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Sexta-feira, 03/09/2010

Segurança pública

Violência bate recorde em 2010

Primeiro bimestre tem o dobro de mulheres assassinadas em relação a 2009. Fevereiro é o mês mais violento dos dois últimos anos

Publicado em 01/03/2010 | Jorge Olavo e Aline Peres

A violência não deu trégua em 2010. Seguindo a escalada de crimes registrados em janeiro, o mês de fevereiro também foi marcado por um alto índice de mortes brutais em Curitiba e região metropolitana. O que chama a atenção nos números contabilizados pela Gazeta do Povo é o crescente número de mulheres como vítimas. Indicativo de que elas estão mais ousadas no mundo do crime ficam vulneráveis à violênia do tráfico.

Ao todo, foram registradas nos boletins de ocorrência do Instituto Médico-Legal de Curitiba 214 mortes violentas até as 20 horas de ontem, o que torna fevereiro o mês mais violento desde 2008 (veja quadro). No fim de semana que encerrou o mês, 24 pessoas morreram por agressões físicas, golpes com armas brancas e disparos de armas de fogo. Ao mesmo tempo, uma operação do governo estadual de combate a homicídios envolveu cerca de 500 policiais civis e militares nas ruas da Grande Curitiba. No primeiro bimestre deste ano, 42 mulheres foram mortas violentamente – 19 em janeiro e 23 em fevereiro –, mais que o dobro do total de 18 mortes registradas no mesmo período de 2009.

Áreas pobres concentram mais crimes

A maior parte dos crimes que ocorrem na Grande Curitiba está concentrada em regiões em que a exclusão social prevalece e a presença do tráfico é constante.

Leia a matéria completa

Método

Sesp não comenta dados do IML

Os números usados nesta e em uma série de outras reportagens já publicadas pela Gazeta do Povo têm como base os relatórios expedidos diariamente pelo o Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba. Os boletins são entregues à imprensa com informações básicas dos corpos encaminhados para necropsia – nome, data e horário de entrada no IML, sexo, local do crime, peso e altura, vestimenta e causa da morte. Contudo, há muitos dados subnotificados, principalmente com relação à falta da idade da vítima. Na contagem da Gazeta, são consideradas apenas vítimas de mortes violentas – por agressão, arma branca e arma de fogo. São descartadas mortes a esclarecer, por afogamento, enforcamento, queda, queimadura e em acidentes de trânsito. Dentre as mortes contabilizadas, estão alguns casos de suicídio que não são especificados nos boletins do IML, o que representa uma pequena margem de erro no resultado final.

Como em outras reportagens que adotaram esta mesma metodologia, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) não quis se manifestar, justificando que os dados produzidos pelos relatórios do IML não são os oficiais auditados pelo sistema de geoprocessamento. (JO)

O delegado Hamilton da Paz, da Delegacia de Homicídios, conta que muitas mulheres estão envolvidas com atos ilícitos há muito tempo. Elas deixaram de ser usuárias de drogas e passaram a traficar. Não são mais presas por tentar levar celulares, armas e entorpecentes para seus maridos e filhos em penitenciárias. Começaram a ir para o xadrez por roubos, homicídios e latrocínios. “Prendemos recentemente uma mulher que, mesmo sem uma perna, mandava matar e comandava o tráfico no Barreirinha. Hoje, há mulheres mais violentas que os homens”, conta Paz.

O tráfico de drogas está relacionado a cerca de 95% das mortes que ocorrem na capital, de acordo com o secretário estadual da Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari. “Prefiro ser mais cuidadoso com esses dados. A mulher é o principal alvo de crimes passionais. É um sinal do aumento da violência contra a mulher e de diminuição da eficácia investigativa e punitiva nessa área”, avalia o sociólogo Pedro Bodê, coordenador do Grupo de Estudo da Violência da Universidade Federal do Paraná. “O crime passional é quase inexpressivo. Quase todos os casos têm como motivador o tráfico”, rebate Paz.

Para a polícia, os crimes estão ligados a dívidas de drogas, confronto de grupos ligados a traficantes, disputas por pontos de venda e consumo de entorpecentes. O envolvimento com drogas está presente nas prisões de mulheres. “90% delas estão presas aqui por tráfico. Elas se envolvem com drogas para sustentar a família”, conta o delegado Ronald de Jesus, do 9.º Distrito Policial, para onde são encaminhadas as detentas.

Casos

No último fim de semana do mês, quatro mulheres entre 17 e 25 anos foram assassinadas. Em comum, o uso de drogas. Josiane da Cunha Meira, 17 anos, foi morta ontem, no Sítio Cercado, com tiros e golpes de arma branca. Segundo o pai da vítima, a moça já tinha recebido ameaça de morte por um traficante do local, por causa de dívida. No mesmo dia, a polícia atendeu a uma ocorrência no mesmo bairro. Uma mulher, ainda não identificada, foi executada com nove tiros em um terreno baldio.

Outras situações de violência também provocaram a morte de mulheres durante o mês. A psicóloga Elis Regina Sbrissia, 42 anos, foi assassinada durante um assalto em 2 de fevereiro, no Atuba. Uma quadrilha especializada em roubo de veículos seria responsável pelo latrocínio, segundo a polícia. Já a advogada Kátia Regina Leite Ferraz, 45 anos, engajada na defesa de mulheres vítimas de agressão domiciliar, foi executada na semana passada, no Boa Vista. Amigos acreditam que a morte foi por vingança.

Na avaliação do sociólogo Pedro Bodê, as autoridades brasileiras associam a violência ao tráfico e mascaram fatores mais relevantes. “Em outros países, em que o consumo de drogas também é alto, não se cometem tantos homicídios”, afirma. “A taxa de homicídios só cresce se temos outras fa­­lhas”, complementa. Bodê aponta, além do crescimento do tráfico, a diminuição da capacidade de resolução de homicídios, a falta de polícia técnica e a impunidade. “Te­­mos um conjunto de mortes que precisa ser qualificada. Não é suficiente relacionar apenas com o tráfico”, afirma o sociólogo.

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