Domingo, 01/08/2010
Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo
Pessoas acomodadas em abrigos começam a receber acompanhamento psicológico em Ilhota
Moradores de Ilhota que perderam parentes, amigos, animais e bens materiais precisam encontrar forças para recomeçar
Publicado em 06/12/2008 | Euclides Lucas Garcia, da Redação, e Bruna Maestri Walter, enviada especialSão Paulo - O número de pessoas mortas pela chuva em Santa Catarina subiu para 120 ontem, segundo a Defesa Civil Estadual, depois de mais dois corpos encontrados. Um dos registros de ontem foi feito na cidade de Ascurra, município do Vale do Itajaí, pelo Corpo de Bombeiros Voluntários da região. Valmir Raulino, de 44 anos, foi soterrado por um deslizamento de terra ocorrido na noite de sábado, que atingiu duas residências. Todos os moradores do local já tinham sido retirados, porém ele retornou sem autorização e estava desaparecido desde então. O corpo de uma senhora, cujo nome está sendo levantado, foi encontrado em Gaspar. O corpo foi sepultado ontem.
Além dos adultos, crianças também têm apresentado transtornos psicológicos. A voluntária da Cruz Vermelha Mariana Carla de Lima conta que foi chamada para atender um bebê, uma menina de pouco mais de 1 ano, que não conseguia dormir. “Quando ela começa a dormir, ela chora”, diz. “A mãe disse que antes da enchente isso não acontecia.” A psicóloga Joyce Fischer afirma que ser sincero é o mais importante ao lidar com crianças traumatizadas. Segundo ela, deve-se partilhar as situações e conversar abertamente sobre o que aconteceu. “Às vezes, escondemos as situações achando que estamos protegendo”, afirma. “E isso é pior.”
O grupo educacional paulista FMU anunciou que enviará estudantes e professores de Psicologia para auxiliar os profissionais locais no atendimento de vítimas do estresse pós-traumático. (ELG e BMW)
Em um dos abrigos da cidade, o produtor rural Heitor Fucks não vê a hora de voltar para o Morro do Baú, onde criava animais e tinha plantação. A casa do agricultor continua de pé, e o que ele mais quer é poder voltar para lá. “Não posso ter o coração alegre sem estar no meu lugar”, diz. Ao longo da vida, Fucks saiu apenas duas vezes da propriedade, para ver o irmão em Joinville. No abrigo, ele estranha até o gosto da água. “Levo uma vida muito diferente da que tinha antes, quando acordava às 4 horas e passava o dia na lavoura e vendo os meus netos”, conta. Antônio Fischer é outro produtor rural que também não se acostumou com a vida longe do Morro do Baú. Depois que a casa dele foi destruída, passou dois dias com o filho em Blumenau. Não agüentou. “Me criei na roça, e fico doido na cidade. Não agüentei. No apartamento, eu não fico”, desabafa.
A terapeuta e enfermeira Mirian Lago foi enviada de Florianópolis a Ilhota para avaliar o estado das vítimas. “É um trabalho de elaboração da perda de pessoas, do lugar, de bens materiais”, explica. De acordo com ela, as referências perdidas são as mais diversas: é a criança que fica triste porque não pôde trazer o cachorro; o senhor que se preocupa com o porco que não está comendo ou com o cavalo de 15 anos que ficou sozinho. Mirian está procurando deixar sugestões para a administração do município, que terá de organizar um atendimento permanente às vítimas. De acordo com o psicólogo Tônio Luna, acompanhamentos psicológicos nesses casos podem levar de um a dois anos. “Em algumas situações, o transtorno só vai se manifestar quase um ano depois”, diz.
Segundo a psicóloga Joyce Fischer, a perda de parentes, da casa e até mesmo da identidade é comum a todos os que sofreram com o desastre em Santa Catarina. No entanto, ela esclarece que cada pessoa reage de uma forma diferente nesses momentos de luto. “É importante respeitar a dor de cada um”, afirma. “Dar espaço é o melhor antes de tudo. Quem vai mostrar o que precisa é a própria vítima.” Para Joyce, não há uma fórmula de como ajudar essas pessoas. “Basta estar disposto a ouvir as necessidades delas”, diz.
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