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Terça-feira, 09/02/2010

Daniel Castelano/Gazeta do Povo

Daniel Castelano/Gazeta do Povo / “Com a lei do rodízio de caminhões em São Paulo, só será possível circular nas principais vias da cidade das 22 horas às 5 da manhã. A que horas vamos dormir?” Raimundo Soares de Freitas, caminhoneiro paulista que trabalha há 28 anos nas estradas “Com a lei do rodízio de caminhões em São Paulo, só será possível circular nas principais vias da cidade das 22 horas às 5 da manhã. A que horas vamos dormir?” Raimundo Soares de Freitas, caminhoneiro paulista que trabalha há 28 anos nas estradas
Pesquisa

Hora extra na boléia não dá chance para a saúde

Levantamento revela que 63% dos caminhoneiros têm problema de saúde; eles trabalham entre 14 e 20 horas diárias

Publicado em 31/07/2008 | Pollianna Milan

Depois de oito meses longe de casa, o caminhoneiro Ailton Cantele finalmente vai ver a família. Ele mora em Concórdia, Santa Catarina. Viajou durante quase um ano transportando cargas no Nordeste brasileiro. Apesar de ter trabalhado tanto, vai chegar em casa desapontado: a carga que pegaria em Curitiba para ser levada até Chapecó foi cancelada; por isso a viagem de volta ao lar terá de ser bancada pelo próprio bolso. “Quem tem conta para pagar corre. Eu não paro. O problema é viajar com a carreta vazia. É prejuízo na certa”, diz.

A realidade de Cantele é igual à de vários outros caminhoneiros autônomos do Brasil. Eles correm contra o tempo, chegam a trabalhar cerca de 18 horas por dia e dormem apenas cinco horas por noite – três horas a menos do que geralmente os médicos costumam orientar. Ficam pouco tempo com a família e não sabem o que é tirar férias. As conseqüências são visíveis: existem cada vez mais caminhoneiros com problemas de saúde.

Rebite é arma contra o sono

A combinação de poucas horas de sono e muito tempo dirigindo diariamente é perigosa. Quando o corpo não responde mais, motoristas que lutam contra o tempo para entregar mais cargas e, assim, ganhar mais dinheiro, começam a usar e abusar de substâncias psicoestimulantes, como café, refrigerantes e até anfetaminas (o conhecido rebite). Para a Polícia Rodoviária Federal, 18% dos motoristas parados em estradas paranaenses admitem usar anfetaminas para agüentar a rotina do trabalho. O mais curioso, entretanto, é que apenas 7% deles dizem que continuam dirigindo mesmo quando estão com sono.

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Motoristas sofrem com a falta de lazer

São poucas ou raras as opções de diversão para quem vive nas estradas. O caminhoneiro Paulo Roberto Sister, 24 anos de profissão, não se lembra da última vez em que entrou em um cinema de shopping. “Ah, faz muito tempo”, diz. Mas há pouco mais de um mês ele teve a oportunidade de assistir ao filme Tropa de Elite em um cinema itinerante, que estava montado em um posto de gasolina em que ele costuma parar. “A iniciativa é boa. Faltam mais atrações como essa”, comenta.

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Pesquisa feita pela Concessionária Rodonorte, com 2 mil caminhoneiros que passaram pelo trecho entre Curitiba e Ponta Grossa, aponta que 63% destes trabalhadores estão doentes. Por causa do sedentarismo e do excesso de peso, eles costumam sofrer de hipertensão, diabetes, obesidade e dores na coluna.

“Falta reeducação alimentar para este público. O problema é que eles não têm tempo para ir ao médico ou para fazer um exame. Aí, quando descobrem algo, ficam assustados”, afirma o enfermeiro Jacir da Silva Pinto, que ajudou no levantamento dos dados para o programa Estrada para a Saúde, da Rodonorte.

Os hábitos de vida poucos saudáveis acabam refletindo no número de acidentes nas rodovias. De janeiro a maio deste ano, a Polícia Rodoviária Federal contabilizou 3,5 mil acidentes nas estradas federais do Paraná: 1,2 mil envolviam caminhões. O levantamento da PRF aponta ainda que, dos 1,2 mil acidentes com caminhoneiros, 419 ocorreram por falta de atenção do motorista, 437 por razões climáticas, 30 por ingestão de álcool e 26 porque o motorista dormiu no volante. Os outros fatores são animais na pista, velocidade incompatível e ultrapassagem indevida.

O programa Comando de Saúde Preventivo da PRF, que é desenvolvido nas rodovias federais desde 2002, chegou a alguns porcentuais comuns para os caminhoneiros, que acabam explicando a quantidade de acidentes: 45,5% dos entrevistados apresentam problemas de alcoolismo, 33,2% são obesos e 21,5% são hipertensos. A grande maioria, 95%, não se preocupa com uma dieta alimentar adequada.

Já virou estereótipo: quando se pensa em caminhoneiros, a imagem que se tem é de um sujeito gordinho. O caminhoneiro paulista Raimundo Soares de Freitas, 28 anos na boléia, é só risadas quando questionado sobre a alimentação. O colesterol dele chegou a 700, quando a média de uma pessoa saudável não pode ultrapassar os 200. “Hoje comi uma costela bem gorda. Abandonei o regime porque o médico disse que era para eu comer menos e tomar remédio. Se não posso comer, não vou tomar nenhum medicamento”, conta.

A alimentação rica em carboidratos, com carne gorda, arroz e massas é a base das refeições de quem vive nas estradas. Além de não terem um horário e um lugar determinado para almoçar, os caminhoneiros costumam fugir das verduras, frutas e legumes por causa de uma crença antiga entre os profissionais: é o tipo de alimento que “não dá sustento”.

Segundo a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), o Brasil tem hoje 995 mil caminhoneiros autônomos que compõem uma frota de 1,55 milhão de veículos – no Paraná são 78,5 mil profissionais e 111,6 mil veículos. Isso significa dizer que há quase um milhão de trabalhadores que sofrem diariamente com as conseqüências de quem vive do sustento da boléia.

A pesquisa da Rodonorte mostra que 63% dos caminhoneiros atendidos dirigem entre 14 e 20 horas por dia. E o pior, grande parte diz não saber o que é tirar férias. “Não existe lazer e descanso para nós, que trabalhamos por conta. A sorte é que somos teimosos”, comenta Rubens Soares, há 30 anos nas estradas brasileiras.

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