Domingo, 01/08/2010
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O Curioso Caso de Benjamin Button mostra a trajetória de um velho que vai rejuvenescendo ao longo dos anos, no sentido inverso do relógio biológico
A angústia do envelhecimento e a da juventude têm o mesmo tratamento e colocam os dois momentos da vida em pé de igualdade no filme inspirado no conto de F. Scott Fritzgerald
Publicado em 26/02/2009 | Anna Paula FrancoEncarar o envelhecimento de forma natural ou com sofrimento depende muito dos valores culturais e ambientais que a pessoa cultiva. “As perdas funcionais são inevitáveis. Mas a qualidade de vida pode e deve ser estimulada com atividades sociais, de lazer e de ocupação. Isso permite envelhecer com dignidade”, explica o psiquiatra Khaddour Esber, coordenador de saúde mental do idoso da Amil, em Curitiba. As condições sociais e psicológicas do indivíduo também influenciam. “A capacidade de superar obstáculos e dificuldades ao longo da vida determina o estado de saúde ou de doença.”
Começar a existência com os sofrimentos de um organismo debilitado não é puramente obra de ficção. Longe do estereótipo ‘jovem-velho’ e ‘velho-jovem’, o envelhecimento precoce acelerado é uma doença. Não é como o filme, onde o rejuvenescimento é o principal sintoma do mal de Button. A progeria, ou a síndrome de Hutcheinson-Gilford, atinge 1 em cada 8 milhões de recém-nascidos e acelera em sete vezes a taxa normal de envelhecimento, sem afetar a inteligência da criança. O corpo envelhece e a expectativa de vida cai para 20 anos. Estima-se que 40 pessoas em todo o planeta sofram de progeria. A maquiagem realizada em Brad Pitt – que rendeu um dos prêmios da academia – foi inspirada nos estágios finais de um portador dessa síndrome, que tem seus primeiros registros em 1904.
A sessão de cinema fez Theresa Cunha, de 78 anos, voltar para casa pensando na própria história. “Comecei a refletir sobre meu passado e todas as referências que fui perdendo ao longo dos anos. Pensei nos meus amigos, nos meus irmãos, na vida que um dia eu tive. O filme faz este alerta: velho demais ou jovem demais, morremos da mesma forma, sem memória”, compara.
Ao longo da trajetória de Button, que vai rejuvenescendo à medida que o tempo passa, ele vive o sentido inverso do relógio biológico do restante do mundo. Vê a mulher de sua vida crescer e amadurecer, coleciona as mortes dos companheiros de asilo sem sofrimento, descobre o amor e o sexo em situações inusitadas, arrisca-se no mundo em busca de aventuras e novos conhecimentos. A serenidade só é abalada diante da paternidade. “É o momento em que ele teme pela própria maturidade, que vai lhe faltar no futuro”, avalia Zilda.
As direções opostas vividas pelo casal é outro ponto de reflexão. Juventude e envelhecimento são causas das mesmas angústias. Dayse, a mulher de Button, compara o ritmo de vida dos dois e sofre com a distância cronológica que cada vez mais os afasta. Ao mesmo tempo, Button se preocupa com a sua imaturidade futura, que não vai dar suporte à família e ainda sobrecarregar a mulher com sua debilidade infantil. “Ambos temem a mesma coisa, de maneiras diferentes. Isso nos mostra como o medo do envelhecimento e a preocupação excessiva com a aparência pode ser paralisante”, explica a psicóloga Joyce Fischer.
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