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Daniel Castellano/Gazeta do Povo

Daniel Castellano/Gazeta do Povo / Tarcisio Reis da Silva diz que o corpo de seu primo estava conservado quando o reconhecimento foi feito, mas que chegou em decomposição ao velório Tarcisio Reis da Silva diz que o corpo de seu primo estava conservado quando o reconhecimento foi feito, mas que chegou em decomposição ao velório
Denúncia

Corpo em decomposição põe IML sob suspeita

Familiar relata que cadáver foi entregue em mau estado; funcionários de funerária e do órgão dizem que falhas nas geladeiras são frequentes

Publicado em 14/01/2010 |
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Em seu velório na Bahia, o corpo de José Gilberto Alves Reis, de 33 anos, estava com a barba por fazer. A aparência não se deve à escolha da família ou à preguiça dos funcionários da funerária, mas ao estado do cadáver quando retirado do Instituto Médico-Legal (IML) de Curitiba (o corpo foi transferido após esses procedimentos). Seu primo, o empresário Tarcisio Reis da Silva, de 24 anos, assustou-se ao encontrá-lo em decomposição, no último dia 6. Na foto apresentada para o re­­conhecimento, Silva disse que o corpo de seu parente estava perfeito: “Até parecia vivo”. Ao vê-lo, no entanto, foi impossível não reparar em suas condições atípicas: o tom de pele escurecido e o odor de carne em fase de apodrecimento.

“Achei estranho o corpo estar naquele estado, mas sou leigo. Foi quando o funcionário da funerária afirmou que estava em decomposição”, relata. Conforme Silva, o funcionário apresentou duas suposições para a situação: o corpo teria ficado fora da geladeira que abriga os cadáveres no IML ou o equipamento estaria avariado. Membro da diretoria da instituição, Antônio Caccia admite que houve problema em um dos equipamentos no início do ano. “A câmara fria estava em degelo e não sabíamos. Percebemos o problema no dia 5 e foi imediatamente solucionado. Só que o corpo desse rapaz realmente estava nesse local”, afirma.

Intervenção é criticada

Alguns dos problemas do Ins­tituto Médico-Legal (IML) de Curi­tiba teriam começado depois da intervenção, em fevereiro de 2008. A afirmação é de Afonso e Geraldo (nomes fictícios), respectivamente funcionários de uma funerária e do próprio órgão. À época, a Se­­cretaria do Estado de Segurança Pública alegou que a intervenção foi realizada para solucionar problemas históricos do Instituto. Previa-se o aumento no quadro de funcionários e me­­lhoria na infraestrutura e no atendimento a familiares de vítimas. Entretanto, a colocação de uma nova diretoria apenas teria ampliado alguns problemas, como a falta de manutenção de geladeiras e câmaras frias.

Segundo Antônio Caccia, mem­bro da atual diretoria, o IML aumentou o número de geladeiras para abrigar corpos, de 160 para 200 vagas, com a aquisição de uma nova câmara fria. Com a atual demanda (cerca de 30 cadáveres por fim de semana), o órgão apresentaria estrutura suficiente para abrigar esses corpos.

Para Caccia, a reclamação dos funcionários de funerárias se deve a uma mudança de postura do órgão. Segundo o diretor, antes eles tinham livre acesso para abordar familiares no Instituto. Hoje, eles entram apenas para retirar os corpos. “Os carros das funerárias até ficavam estacionados no pátio do IML. Nós impedimos essa abordagem deles para respeitar as famílias”, diz. (VB)

Oficialmente, o IML nega a ocorrência de casos semelhantes. A reclamação de Silva, se­­gundo Caccia, foi a única a chegar. “Não houve queixa formal e informal de qualquer outra pessoa”, diz. Presidente do Sindicato do Serviço Funerário do Estado do Paraná, Gelcio Miguel Schi­bel­­bein adota a mesma postura do diretor do órgão: desconhece qualquer tipo de problema parecido. Segundo Schibelbein, as funerárias consultaram seus funcionários e não ouviram re­­clamações nesse sentido. Nos bastidores, contudo, conversas com colaboradores de funerárias e do próprio IML apresentam outra versão sobre o fato.

Funcionário de uma das funerárias da capital, Afonso (nome fictício) afirma que falhas nas geladeiras e câmaras frias são frequentes. Quando um cadáver é encontrado em decomposição, o órgão avisa a funerária e as famílias podem escolher uma urna vedada, impedindo a saída do cheiro. Nos casos em que não existe o alerta, as empresas levam caixões simples, e o odor atrapalha o transporte e os velórios. “Os putrefeitos vão direto para os cemitérios. Muitas vezes, a pessoa chega para recolher um cadáver normal, e acaba encontrando o corpo em estado de decomposição”, aponta Afonso. O problema não é diário, mas seria mais comum do que argumenta o órgão.

A questão se acentua no verão, quando as temperaturas sobem, acelerando o processo de decomposição. Um dos oficiais atuantes no IML confirma a informação. “Os corpos chegam a ser entulhados em uma câmara fria por falta de geladeiras. Há número de equipamentos suficiente, o problema é a manutenção”, avalia Geraldo (nome fictício). Segundo ele, em muitos casos, os cadáveres permanecem nos corredores do instituto, com o forte cheiro impregnando o ambiente. “Em um plantão, eu encontrei um jeito para guardar três ou quatro corpos na câmara fria porque estavam expostos”, diz o funcionário.

O próprio livro de ocorrências do IML mostra a necessidade de reparos estruturais, como nos exaustores (equipamentos responsáveis pela troca de ar do ambiente). “Solicito que seja realizada a manutenção nos exaustores da sala de necropsia e da sala de putrefeitos”, diz uma das reclamações, datada de 22 de novembro do ano passado. De acordo com Caccia, os consertos ocorrem assim que o problema é relatado ou percebido. “Não há mais nada dessa queixa do dia 22. Quando a gente nota algo de errado, o problema é resolvido em seguida”, garante.

Caccia lembra que todos os órgãos estão sujeitos a situações que podem causar dificuldades no dia a dia. “Às vezes acontece de cair a luz, várias possibilidades que ocorrem diariamente e que podem se transformar em uma grande dificuldade”, argumenta. Apesar de garantir que as manutenções são feitas com regularidade, o diretor admite a existência de falhas estruturais. “O prédio atual foi projetado em 1974, para uma população. O índice habitacional se multiplicou por dez nesse período, e o tamanho do IML continua o mesmo”, diz.

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