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Domingo, 05/09/2010

No escuro

À mesa, de olhos vendados

Jantar beneficente reúne 250 pessoas com o intuito de alertar para as dificuldades de quem não enxerga

Publicado em 15/06/2008 | Themys Cabral

Com o objetivo de transmitir a vivência da deficiência visual, o 1º Jantar às Escuras realizado em Curitiba, nesta semana, possibilitou uma experiência inédita para os 250 participantes do evento. Com os olhos completamente vendados, eles foram levados por entre as mesas por pessoas acostumadas a andar na escuridão: os deficientes visuais. Tato, olfato e audição aguçados pelo ambiente previamente preparado, foi a vez de testar o paladar, com a bebida e a entrada surpresa servidas. Garfadas depois, os participantes comentavam a experiência pela qual haviam passado.

O conceito de Jantar às Escuras foi criado em 1999, na Suíça, pela fundação Blind-Liecht, com o objetivo de sensibilizar a sociedade para os desafios vividos pelos deficientes visuais. O modelo foi replicado em diversos lugares do mundo. Em alguns, virou moda. O exemplo de maior sucesso é a cadeia de restaurantes Dans le Noir? (do francês “No escuro?”), com sede em Paris, Londres e Bruxelas – o jantar é realizado completamente às escuras e os garçons são cegos.

Fotos: Pedro Serápio/Gazeta do Povo

Fotos: Pedro Serápio/Gazeta do Povo / Convidados são guiados, em fila,  por deficiente visual até seus lugares Ampliar imagem

Convidados são guiados, em fila, por deficiente visual até seus lugares

Experiência: Difícil é achar a comida no prato

De pronto, o convite me deixou curiosa. Amante de viver experiências inusitadas, aceitei de cara participar do Jantar às Escuras, afinal, teria uma oportunidade única de compreender melhor o universo do deficiente visual. Estabanada por natureza, fiquei contente de passar pela primeira parte do evento (entrada e acomodação às mesas) sem cometer nenhuma “gafe”. Estava orgulhosa de mim. Afinal, estava utilizando as taças de bebidas, com lentidão, mas sem atropelos.

Eis que chega o prato de entrada do jantar e começa o meu martírio. Minha vontade inicial era tatear a comida com a ponta dos dedos e levar o prato até o nariz para cheirar e tentar descobrir o que tinha ali. Mas imaginei que ficaria muito feio se eu realmente fizesse isso (principalmente porque havia colegas da imprensa que estavam sem a venda nos olhos).

Desisti do meu ímpeto e resolvi arriscar. Seja lá o que tivesse sido servido a nós, deveria ser algo gostoso, afinal. Talheres em punho, tento achar a comida no prato. Nada! Garfadas vazias depois, consigo levar alguma coisa à boca. Não sei o quê (só consegui descobrir depois, perguntando à garçonete, que se tratava de um “terrine de cogumelos”) .

A experiência foi inesquecível. Dizem que só aprendemos quando sentimos na pele o que o outro sente. Foram 20 minutos apenas. Mas, foram minutos em que o relógio caminhou mais devagar. Meus gestos, sempre tão atropelados, ganharam outro ritmo. Esses 20 minutos, certamente, não serão esquecidos.

Themys Cabral, repórter de Vida e Cidadania

Na experiência curitibana, promovida pelas organizações não-governamentais Universidade Livre para a Eficiência Humana (Unilehu) e Instituto Pró-Cidadania de Curitiba (IPCC), em parceria com a Fundação de Ação Social (FAS) da prefeitura de Curitiba, optou-se por tentar evitar o choque dos participantes. Em vez de um jantar todo às escuras, a regra da venda nos olhos só valia para a entrada e para o primeiro prato, servido individualmente, já na mesa. “As pessoas iam se assustar demais se fizéssemos o jantar todo com olhos vendados”, justifica a presidente da Unilehu, Andréa Koppe.

Vinte minutos com vendas nos olhos parecem mesmo ter sido suficientes. “Senti desespero por não enxergar”, contou o secretário municipal Antidrogas, Fernando Francischini. “Queria tirar logo a venda dos olhos”, disse. “Desde a entrada, não sabia se estava escutando água ou plástico. Depois que eu descobri que havia folhas no chão”, contou o empresário Loivo Kohler. “É uma experiência inenarrável. Tive dificuldade para caminhar e falar. Na nossa mesa, estávamos todos gritando, porque ficamos sem noção. Você não sabe onde o mundo acontece”, disse a presidente da FAS, Fernanda Richa.

Guias

Terminada a experiência, os participantes foram convidados a ajudar os seus guias cegos a se servir no bufê. “É um exercício de reflexão”, afirmou Andréa. “Na hora que a gente não enxergava, ela (a guia cega) conseguiu nos conduzir”, disse Francischini. “É uma experiência ímpar. Vou me colocar no lugar dessas pessoas. Já as respeito e vou respeitar ainda mais a partir de agora”, afirmou a coordenadora de responsabilidade social da Renault do Brasil, Cristina Gonçalves.

Os deficientes visuais que participaram do evento apoiaram a iniciativa. “Queremos mostrar para as pessoas como é conviver com a deficiência e mostrar que é possível superar, conseguir levar a vida”, disse o estudante Gerson Maciel, 26 anos, cego desde os 7. “As pessoas passaram por um curto período o que a gente passa a vida inteira”, comenta o deficiente visual Osvaldo Almeida Bezerra, 26 anos.

Cada convite para o 1º Jantar às Escuras custou R$ 150. A renda será toda revertida para a Unilehu e para o IPCC e será utilizada em cursos de qualificação profissional para pessoas com deficiência. De acordo com dados do último censo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000, 14,5% da população brasileira têm algum tipo de deficiência, o equivalente a 24,6 milhões de pessoas. Destas, 9 milhões exercem alguma ocupação. Cerca de 16,5 milhões de pessoas têm algum grau de deficiência visual e quase 150 mil são cegos.

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