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Saúde

Risco de a febre amarela voltar a ser uma doença urbana é pequeno, dizem especialistas

Apesar de a possibilidade existir, especialistas defendem que é muito pequena a possibilidade de ressurgimento da transmissão da doença por mosquitos que vivem nas cidades

Foto: André Borges/Agência Brasília.

O aumento de casos de febre amarela, com pessoas se contaminando nas franjas de matas nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, reacende um velho medo que surge a cada novo ciclo: a febre amarela pode voltar a ser uma doença urbana? A possibilidade existe, mas é muito pequena. É o que defendem especialistas ouvidos pelo jornal O Estado de São Paulo com base em pesquisas sobre a evolução da epidemia e a biologia do vírus e dos mosquitos transmissores.

O ressurgimento da transmissão urbana, ou seja, por mosquitos que vivem na cidade, como o Aedes aegypti, depende basicamente de três condições: ter muita gente contaminada em estado de viremia (com a presença do vírus circulando no sangue), vivendo em uma área onde haja uma população muito grande de mosquito e com capacidade de transmitir o vírus da febre amarela.

As longas e demoradas filas em busca da vacina na última semana podem até dar a sensação de que esta é a situação atual, mas os pesquisadores são categóricos: não é.

Para começar, a população de mosquito, por mais que traga uma série de problemas – vide as epidemias de dengue, zika e chikungunya dos últimos dois anos -, é considerada pequena para a febre amarela.

“Na época em que a febre amarela era exclusivamente urbana (até o começo dos anos 1940), a densidade de mosquitos nas cidades era muito maior. O necessário para ter a transmissão urbana seria ter pelo menos o dobro do que temos hoje”, explica o virologista e epidemiologista Renato Pereira de Souza, pesquisador científico do Instituto Adolfo Lutz.

Todos os casos registrados nas últimas décadas foram e são exclusivamente do tipo silvestre. A contaminação ocorre quando uma pessoa sem vacina entra em área de floresta, como a região da Cantareira, na zona norte de São Paulo, ou está em um local rural próximo de uma mata e é picada por um mosquito silvestre que só vive ali. Esses insetos podem até voar em áreas urbanas contíguas a parques, mas nunca irão para dentro das cidades.

Nelas, a transmissão caberia ao Aedes. Mas o mosquito que circula nas cidades brasileiras, apesar de ser capaz de transmitir a febre amarela, não é tão competente assim como vetor do vírus. Então seriam necessários muitos mosquitos para impulsionarem uma epidemia.

Rede pública oferece vacina gratuita contra a febre amarela. Foto: André Borges/Agência Brasília.

Rede pública oferece vacina gratuita contra a febre amarela. Foto: André Borges/Agência Brasília.

Até as décadas de 20 e 30, as variantes de Aedes que existiam no Brasil eram de origem africana, essas sim bem aptas a transmitir o vírus. Mas elas foram erradicadas. A variante atual é asiática, menos capaz.

Isso se soma ao fato de que há um controle do vetor nas cidades, como lembra Pedro Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas. “Embora (com esse controle) não se consiga impedir uma epidemia de dengue, zika ou chikungunya, conseguimos evitar a transmissão humana do vírus da febre amarela. No Aedes aegypti, o vírus não se replica de forma tão eficiente quanto nos outros três. Tanto é que os índices de infestação no Brasil costumam ficar em 5%, chegando no máximo a 10% em alguns locais. Esses números nos dão quase a certeza de que não teremos um surto de febre amarela urbana”, afirma.

Trabalho divulgado no ano passado por pesquisadores dos Institutos Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e Evandro Chagas, para avaliar o risco de reurbanização da doença, mostrou que, em laboratório, o Aedes aegypti, ao ser alimentado com sangue contaminado, teve o vírus detectado em sua saliva 14 dias depois. Esse é o principal indicador do potencial de transmissão da doença.

