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Comportamento

Quando os papeis se invertem: a instigante tarefa de cuidar da própria mãe

Segundo o IBGE, o número de idosos no Brasil vai quadruplicar até 2060, quando o país deve passar a ter mais de 58 milhões de pessoas acima de 65 anos

Maria trabalha menos para cuidar e ficar na companhia da mãe, Judite. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo.

Eu gosto de dar os remédios para ela. Minha preocupação é essa. Coloco na mão dela. Visto o pijama nela. Ajudo ela a se vestir. Morro de medo dela cair. Eu falo para ela que sou a sombra dela. Às vezes ela briga comigo: “Sai de perto de mim. Será que eu não posso ir ao banheiro sozinha”? Melhor prevenir.

Aos 57 anos, a diarista Valdecir de Jesus Manoelino assumiu uma nova missão em sua vida: a de cuidar da própria mãe. Faz quatro anos que ela trouxe a mãe, dona Judite Maria de Jesus, de 83 anos, para morar com ela e a família em uma casa simples no bairro Cajuru. Dona Judite chegou muito debilitada, foi direto para a UTI e chegou a pesar 32 quilos. Hoje ela está bem, conversa, ajuda como pode na limpeza e passa um tempo sentada em frente de casa. “Oi, vó”, dizem os vizinhos quando passam por ela.

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Se dedicar a cuidar de alguém, no entanto, não é uma atividade recente na vida de Valdecir, que prefere ser chamada de Maria, como é conhecida pelos amigos e familiares. Mãe de três filhos homens, Maria cuidou do caçula por 30 anos, até ele falecer, em 2014, mesmo ano em que o pai da diarista morreu vítima de câncer e ela resolveu trazer a mãe para casa.

O filho mais novo de Maria nasceu com paralisia cerebral. Não falava, não andava. O médico disse que ele viveria até os cinco anos de idade. Viveu 30. “E muito feliz. Uma pessoa muito doce, muito sorridente, gostava de abraçar”, recorda a diarista. “No início, eu questionava: por que eu? Por que comigo? Mas eu sabia que, se Deus me deu um filho especial, é porque confiava na minha capacidade de zelar por ele.”

Logística da vida

Maria não deixa a peteca a cair. O marido que é pedreiro está desempregado e ela trabalha duas vezes por semana, para poder cuidar da mãe nos outros dias. O segundo filho mora com ela e o mais velho reside na casa aos fundos com a esposa e os dois filhos. “A gente divide as contas e o serviço. Estamos indo bem, graças a Deus”, diz a diarista, que é muito católica.

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Os dias que a diarista passa em casa são à sombra da mãe. Prepara a comida, dá banho e ajuda ela se vestir. Dona Judite tem osteoporose e, por isso, sente muita dor nos ossos e tem dificuldade para se locomover. O maior medo de Maria é que a mãe caia e se machuque. Por isso, ela está sempre ali, de prontidão. “A necessidade de cuidado existe. Mas o prazer de estar cuidando é maior. Isso me enche de alegria. Eu fico até emocionada.”

A diarista diz que veio de família simples, que “viveu dos braços”, mas que os pais dela criaram os três filhos com amor e carinho. “Agora é a minha vez de retribuir”, afirma.  “Hoje vejo minha mãe se alimentando e forte. É a melhor coisa do mundo saber que ela está bem. Para mim é uma bênção ter ela comigo”, finaliza.

“Ela virou outra pessoa”

No feriado do dia 15 de novembro de 2013, a família de Iracema Wilczek, hoje com 90 anos, estava toda reunida em sua casa, no pequeno munícipio de Campo do Tenente, a 100 quilômetros de Curitiba, quando ela foi encontrada caída em seu quarto. De lá para cá, a vida dela, e dos familiares, nunca mais foi a mesma.

Dona Iracema até os 86 anos morou sozinha, era professora, ministra da eucaristia, gostava de dançar músicas polonesas, fazer artesanato e organizar os eventos da igreja. De um dia para o outro, ela sofreu um derrame cerebral,  e passou a ser totalmente dependente dos cuidados das filhas e de profissionais especializados.

Hoje, Iracema mora com uma das filhas no bairro Mercês. A professora aposentada Maria José Wilczek Kaiss, 61, mãe de três filhos que já moram sozinhos, e filha de dona Iracema, passou a cuidar da mãe durante a semana, visitando-a na casa da irmã quase todos os dias. Hoje, a mãe passa boa parte na cama, é preciso trocar a fralda dela, dar banho, preparar a comida mais líquida para ela poder digerir.

Apesar de todas as dificuldades dessa fase, Maria José conta que faz de tudo para recompensar o que a mãe fez por ela e pelos irmãos durante toda a vida e que essa situação a aproximou muito da mãe. “Minha mãe nunca tinha falado que me amava. E hoje todo dia ela fala. Ela reza antes de dormir por mim e pela cuidadora. É muito grata por quem está cuidando dela. Isso que dá mais forças para gente continuar”, encerra.

Em companhia da mãe

“Eu era muito indisciplinada. Ninguém conseguia me domar”, diz a divertida escritora Liamir Santos Hauer, que festejou seus 95 anos em fevereiro no Centro Paranaense Feminino de Cultura. “Até hoje!”, rebate a filha Leilah Santiago Bufrem, que trabalhou 28 anos no Departamento de Ciências da Informação da UFPR e hoje atua em três programas de pós-graduação pelo Brasil.

