Domingo, 01/08/2010
Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Reinaldo França, líder comunitário do Tatuquara: barracão para velórios foi interditado
Falta de capelas mortuárias comunitárias obriga famílias a velarem seus mortos em casa ou pagar pelo serviço em cemitérios
Publicado em 13/12/2009 | Vanessa Prateano, especial para a Gazeta do PovoO bairro não possui local apropriado para velar os corpos, como uma casa mortuária. As igrejas da região só aceitam velar os fiéis, e o único espaço que servia para velórios foi desativado há dois anos. “Era um barracão que nós, da associação de moradores, construímos, há cinco anos. Mas a prefeitura desativou, dizendo que o local era inapropriado. Desde então, quando morre alguém , a gente tem de se virar”, conta o líder comunitário Reinaldo França.
Os danos psicológicos sofridos por quem precisa velar um parente em casa ou então longe da comunidade – que poderia dar apoio e assistência ao enlutado –, são relativos, de acordo com a psicóloga especialista em Tanatologia (ciência que estuda a morte) Joyce Fischer. Cada caso é singular. “Velar em casa pode ser uma oportunidade, para aquele que fica, de entender e aceitar melhor a morte, ao vê-la tão próxima. Já para algumas pessoas, isso pode significar uma violência, no sentido de que isso é feito contra a sua vontade, mexendo com as suas superstições e medos”, diz.
O velório distante, longe de amigos e parentes, é difícil para a família. “Quem fica quer apoio nesse momento. A morte ainda é um tabu. O problema não é a forma como velamos, mas o fato de não termos recursos para lidar com a morte. De toda forma, é preciso dar à família a oportunidade de escolher [onde fazer o velório]”.
Velório em casa é proibido?
Segundo a coordenadora da Vigilância Sanitária em Curitiba, Rosana Zappe, não existe legislação municipal, estadual ou federal que proíba a prática dos velórios realizados em domicílio. “O que existe é uma recomendação da Vigilância Sanitária para que se evite velar em casa, principalmente em casos de doenças infectocontagiosas. Mas, mesmo assim, há doenças desse tipo que não oferecem perigo após a morte do paciente, como a aids.
Já no caso da gripe A, não há nem velório, com a pessoa sendo enterrada imediatamente após o óbito, por motivo de precaução”.
Quem não está disposto a passar pela mesmo desconforto tem de contratar os serviços de uma capela mortuária de algum cemitério. Foi o que fez a produtora de eventos Denise Semmer. Quando o marido faleceu, ela não quis velá-lo em casa e contratou os serviços do cemitério do Boqueirão. “Embora tenha ficado caro, eu optei pelo serviço terceirizado. Minha avó, quando perdeu minha tia, fez o velório em casa, por falta de opção. Depois, ela nem conseguia ficar lá dentro e teve de vender o imóvel”, afirma. Outro problema enfrentado por Denise foi na hora de receber os amigos para o último adeus. “Como o cemitério é muito longe e muita gente não tem carro, vários amigos não puderam se despedir.”
Outros bairros
De acordo com o secretário da Federação Comunitária das Associações de Moradores de Curitiba e Região Metropolitana (Femoclam), João Pereira, “cada vez que morre alguém em qualquer bairro pobre da cidade, é uma novela pra conseguir velar”. Em alguns casos, é preciso emprestar a sede de alguma associação para o velório. “Nem é correto fazer isso, do ponto de vista da saúde, mas não tem jeito. É uma humilhação o que a gente vive”.
A presidente da Associações de Moradores da Vila Rose II, na CIC, Marlene Cardoso, diz que “quase todo dia tem coroa de flores na porta de alguma casa”. De acordo com ela, a prefeitura alega que não há espaço para a construção de um local adequado. A presidente do Clube de Mães da Vila Pantanal, no Boqueirão, Deise Siqueira, conta que quando seu marido, o líder comunitário Dirceu do Pantanal, foi assassinado, em abril, ela precisou recorrer à igreja presbiteriana do local. Segundo Deise, a falta de regularização da área impede a criação de muitos serviços. A situação se repete no Uberaba. “Nem adianta reclamar muito, pois, enquanto não regularizarem os terrenos, não dá pra construir uma capela”, conta Carla Cirene de Matos, presidente do Clube de Mães local.
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