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Comportamento

Curitibanos acompanham BBB desde primeira edição e brigam pelos favoritos até hoje

Emoções à flor da pele, brigas e tudo que traduz as relações sociais são os principais argumentos de Marcos Dias e Ionice Nascimento para ainda acompanharem o reality show

(Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo)

Julgar alguém por assistir e gostar de Big Brother Brasil (BBB) parece ter ficado para trás. Agora, quem acompanha a saga do programa (que chegou a 18ª edição) há anos é respeitado como um fã clássico. Marcos Dias é um desses. Espectador do reality show brasileiro desde o início, o ator e jornalista curitibano sabia, até pouco tempo, quais eram os três primeiros colocados de cada edição, e torce e acompanha, até hoje, os participantes favoritos, como a Flavia Viana (BBB7) e a Grazi Massafera (BBB5).

“Sempre fui bem ativo, tanto que ano passado, uma das minhas participantes favoritas, depois da Grazi e da Sabrina, a Flavia Viana estava no reality A Fazenda. Entrei em grupos ocultos no Facebook, votei por ela e tive alguns conflitos com fãs de outros participantes”, diz o jovem de 27 anos, que está na torcida pela Paula nesta 18ª edição e deseja a eliminação da Ana Paula. “Insuportável, misericórdia.”

Sobre o julgamento alheio, Marcos não se importa mais. “Eu sou do estilo ‘bateu, levou’. Eu não levo desaforo para casa. Na maioria das vezes as pessoas me dão conselhos. Falam para eu assistir programas mais construtivos. E eu respondo, quase sempre, que há qualidade, mas só a vemos quando deixamos o preconceito pelo formato de lado. Hoje, em pleno século 21, falam mal do BBB mas brigam por causa de jogo de futebol”, explica. As brigas, diz Marcos, ele deixa para as redes sociais. Nos grupos do Facebook, os integrantes elegem um participante de quem gostam mais e decidem apoiá-lo ao longo do programa – o que gera conflitos com os defensores de outros participantes.

Marcos Dias, ator e jornalista de 27 anos, acompanha o BBB desde a primeira edição (Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo)

Resposta comum a muitos fãs do programa, Marcos também é adepto do “gosto do jogo em si, das relações sociais que ele retrata”. No entanto, o ator vai além e vê as representações de preconceito, racismo e diferenças sociais nas conversas entre os participantes. Ao longo dos últimos 18 anos, inclusive, Marcos diz ter percebido uma evolução no programa:

“No último BBB, por exemplo, falou-se muito de misoginia, orientação e condições sexuais. Antes víamos muita beleza padrão. Era a personagem loira, magra e modelo. Hoje tem personagens com a nossa cara. Gordos, com celulite, que não se enquadram nos rótulos sociais”, diz.

Fã do programa, Marcos tentou se tornar um participante quatro vezes, sendo a última esse ano (Foto: Letícia Akemi / Gazeta do Povo)

Em algum momento pensou em largar? Sim, segundo o jovem. “Tem edições que você cria um ranço. O da Ana Paula (BBB17), por exemplo, depois que ela foi expulsa eu nem continuei vendo. O do Cesar (BBB15) também foi difícil”. Ainda assim, Marcos se inscreveu para o programa em quatro oportunidades – a mais recente para a edição de 2018.

“Eu fiz uma tatuagem em homenagem ao Alan (BBB5)”

A quinta edição do programa é considerada histórica pelos fãs, seja pela grande quantidade de participantes que se deram bem depois do show (Grazi Massafera e Jean Wyllys, por exemplo), seja pelas histórias que eles construíram na casa, que se assemelhava a uma novela das 8. Para Ionice Nascimento, secretária de 62 anos, o BBB5 representou o ápice da sua paixão pelo reality show.

“Antes eu assistia só pelo canal aberto. Depois da 5ª edição, eu coloquei o Pay Per View para ver tudo. Eu dormia quando eles iam dormir. E ainda dormia com a televisão ligada para não perder nada do que acontecia de madrugada. Eu tenho gravado toda edição, desde o começo até o dia que eles saíram da casa”, diz a secretária.

Ionice gravou uma edição inteira do programa. (Foto: Hugo Harada / Gazeta do Povo).

O participante favorito de Ionice foi Alan, por quem fez uma tatuagem com a letra A e de uma estrela – como a dele. “Foi uma loucurada na época, mas eu não me arrependo. Eu virei amiga dele, da mãe dele, das tias. Esses dias elas vieram para Curitiba e me ligaram para encontrá-las no aeroporto. Toda vez que o Alan vem para Curitiba, ele me liga e reserva meu lugar como convidada especial”, conta a secretária, que virou mais que uma espectadora, mas amiga pessoal do participante.

“Sem contar as amizades que eu fiz pelo Brasil. Eu tenho uma amiga de Caxias do Sul, que é médica pediatra, e a gente se fala toda semana. Tem outra que é de Brasília, outra de Santos e uma de Balneário Camboriú. Toda semana nos falamos, seja por telefone ou e-mail, para saber como a outra está. A amiga médica, inclusive, sempre que eu tenho dúvidas de saúde, é com ela que eu me consulto”, relata Ionice.

Além das tatuagens, Ionice gravou 350 DVD’s com o programa – do começo ao fim. “Eu revia as tramas, o que um falava do outro por trás. Acompanhei todos esses anos, mas a quinta edição, pode perguntar qualquer coisa, eu sei de tudo. Inclusive, na última vez que o Alan esteve aqui, eu dei uma mala cheia com todos os DVD’s. Assim ele tem uma história para contar para os netos”, revela.

Para a secretária, o programa foi perdendo o charme ao longo das edições – tanto que esse último ela ainda não conseguiu assistir a nenhum dos episódios ainda. “Mas eu vou ver. É da metade para o fim que fica bom, que o pessoal começa a namorar. O pessoal pode não gostar do BBB, mas para mim foi muito bom em uma época em que eu tinha acabado de sair de um emprego, estava meio triste. E a gente se apega aos participantes, porque eles dão atenção para a gente, né?”

BBB não é diferente de uma série do Netflix

“BBB não é cultura”, “BBB é programação inútil” ou “BBB é só futilidade” são acusações populares, mas talvez sem sentido ao reality show. Com o avanço das edições, os próprios participantes chegam conhecendo a estrutura do programa e sabendo interpretarem os personagens que vão atrair ou repelir o público. Ser fã desse tipo de programa, segundo Tonio D. Luna, psicólogo e psicoterapeuta, não é nada diferente do normal.

“Essencialmente somos seres relacionais. Sempre nos interessamos pela vida alheia, seja porque alguém vai fazer algo que eu não consigo ou porque alguém que gostamos ou não gostamos está em destaque. Estamos sempre em relação aos outros e só crescemos pessoalmente nas relações, quando olhamos o que está na nossa volta”, explica o também coordenador da comissão de Psicologia e Cultura do Conselho Regional de Psicologia do Paraná.

Devido a própria estrutura do programa, e a sua teatralidade, é possível compará-lo a uma peça de teatro, filme ou série. “As pessoas assistem, voltam às mesmas cenas para tentar ver outra coisa, de outra forma. E sempre temos uma expectativa desse mundo fantasioso. É como se terceirizássemos e nos sentíssemos vingados, justiçados a partir da projeção de cada um sobre os personagens que escolheu dentro do filme ou do reality. Se isso é saudável ou não, depende de cada pessoa”, diz Luna.

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