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Saúde e Bem-Estar

A obesidade é o preço que a África paga pelo desenvolvimento dos países

Desnutrição continua sendo um problema grave na região, mas a economia em expansão resultou no aparecimento de cinturas avantajadas

Urbanização e acesso a fast food são alguns dos fatores que contribuem para aumento da obesidade. Fotos: The New York Times.

Andando pelas vielas do bairro pobre onde mora, a caminho do trabalho, a lavadeira Valentine Akinyi ignora as provocações que lhe chegam aos gritos: “Elefante, elefante, elefante”.

Ela garante que já se acostumou aos insultos, o que não significa que não machuquem mais. “Quem vai querer se casar comigo?”, questiona. Antigamente, no Quênia, era difícil encontrar muita gente com a estrutura de Akinyi. Com 1,75 metro e 129 quilos, ela é considerada obesa.

Na África, o continente mais pobre do mundo, a desnutrição, teimosa, continua generalizada. Milhões de pessoas continuam desesperadamente famintas, com a escassez rondando os países dizimados por conflitos.

Em muitos lugares, porém, a economia em expansão resultou em cinturas avantajadas. Os índices de obesidade na região subsaariana estão crescendo mais rápido que em qualquer outro lugar do mundo. O que vem causando uma crise de saúde pública que pegou o continente, e o planeta, de surpresa.

Crescimento econômico

Em Burkina Faso, a prevalência da obesidade adulta nos últimos 36 anos subiu quase 1.400%. Em Gana, Togo, Etiópia e Benin, esse número ultrapassa os 500%. Oito das 20 nações com taxas de obesidade adulta mais drásticas estão na África, de acordo com um estudo recente feito pelo Instituto de Avaliação e Métrica de Saúde da Universidade de Washington.

O fenômeno faz parte da mudança sísmica causada pelo crescimento econômico, que transforma todos os aspectos da vida, inclusive a silhueta de seu povo.

Muitos africanos estão comendo mais junk food, praticamente toda importada. E também fazem bem menos exercício. Milhões de pessoas abandonaram a vida no campo, mais ativa, para se aboletar nas cidades, onde tendem a ser mais sedentárias. Carros mais baratos e a onda de importação de motos também fazem com que se ande cada vez menos.

A obesidade pode ser especialmente difícil de combater no continente por outras razões. Para começar que aqueles que não consumiram uma quantidade adequada de nutrientes na juventude (o que ali ainda é um problema) têm mais tendência a engordar quando obtêm acesso a um volume maior de comida. Além disso, o sistema de saúde local está praticamente todo voltado para o combate a outras doenças.

Os médicos dizem que a saúde pública está tão concentrada no tratamento de Aids, malária, tuberculose e febres tropicais – historicamente, os grandes dizimadores africanos – que poucos recursos sobram para as chamadas doenças não transmissíveis, como a diabete e os problemas cardíacos.

“Estamos testemunhando o que talvez seja a pior epidemia que este país jamais verá, provavelmente pior até que a epidemia de HIV dos anos 1990, em termos de longo prazo. O problema é que tentar mudar o sistema de saúde para incluir o tratamento das doenças relacionadas à obesidade é como manobrar um superpetroleiro”, explica o cardiologista queniano Anders Barasa.

No Quênia, um dos países mais desenvolvidos do continente, há cerca de 40 especialistas cardíacos para a população inteira de 48 milhões de habitantes. Nos EUA, a proporção é de um para treze mil pessoas.

Mesmo com o agravamento do problema da obesidade, o fato é que a adversidade local mais antiga, a desnutrição, não foi erradicada totalmente; de um lado, há milhões de africanos comendo em excesso, consumindo alimentos não saudáveis e, do outro, um sem-fim de pessoas que continuam passando fome ou muito perto disso.

Transtornos metabólicos

Profissionais da saúde dizem que quem cresce privado de nutrientes, como acontece com milhões de africanos, está arriscado a se tornar obeso um dia – e explicam que, durante o período de escassez, um dos mecanismos de defesa do organismo é a desaceleração do metabolismo para poder se manter com as calorias que tem.

Mesmo em épocas mais abundantes, ele continua baixo; com o tempo, esses transtornos metabólicos podem levar a todo tipo de problema de saúde, alguns inclusive podendo ser fatais.