Mas na vida urbana, outras coisas estão acontecendo, como a ocorrência de outros vírus, que se saem muito melhor dentro do Aedes. “O vírus da chikungunya é o que tem a maior facilidade. Ele se replica mais rapidamente e, em três dias, já estava na saliva do mosquito. O da dengue leva cerca de uma semana. E o da zika e da febre amarela, em torno de 12 dias”, comenta Ricardo Lourenço, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC.

Fator humano

O terceiro item da fórmula é a quantidade de pessoas em viremia. “No ser humano, o vírus da febre amarela só fica circulando no sangue – que é quando ele pode ser transmitido ao mosquito -, por um período de dois a quatro dias. Logo após a pessoa se contaminar ou quando ela já está em um estado mais crítico, isso não ocorre”, explica Souza.

“Por isso se diz que a transmissão da doença é um fator populacional. Não vai ocorrer tendo uma pessoa infectada ao lado de um mosquito. É preciso ter várias pessoas infectadas, com viremia e expostas a uma quantidade grande de mosquitos que vão transmitir para uma população suscetível. São várias etapas que têm de acontecer simultaneamente”, completa.

E com a vacinação em massa, mesmo que fracionada, esse lado da equação tende a diminuir ainda mais. Um exemplo disso ocorreu em Assunção, no Paraguai, em 2008, quando houve um pequeno surto de febre amarela na região metropolitana. “Vacinando a população rapidamente, eliminando criadouros e borrifando mosquitos adultos, o vírus foi debelado e o aumento de casos, detido”, conta Vasconcelos.

Foto: André Borges/Agência Brasília.

Foto: André Borges/Agência Brasília.

Há 111 anos, Brasil vencia os mosquito

No fim do século 19, as condições de saneamento nos principais centros urbanos do País eram insalubres. Mesmo na antiga capital, o Rio de Janeiro, o problema era grave e motivo direto das recorrentes epidemias de febre amarela. A situação era tão séria que muitos navios estrangeiros simplesmente evitavam aportar por aqui. O Brasil recebeu a alcunha de “túmulo dos estrangeiros”.

Rodrigues Alves assumiu a Presidência da República em 1902 disposto a mudar radicalmente aquela situação. Já no ano seguinte, Oswaldo Cruz foi chamado para assumir a diretoria-geral de Saúde Pública, um cargo similar ao de atual ministro da Saúde. Sua missão era acabar de vez com a febre amarela. O médico logo criou o Serviço de Profilaxia, que colocou nas ruas as chamadas brigadas de mata-mosquitos – agentes sanitários que tinham por objetivo eliminar os focos do vetor da época, o Aedes aegypti. O modelo de ação era autoritário: agentes entravam à força nas casas para destruir os locais de desova do mosquito.

Mas surtiu efeito: em 1907 a epidemia foi considerada erradicada. Desde o fim dos anos 1920, praticamente não houve nenhum surto epidêmico nas cidades. E desde 1937 a vacina está disponível. O último registro oficial de transmissão do vírus em uma cidade brasileira é de 1942. “A população era muito menor do que hoje, e a política sanitarista era totalmente truculenta, inaceitável atualmente”, pondera a historiadora da Ciência Danielle Sanches, da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Mas a gente perdeu um pouco o bonde dessa busca pelo saneamento.”

Na avaliação do historiador Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz, passou a predominar no país uma atitude passiva e tolerante. Segundo o também editor científico da revista História, Ciências e Saúde – Manguinhos, não houve uma política de vacinação entre a população urbana justamente no momento em que as cidades mais cresceram. “A febre amarela urbana inspira um pânico por causa dessa memória coletiva, essa lembrança inconsciente desses tempos calamitosos da epidemia urbana”, afirma o historiador Jaime Benchimol, da Fundação Oswaldo Cruz. “E existe um risco de fato de uma volta da doença. Temos conhecimento de sobra, mas não temos é vontade política de enfrentar a situação”, completa.

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