Sábado, 31/07/2010
Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo
Caroline e outras três crianças que vivem no abrigo Acridas, em Curitiba: idade e cor da pele determinam o tempo de espera por uma família adotiva
Cadastro Nacional esbarra nos critérios impostos por casais brasileiros, que só querem meninas brancas, saudáveis e de até 3 anos de idade
Publicado em 26/04/2009 | Themys CabralDe acordo com os dados do CNA, os adotantes (pretendentes a pais adotivos) preferem crianças do sexo feminino, de até 3 anos de idade, branca e sem qualquer doença. Praticamente uma sentença condenatória para Caroline. Não bastasse estar no alto de seus 9 anos e ter a pele morena, Caroline ainda pertence a um grupo de irmãos composto por mais três crianças. Fator complicador, segundo especialistas, já que a Justiça costuma não separar os irmãos biológicos e a maior parte dos pretendentes só se interessa por adotar uma única criança.
Melhorou, mas ainda há muito pela frente. É assim que o Cadastro Nacional de Adoção (CNA), implantado há um ano para facilitar e agilizar o processo de adoção no Brasil, é avaliado pelos especialistas. De acordo com um dos coordenadores do CNA, o juiz da Vara da Infância e Juventude de Santa Catarina, Francisco José Neto, o principal avanço foi na padronização do processo em todo o país.
A fisioterapeuta Sanny Massinham Costin, 40 anos, foi adotada quando tinha apenas 1 ano e 9 meses. Hoje, ela tenta repetir o gesto de amor: procura uma irmã para o filho biológico dela de 12 anos. “Ser adotada é a coisa mais maravilhosa do mundo e quero dar isso para a Fernanda. Não sei se será possível modificar o nome, mas gostaria de chamá-la assim”, diz.
Desanimador
Há cerca de um ano, com a implantação do CNA, havia a expectativa que a realidade dos abrigos abarrotados de crianças começasse a mudar. Com o novo sistema, a busca por pais e filhos adotivos compatíveis ficaria mais fácil e rápida. Ou seja, em vez de fazer múltiplos processos de seleção em vários unidades da federação, uma única habilitação passou a ser válida para todo o país.
O resultado, porém, não é tão animador. O vácuo existente entre o perfil de criança disponível para adoção e o desejado ficou apenas mais evidente. “As pessoas reclamam que o processo de adoção é burocrático e que, por isso, os abrigos estão cheios de crianças. A verdade é que ninguém quer saber da criança negrinha, feia, com cicatriz ou com sequelas de doença ou do que viveu até então”, diz Elza Dembinski, vice-presidente da ONG Recriar, que dá apoio durante o processo de adoção.
De acordo com dados do CNA, desde novembro de 2008, quando o sistema ficou disponível para buscas e procedimentos, foram feitos apenas 23 registros de adoção pelo cadastro. Outros 22 processos foram iniciados e 15 vinculações (processo anterior ao início do processo de adoção) entre crianças e pretendentes estão em trâmite.
Hoje, o CNA conta com 14.843 inscrições de pretendentes habilitados para serem pais adotivos. Em todo o país, estima-se que 80 mil crianças e adolescentes vivam em abrigos. Cerca de 8 mil, apenas, porém, estariam disponíveis para adoção. Assim, ao calcular a relação entre “oferta e demanda”, seria de esperar que não existissem mais crianças e adolescentes vivendo em abrigos à espera de novos pais, já que existem mais candidatos a pais adotivos do que crianças e adolescentes disponíveis à adoção.
Não é o que acontece, porém. De um lado, há adotantes que ficam anos à espera de um filho adotivo que se enquadre em suas exigências e, do outro lado, milhares de crianças e adolescentes, país a fora, que crescem dentro de abrigos, sem saber o que é ter uma família. De acordo com os especialistas, a questão seria resolvida facilmente se os candidatos à adoção fossem menos rígidos nos critérios de escolha. Ou seja, se desistissem de “encomendar filhos sob medida”.
Segundo Elza, os pretendentes à adoção procuram por crianças que se encaixem no perfil específico da família deles. “Essas crianças não vieram de famílias ‘normais’, vieram de famílias ‘desestruturadas’. A maior parte dessas crianças já passou por traumas psicológicos que vão marcá-la para sempre. Então, fica difícil querer adotar uma criança que tenha o mesmo perfil da sua família”, comenta.
Uma esperança
Caroline é um exemplo concreto disso. “A minha mãe fumava droga, bebia pinga e se prostituía”, conta. “Por isso, quero uma família nova”, diz. A verdade é que, para crianças como Caroline, só há uma luz no fim do túnel, normalmente: a adoção internacional. É que os pretendentes que vêm de fora costumam fazer menos restrições em relação ao filho que querem adotar. “O que eu observo é que os estrangeiros adotam porque querem fazer a diferença na vida de alguém e querem ajudar a construir um mundo melhor. Já os brasileiros estão mais preocupados em satisfazer uma necessidade própria”, opina a assistente social e diretora executiva do abrigo Acridas, Regina Natália Souza Mendes.
* A história de Caroline é real, mas seu nome foi trocado para preservar a sua identidade.
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