PUBLICIDADE

Comportamento

Da época em que virar o disco era gíria, loja Savarin Music resiste em Curitiba

Savarin Music resiste aos solavancos da indústria fonográfica e da economia como uma típica loja de discos dos anos 80

Loja resiste ao tempo e à tecnologia e é reduto para quem não abre mão dos discos. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do PovoLoja resiste ao tempo e à tecnologia e é reduto para quem não abre mão dos discos. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Um temporal ameaçava a cidade em uma tarde de sexta-feira, em Curitiba, e Virgílio Savarin, de 58 anos, e o filho mais velho, Adriano, de 38, limpavam vinis com a dedicação e a sutileza de um filatelista. Ao redor deles, um acervo refinado de aproximadamente 10 mil LPs, cerca de 8 mil cds, mais algumas centenas de DVDs, pôsteres e diversos conjuntos de aparelhos de som, criam uma atmosfera conhecida daqueles com 30 anos ou mais: a de uma típica loja de discos.

O número 336 da Saldanha Marinho, centro da cidade – a Savarin Music –, é uma espécie de túnel do tempo. Que pode te levar para o final dos anos 80, quando ir a uma loja de disco era um ritual corriqueiro, época em que os primeiros lotes de cds começavam a desembarcar no país, apontando a ‘inevitável’ morte dos discões. O tempo está do meu lado, diria um amante do vinil, citando Mick Jagger.

Virgílio Savarin: pioneiro na venda de discos usados em Curitiba. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Virgílio Savarin: pioneiro na venda de discos usados em Curitiba. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Esse aspecto de fenda no tempo não foi captado pela Savarin por acaso. Vem de 1974, quando o jovem Virgílio, com 15 anos, assumiu o posto de office boy na loja de discos Wings, no centro da cidade. Em pouco tempo, chegou a gerente geral. “E ali aprendi a conhecer boa música, por trabalhar em uma loja que só tinha coisa boa”, lembra Savarin.

Foram quase dez anos como funcionário da Wings, até que ela fechou, em 1983. Savarin então não pensou duas vezes: abriu sua primeira loja, na Saldanha Marinho, 266.

Brasília branca 1976

“Em Curitiba, não se falava em venda de disco usado. Eu que inventei essa”, lembra. Ele tentou inserir a ideia na Wings, mas o ex-patrão torceu o nariz. Com sua própria loja, passou a trocar discos antigos por novos e a comprar lotes usados.

O pulo do gato, que ajudou a transformar Savarin em referência no universo dos discos na cidade, veio em uma negociação inusitada. Em 1985, um cliente decidiu dar uma força. Dono de uma coleção de pouco mais de 5 mil LPs, ofereceu o acervo em troca da Brasília branca 1976 que Savarin estacionava todos os dias em frente à loja. Com uma condição.

O empresário emprestou seu nome à história da música na cidade. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

O empresário emprestou seu nome à história da música na cidade. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

“Ele me disse: ‘nunca diga que ninguém te ajudou; você vai vencer na vida, mas não diga que foi só por conta própria’”. Promessa feita, foram até a coleção, contaram os discos, encheram a Brasília e voltaram à loja. Savarin emitiu um recibo, entregou o carro e forrou as prateleiras.

A venda de usados e a negociação incomum renderam citação na coluna que o jornalista Aramis Millarch (morto em 1992) assinava no extinto O Estado do Paraná. “No dia seguinte, tinha gente na porta com o porta-malas do carro cheio de discos para trocar”.

Foi o suficiente para cravar o nome Savarin no circuito dos discos em Curitiba. Circuito esse que durante os anos 80 e parte dos anos 90 contou com lojas como Cashbox, Rei do Disco, Brunetti, Breno Rossi Companhia do CD, Viva a Música, Planet Music, mais as seções de disco da finada Mesbla e da Americanas. Savarin viu praticamente todas fecharem.

“A gente nem sabia o nome”

Nos anos 90, a Savarin chegou a ser uma loja de 400 metros quadrados, dois andares e 30 funcionários na rua Doutor Muricy, época em que o cd varreu o vinil das prateleiras em boa parte das lojas, e gravadoras fecharam fábricas de LPs. Mas no fim da década sentiu seu reino sacudir ao ouvir sobre um tal MP3. A criação do Napster, que virou do avesso toda a indústria fonográfica e arrasou o modelo engessado que o planeta havia conhecido, mudou também os rumos dos negócios de Virgílio.

Foi nessa época que ouviu de um cliente norte-americano uma espécie de profecia. “O cara viu minha loja grande e disse: ‘lá no meu país, loja assim está encolhendo’”. E falou sobre o novo ritual de baixar músicas grátis pela internet. Savarin duvidou: “você está louco, cara, não pode! Estamos vendendo pra caramba”.

Virgílio Savarin: herói da resistência da indústria fonográfica. Foto: Marcelo Andreade/Gazeta do Povo

Virgílio Savarin: herói da resistência da indústria fonográfica. Foto: Marcelo Andreade/Gazeta do Povo

Ouviu o mesmo de seu fornecedor em Miami – “a gente nem sabia o nome certo”, confessa. Naquele tempo, as filas na porta da loja se formavam às 9h da manhã. “Aí veio esse troço, o MP3. Fechei lá [na Muricy] e me mudei para a Ébano [Pereira]”. Era 1998.

Na Ébano, segurou a onda com apenas quatro funcionários e o estouro do DVD, mas já vislumbrava um sinal tímido do retorno dos bolachões. Dois anos depois, abriu uma segunda loja – a atual –, e colocou para trabalhar os filhos gêmeos, Thiago e Diogo, então com 15 anos. Lá, retomou a venda de LPs, e tempos depois, migrou tudo para ela, ficando apenas com uma só. Que resiste até hoje.

Pequeno e fiel

Distribuídos pelas prateleiras bem organizadas da Savarin estão pepitas em vinil como Kind of Blue, de Miles Davis, Pin Ups, de David Bowie, Screamin’ and Cryin’, do bluesman Otis Rush, Afrossambas, de Baden Powell, Cada Segundo, de Antônio Carlos e Jocafi, e Reclassified, de Iggy Azalea.

Hoje os tempos são outros. Não existem mais filas na porta. O cliente que comprava só os discos de sucesso sumiu, mas os colecionadores permanecem – um vinil novo pode passar dos R$ 200. Entre os usados e nem tão raros, a escala vai de R$ 20 a R$ 80. Algumas raridades são encontradas para além de R$ 1 mil.

O resgate do vinil – ele sempre esteve por aí, em sebos e lojas especializadas – trouxe um outro público, embora pequeno: filhos e netos dos clientes fieis. “Eu falo para o Adriano e para os gêmeos: pelo amor de Deus, trate bem o cara que vem aqui, porque ele gosta da loja e fala para todo mundo”.

Para 2018, quer encontrar outro local com mais espaço para bons discos e bom papo. “O meu lance é que eu não trato o cara só como cliente, eu faço dele meu amigo. Isso é que é legal”, comemora.

LEIA TAMBÉM

 

PUBLICIDADE