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Terça-feira, 09/02/2010

Expedição ao Rio iguaçu

Fotos: Aniele Nascimento

Fotos: Aniele Nascimento / Boneca é apenas um dos tipos de material descartado no Iguaçu Boneca é apenas um dos tipos de material descartado no Iguaçu
Reportagem especial

Um rio morto ao cruzar Curitiba

Na capital e na região metropolitana, o Rio Iguaçu recebe muito esgoto doméstico, industrial e lixo, inclusive de seus afluentes

Publicado em 24/11/2008 | Viviane Favretto

Este ano, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o Índice de Desenvolvimento Sustentável (IDS), o Rio Iguaçu apareceu como o segundo mais poluído do país, atrás apenas do Tietê, em São Paulo. Quando se considera sua extensão total, a informação não parece correta. Mas quando se percorre o trecho do rio que cruza Curitiba, restam poucas dúvidas. É esse cenário que vamos apresentar hoje, justamente quando se comemora o Dia do Rio.

No segundo dia, a Expedição ao Rio Iguaçu navegou aproximadamente sete quilômetros por um trecho completamente degradado em função da pressão urbana. O trajeto percorrido começou no ponto em que o rio recebe o nome de Iguaçu – a partir da união dos rios Iraí e Pequeno, na BR-277, sentido Paranaguá, proximidades da Sanepar – até o Parque Iguaçu.

 / Quando chove e o rio sobe, muito lixo jogado no Iguaçu acaba preso à vegetação das margens Ampliar imagem

Quando chove e o rio sobe, muito lixo jogado no Iguaçu acaba preso à vegetação das margens

RPC TV

24/11 - Reportagem chega no ponto onde o Rio Belém se encontra com o Iguaçu

RPC TV

24/11 - Equipe percorre o Rio Iguaçu entre os municípios de Araucária e Balsa Nova

Água não serve mais ao consumo

A Sanepar, a Companhia de Saneamento do Paraná, utiliza os mananciais da Bacia do Iguaçu, mas não a água do curso do Rio Iguaçu, que está comprometida. O uso dessa água para abastecimento foi feito até o ano de 2001 e hoje a captação só é realizada no município de União da Vitória (PR).

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Bastidores

No segundo dia da Expedição ao Rio Iguaçu havia dois desafios a serem vencidos: o cheiro e conseguir se movimentar com tanta roupa.

O cenário

O dia amanheceu frio e com garoa quando a Expedição começou a percorrer o trecho do Iguaçu que corta Curitiba. Isso ajudou a compor o cenário desolador.

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Tom Grando, coordenador institucional da Liga Ambiental e consultor da expedição, explica que em Curitiba o Rio Iguaçu tem uma profundidade que não passa de meio metro e tem de 10 a 15 metros de largura. É um rio morto, embora nas margens é comum ver algumas aves – como quero-quero e garça –, além de capivaras. Segundo Tom Grando, trata-se de uma fauna pouco exigente, que se aproveita das condições insalubres do rio.

Quanto aos peixes, só sobrevivem as espécies com fecundação interna (gerados dentro da mãe), como o barrigudinho, e os que respiram ar atmosférico, como o cascudinho. As espécies que dependem do oxigênio da água não sobrevivem, completa Grando. “Originalmente, há 50 ou 60 anos, havia de 20 a 25 espécies neste trecho do Iguaçu.”

Na mata ciliar, a predominância é do branquilho, espécie que responde por 80% da vegetação da margem do Iguaçu. A madeira dessa árvore, inclusive, era usada como combustível dos vapores que percorriam o rio até a metade do século passado (leia mais sobre a navegação no Iguaçu amanhã).

O que polui o rio em Curitiba e na região metropolitana hoje é principalmente o esgoto doméstico. Já o mais visível é o lixo lançado na água ou que fica nas margens e é levado pela chuva. Navegando nesse trecho é muito comum encontrar sacolas com lixo, animais mortos, tapetes, fralda descartável, além de muito plástico. Algumas árvores da margem estão cheias de sacolas plásticas que acabam presas aos galhos quando o rio sobe.

Do barco não é possível ver casas nas margens do Iguaçu. Mas muito da poluição existente ali é lançada em seus afluentes. Um dos mais comprometidos é o Rio Belém. E isso é facilmente perceptível quando se chega ao ponto em que o Rio Belém entra no Iguaçu. O mau cheiro piora consideravelmente e o cenário é desolador, com urubus explorando o lixo acumulado nas margens.

Também no Rio Belém a Expedição não encontrou casas muito próximas da água. No trecho que foi navegado, as casas construídas no barranco do rio já foram retiradas. Maria Aparecida Soares mora na beira do Belém, no bairro Boqueirão, há cerca de 14 anos. Ela e a família vivem da coleta de material reciclável. A casa de Maria Aparecida, assim como a dos vizinhos, está a poucos metros do rio.

Segundo ela, ainda tem gente que joga lixo na água, mas os casos são bem menos freqüentes. Perto da casa dela foram colocadas duas caçambas para coleta do lixo, o que fez com que muitas famílias deixassem de usar o Belém como depósito. De qualquer forma, o rio é poluído e Maria Aparecida não usa ele para nada. “Não deixo as crianças nem se aproximarem porque tenho medo que caiam na água.” Ela mora numa pequena casa com o marido, seis filhos e dois netos.

Região metropolitana

No terceiro dia, a Expedição ao Rio Iguaçu chegou à região metropolitana de Curitiba. O trajeto entre o distrito de Guajuvira, em Araucária, e Balsa Nova foi feito com um barco a motor. Nesse trecho, o cheiro já não incomoda e o volume de lixo no rio também é menor. Pelo menos na água, porque basta dar uma paradinha na margem para se deparar com uma cena lamentável: quando o rio sobe, joga para a terra uma quantidade imensa de lixo que fica depositado nas margens.

O tom acinzentado da água, verificado no dia anterior, dá lugar ao esverdeado. Neste trecho, o Iguaçu, de acordo com Tom Grando, já tem aproximadamente 2 metros de profundidade e a largura chega a 25 metros. Grando explica que na região metropolitana aparecem mais espécies de peixes, mas ainda pouco exigentes com a qualidade da água, como lambaris e bagres.

Leia amanhã

O Iguaçu ganha vida na região em que os vapores, até a metade do século passado, navegavam pelo rio.

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