Há um ano e meio, Leilah saiu do Recife para morar com a mãe em um apartamento no centro da cidade. Hoje, elas passam os dias juntas envoltas por livros, as palavras-cruzadas de dona Liamir e as teses orientadas por Leilah. A agenda das duas é cheia de programas culturais, com exceção da quarta-feira, que elas têm livre. Dona Liamir, por onde vai, gosta de dançar e cantar. No meio da entrevista, levanta e recita poesias que aprendeu menina e lembra até hoje.

A escritora é geniosa e não admite a ideia de depender de alguém. Por conta disso, Leilah fala que elas vivem uma relação amorosa e, ao mesmo tempo, conflituosa por causa da necessidade da mãe de ter liberdade. Muito serena, a filha, que também é mãe, tenta contornar essas barreiras para manter uma relação pacífica entre as duas.

“Minha mãe que me ajudou a fazer tudo. Se não tivesse ela, eu não poderia ter feito os cursos que fiz”, conta Leilah. “Sempre quis poupar a Leilah, para ela poder estudar”, completa dona Liamir. E assim, hoje com posições invertidas, a professora passou a administrar as contas e todo o resto, mãe e filha seguem na entrevista para logo entrar em mais um debate ideológico ou em um de seus diálogos profícuos.

Uma realidade cada vez mais comum

O geriatra Rodolfo Pedrão afirma que os casos assim são cada vez mais comuns. Afinal, a população está envelhecendo e grande parte das pessoas vai precisar de cuidados dos familiares em algum momento da vida.  Segundo o IBGE, o número de idosos no Brasil vai quadruplicar até 2060, quando o país deve passar a ter mais de 58 milhões de pessoas acima de 65 anos. E a expectativa de vida do brasileiro também vai aumentar dos atuais 75 para 81 anos de idade.

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De acordo com o médico, a necessidade de suporte para o idoso que estava morando sozinho pode ser percebida por meio de sinais sutis. Nas visitas ao idoso, por exemplo, pode-se notar que a higiene da casa não está adequada, principalmente para quem tem cachorro ou gato em casa, ou que ele está consumindo alimentos muito velhos na geladeira. Além disso, episódios de confusão mental, contas atrasadas e esquecimento dos compromissos podem indicar que o idoso esteja precisando de um suporte maior do que está dispondo até o momento.

Neste sentido, as principais doenças que acometem a saúde dos idosos podem ser derivadas de problemas físicos ou cognitivos. Com relação às doenças que debilitam o quadro físico geral, pode se citar os problemas neuromusculares, sequelas de fraturas, problemas do coração, insuficiência pulmonar, diabetes avançado e desnutrição. Já os problemas cognitivos afetam a capacidade intelectual da pessoa poder se cuidar sozinha. E aí entram Alzheimer, Parkinson, vítimas de AVC e até de depressões severas.

O ideal é poder passar por esta fase da vida próximo aos familiares. “É um momento de pais e filhos se reaproximarem, reatarem laços que, às vezes, se perderam ao longo da vida, resolver problemas de relacionamento e questões que ficaram pendentes”, destaca Pedrão. “Além disso, é uma oportunidade muito boa para que os desejos dos idosos sejam atendidos no final da vida. Porque só os familiares vão saber das preferências do indivíduo e respeitar as vontades dele”, acrescenta o médico.

A saúde do cuidador

Nem todo filho tem estrutura emocional, talento e a disponibilidade necessária para ser cuidador familiar. As pessoas mais preparadas são aquelas que têm mais resiliência para tolerar situações diferentes e até comportamentos inesperados dos pais. “Tem gente que simplesmente não consegue”, pontua o geriatra Rodolfo Pedrão.

“Quem se dispor a ser cuidador precisa se munir de informações. E é importante que esteja atento a própria saúde”, destaca o médico, que revela que os cuidadores estão sob risco aumentado de desenvolver ansiedade e depressão. “Por isso, é importante que o cuidador fique atento para não ficar cansado ou estressado demais e que tenha momentos de descanso e lazer”, completa.

De filha para mãe

A jornalista Marleth Silva, autora do livro “Quem vai cuidar dos nossos pais? A inversão de papeis quando a idade avança”, viajou pelo Brasil para retratar o que vive e sente um cuidador familiar de idosos. Ela conta que a maior parte dos cuidados são realizados pela filha que passa a cuidar da mãe.

A ideia de escrever o livro surgiu porque a jornalista percebeu, entre seus conhecidos, que os cuidadores tinham os mesmos problemas e sofriam sozinhos, sem ter com quem compartilhar suas experiências de uma situação que exige tanto física e emocionalmente. Dessa forma, a sugestão da jornalista é que as pessoas que estejam passando por essa situação não fiquem sozinhas e tentem encontrar formas de compartilhar sua experiência, como procurando grupos de apoio para poder desabafar e ouvir os outros.

Serviço:

Livro: Quem vai cuidar dos nossos pais? A inversão de papeis quando a idade avança
Autora: Marleth Silva. Edição: 2006, Editora Record.

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