Uma das principais endocrinologistas do Quênia, Nancy Kunyiha, conta que quando decidiu se especializar em pacientes diabéticos, anos atrás, seus colegas acharam que estivesse ficando maluca.

“Mas nunca que você vai conseguir sobreviver com isso. Vai ter que fazer outra coisa – o pessoal dizia.”

Só que o Tipo 2 da doença está intimamente ligado à obesidade, e a África subsaariana está passando “por uma verdadeira epidemia em expansão”, segundo um relatório divulgado no ano passado na publicação médica The Lancet Diabetes e Endocrinology.

Na última década, o consultório de Kunyiha passou a receber um número quatro vezes maior de pacientes. Praticamente todos os dias a sua sala de espera, simples e bem iluminada, situada no hospital Aga Khan, em Nairóbi, tem gente até aguardando de pé.

O índice de obesidade queniano, próximo dos 10%, ainda fica bem abaixo dos de outros países industrializados como os EUA (onde mais de um terço da população adulta é obesa). Mas vem crescendo muito rápido, tendo mais que dobrado desde 1990. Muita gente está tendo que lidar com um problema inédito.

Doenças de estilo de vida

Akinyi afirma ler todos os artigos sobre “doenças de estilo de vida”, como a obesidade e a hipertensão são chamadas por aqui, mas lamenta não ter condições de fazer o que os autores recomendam para emagrecer.

Além de lavar roupa para fora, ela não completou o ensino médio e é mãe solteira; com o equivalente a mais ou menos US$40 que ganha por mês, tem que cuidar de si e dos três filhos. Milhões de africanos estão na mesma situação, presos entre o velho e o novo. Podem não ser tão pobres quanto seus pais foram, mas, ainda assim, tem uma vida mais que modesta.

O que acontece então é que têm condições de comprar alimentos ultraprocessados como salgadinhos de pacote, extremamente comuns nas áreas de baixa renda, mas não podem se matricular em uma academia nem comprar peixes, legumes e verduras frescos.

E em vez de trabalhar no campo (que era como muitos quenianos viviam há apenas uma geração), limitam suas atividades a áreas urbanas esquálidas e são menos ativos fisicamente. Um dos alimentos mais baratos na favela Kibera, onde Akinyi mora – além das batatinhas –, é o bolinho frito, que sai por vinte centavos cada. A maçã, que custa o equivalente a 40 centavos, não cabe em seu orçamento; já o refrigerante está sempre presente.

“E eu amo Sprite”, diz ela, com um sorriso culpado.

Urbanização

Uma das estratégias usadas pela Coca-Cola no Quênia é investir nas classes mais baixas. Com produtos como as garrafinhas menores, de 200 ml, por exemplo. Elas são vendidas a quinze centavos (a padrão de 300 ml custa 25). Burger King, Domino-s, Cold Stone Creamery e Subway recentemente abriram suas primeiras filiais no país, como parte da iniciativa de ganhar terreno no continente.

O governo local, como o de outras nações africanas, parece demorar para reconhecer o problema. Ou pelo menos admiti-lo, com o Ministério da Saúde mais preocupado em promover o sexo protegido do que a boa nutrição.

A África está se urbanizando mais rápido do que qualquer outra região do mundo. Em 1980, somente 28% da população viviam em áreas urbanas. Hoje, esse número já está nos 40%. E até 2030 a previsão é que chegue a 50%.

O fenômeno é estimulado, em parte, às altas taxas de natalidade e diminuição na disponibilidade da terra, criando um êxodo de milhões de pessoas das áreas rurais.

“Se você trabalha na terra oito horas por dia, pode comer praticamente tudo o que quiser, mas, sendo sedentário, suas necessidades mudam totalmente”, diz Barasa.

Muitos quenianos costumavam andar vários quilômetros por dia para ir e voltar ao trabalho e/ou à escola. Mas a rede viária melhorou muito; hoje é muito mais fácil pegar o micro-ônibus. Uma grande parcela da população também apela para os mototáxis, que não existiam há dez anos.

Akinyi, 30 anos, revela que continua preferindo caminhar. “É uma alternativa para ir ao trabalho, e ainda dá para fazer um pouco de exercício.”

E o melhor de tudo é que é de graça.

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