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História

Daniel Derevecki/Gazeta do Povo

Daniel Derevecki/Gazeta do Povo / No porta-retrato, a imagem do pai de Hans Garbers, Johannes, que foi detido na campanha de nacionalização No porta-retrato, a imagem do pai de Hans Garbers, Johannes, que foi detido na campanha de nacionalização
Era Vargas

Um processo cultural forçado

Entre 1930 e 1945, Vargas, imigrantes e descendentes foram perseguidos, torturados e discriminados. Nem os soldados da FEB foram poupados. Era preciso esquecer o país de origem e entrar na guerra do lado brasileiro

Publicado em 27/09/2008 |
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Uma passagem interessante, que ocorreu logo depois da Segunda Guerra Mundial, dá uma idéia do que foi a campanha de nacionalização na era Vargas. O pracinha Nelson de Macedo Justus, pai do atual presidente da Assembléia Legislativa, Nelson Justus, foi entregar à família do ex-combatente Ary Rauen, como recordação do filho morto em guerra, a arma que foi recolhida em campo de batalha no momento em que ele foi atingido. Não se sabe ao certo o teor da conversa, mas a família não aceitou o presente porque Ary, filho de alemães, teria usado a arma para acertar nos próprios compatriotas. Ele havia se alistado pela Força Expedicionária Brasileira (FEB). A história é apenas um exemplo.

Sabe-se que muitos alemães e filhos deles – que moravam no Brasil – foram convocados pela FEB para lutar na Itália contra o próprio país de origem, a Alemanha. Também é conhecido que muitos brasileiros, filhos de alemães, foram recrutados para guerrear pelo Exército de Hitler. O resultado não poderia ser outro: na família do soldado Gerd Emil Brunckhorst, ele foi para a grande guerra pelo Brasil, e o irmão, pela Alemanha. “Sabia-se que o irmão de Gerd tinha ido à Alemanha buscar auxílio para um tratamento de saúde. Mas ele foi chamado para fazer parte do Exército de Hitler e acabou morrendo. É uma tragédia familiar e um contra-senso. O soldado poderia ir à guerra pela FEB e ter de atirar até mesmo nos próprios parentes”, explica o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná Denisson de Oliveira. Na última quarta-feira, Oliveira lançou o segundo livro sobre o assunto, intitulado Os Soldados Alemães de Vargas. A obra é uma seqüência do primeiro livro, Os Soldados Brasileiros de Hitler. “O objetivo desta segunda obra foi questionar que FEB era esta, que era formada por heróis alemães”, conta o autor.

Arquivo

Arquivo / Flagrante de saques e depredações nas lojas dos estrangeiros. Reprodução do livro Brasil em Guerra Ampliar imagem

Flagrante de saques e depredações nas lojas dos estrangeiros. Reprodução do livro Brasil em Guerra

Os Soldados Alemães de Vargas

O livro foi lançado na última quarta-feira e está à venda no site www.jurua.com.br. O autor, Denisson de Oliveira, é professor da Universidade Federal do Paraná.

Editora: Juruá

Preço sugerido: R$ 34

Páginas: 158

A campanha de nacionalização é um tema recorrente no livro. Ela desencadeou um processo cultural forçado no país e caracterizou-se por incontáveis iniciativas de caráter repressivo, arbitrário e, freqüentemente, violento. Além de atingir os imigrantes e descendentes que viviam no Brasil, porque todos eram considerados suspeitos, a campanha também afetou os soldados de origem estrangeira que estavam na FEB. Max Wolff é um exemplo disso. Ele ficou conhecido como o grande herói da Segunda Guerra, morto em combate. Por outro lado, foi chamado de nazista porque era filho de alemão. “Durante a nacionalização, implantada pelo então presidente Getúlio Vargas, falava-se que o homem estrangeiro que passasse pelo exército seria um verdadeiro brasileiro. Durante o recrutamento, eles eram privilegiados, porque interessava ao exército ter combatentes que soubessem a língua do inimigo. Depois, porém, eram afastados da cidade de origem para romper os vínculos com a família”, afirma Oliveira. Estes soldados teuto-brasileiros sofreram preconceitos e, pelo menos um deles, Ary Rauen, ficou preso durante 14 dias porque era suspeito de cooperar com os nazistas. “Isto é o que chamavam de nacionalização. Na hora de cumprir com os deveres de cidadão, porque nasceram no Brasil, os descendentes de alemães eram considerados brasileiros. Na hora de reivindicar seus direitos, eram todos suspeitos.”

Desamparo

Na época da nacionalização, as ordens de Vargas atingiram diretamente a sociedade civil, especialmente os estrangeiros e seus descendentes. Os alemães, por exemplo, não poderiam estar à frente de nenhuma empresa, indústria ou associação. Por isso, os donos das fábricas têxteis em Blumenau, por exemplo, foram afastados e as propriedades transferidas para a administração da Liga de Defesa Nacional.

As medidas de nacionalização compulsória foram intensificadas com a declaração de guerra do Brasil à Alemanha, em agosto de 1942. Nessa época, tornaram-se comuns as prisões de pessoas de origem alemã, italiana ou japonesa, geralmente por motivos fúteis, não raro motivadas por vinganças pessoais. É o caso do pai de Hans Klaus Garbers, Johannes Garbers, que foi levado de casa não se sabe o porquê. Logo depois que ficou detido, Johannes morreu de complicações no coração, segundo o filho, provavelmente em decorrência das restrições da época. “Eles invadiram a casa onde eu nasci e levaram livros, fotografias e meu pai”, conta Hans, que na época tinha 18 anos. Johannes era conhecido como João Garbers – adotou o nome brasileiro porque adorava morar no Brasil. Ele foi presidente do atual Clube Concórdia e tinha uma distribuidora de tecidos no interior do Paraná.

O Clube Concórdia, aliás, também foi alvo da campanha de nacionalização. Na época era chamado de Verein Deutscher Saengerbund (Associação Alemã de Cantores) – o nome foi pintado para ser escondido e muitos anos depois foi feita uma raspagem para recuperá-lo. Ele ficou por um tempo sendo usado para reuniões da Liga Nacional. O mesmo aconteceu com a atual Associação Giuseppe Garibaldi, que foi ocupada em 1943, teve os móveis destruídos, alguns bens confiscados e serviu como sede do Tribunal de Justiça do Paraná.

Os imigrantes e seus descendentes foram proibidos de falar qualquer língua estrangeira, sob pena de prisão e tortura. Lojas foram depredadas, havia o toque de recolher e as escolas alemães (e de outros estrangeiros) foram fechadas. A nacionalização impôs a tradução de nomes e que os cultos nas igrejas fossem ministrados em português. Cerca de 208,1 mil alemães que moravam no Brasil, naquela época, tiveram sua liberdade restringida, sem contar os outros vários imigrantes que viviam aqui.

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