atrs, mantendo escritrios e quartos intactos, confirmando o ser ou no ser que imobiliza aqueles que ficam.

J ouvi casos de gente que voltou oito ou dez anos depois, sem memria. E se for o caso dele?, pergunta Miriam, escolada por alarmes falsos: j procurou Renato num morador de rua de Primeiro de Maio, Norte do Paran; num andarilho de Piarras, Santa Catarina. Teve esperana ao saber de corpos achados pela Polcia Civil aqui e ali. Foi a programas sanguinolentos. Pagou videntes. Padeceu um trote de mau gosto. Doutor Leocdio diz que ele est vivo. Vou continuar postando a foto do Renato no Face, diz a mulher do desaparecido.

Sem tranca na porta dos fundos

Noite de 17 de outubro de 2009. Marcelo Camargo de Jesus, 27 anos, assiste a um filme de Mazzaropi em companhia da me, Anadir Alves de Jesus. O telefone toca convite para um bar. O rapaz diz j volto, pega a bicicleta e nunca mais visto.

Dona Anadir, hoje com 59 anos, perdeu a conta de quantas vezes descreveu seu filho para estranhos. Ele alto, magro, e gosta de se vestir com agasalhos da Adidas, explica. Ela carrega uma foto 3 X 4 na bolsa, deixa a porta dos fundos destrancada e nunca mais cozinhou nhoque, prato preferido do rapaz. Incluiu um endereo na sua rotina semanal: o IML. s vezes, circula no quarteiro do instituto, espera de coragem. Eu acho que ele est morto. Mas quero enterr-lo.

A assistente social Edina Amato diz que so tantas as Anadires que ela e suas companheiras de trabalho j pensaram em criar o grupo das Mes do IML. So especialistas em longa espera. No descansam. A cada nova ossada encontrada, rumam at l, acreditando ser dessa vez que tudo vai se resolver. Embora no seja regra, esses desaparecidos crnicos e suas mes tm classe social so homens, de baixa escolaridade, autnomos e no raro envolvidos com entorpecentes.



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