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Turismo

O mundo inteiro no passaporte

Viajantes incansáveis tornam realidade o sonho de explorar todos os cantos do planeta



Viajantes obstinados são donos de uma coleção rara e curiosa: o número de países visitados. Alguns já atingem a marca de mais de meio mundo carimbado no passaporte
Nem é preciso um espírito aventureiro e explorador para compartilhar um desejo co­­mum: conhecer o mundo inteiro. Viajar encurta distâncias geográficas, culturais e sociais. E tem gente que decidiu mostrar quão pequeno é o fantástico planeta Terra. Nem que para isso precise usar vários passaportes para colecionar carimbos de visto e investir muitos anos da vida em voos e deslocamentos.

Há divergências na contagem oficial de países. A Orga­­nizações das Nações Uni­­das (ONU) reconhece 193 territórios soberanos. A Fede­­ração Internacional de Futebol (Fifa) conta 208. Seja qual for a lista, conferí-la toda – ou a maior parte dela – tornou-se um dasafio para um seleto grupo de obstinados viajantes.

O casal Guilherme Canever, 35 anos, e Bianca Soprana Ca­­never, 32 anos, de Curitiba, encheu o passaporte com mais de 70 carimbos diferentes. Entre os países visitados estão Iraque, Burundi, Mianmar, India e Moçambique. Eles mantém dois blogs onde compartilham as experiências das viagens: www.saiporai.wordpress.com e www.tambemsai.wordpress.com

“A curiosidade, o desejo de conhecer e compreender o mundo são as maiores motivações dos viajantes. Porém, quanto mais viajamos, mais descobrimos o quanto somos ignorante”, diz Canever. A primeira viagem do engenheiro florestal foi aos 3 anos de idade, para a Argentina.

Quem percorre o mundo tem muitas histórias para contar. Canever lembra de uma situação interessante no norte do Iraque. “Sem saber o que fazer com a gente, já que não entendiam quando falávamos city center, nos levaram a uma pizzaria, só porque éramos estrangeiros”, recorda. O casal ficou 2,5 anos na estrada e mantém dois blogs sobre as viagens. Para bancar a aventura, Ca­­ne­­ver largou o emprego e ven­­deu tudo para ficar na es­­trada.

O começo da exploração pode ser despretensioso. O juiz federal Leandro Cadenas Prado, 39 anos, de Curitiba conhece 60 nações. Conheceu primeiro o vizinho Pa­­ra­­guai. “Tinha apenas 16 anos. De­­pois vieram a Argen­­tina e os Es­­tados Unidos”, conta. Entre os lu­­ga­­res que visitou, destaca as viagens que fez à Jamaica e ao Taiti. Mas a Rússia o decepcionou. “Não são muitas as pessoas que falam in­­glês nas ruas, as placas são escritas em alfabeto cirílico, e há preços diferenciados para turistas.”

Atrás do sonho

Não existe uma receita para se tornar um viajante dedicado e passar a marca de 100 ou 150 países. Enquanto alguns jovens levam 20 anos para atingir o objetivo, outras pessoas, inclusive mais maduras, dedicam 18 meses inteiros de pé na estrada. De acordo com o engenheiro de petróleo Paulo Mansur Ray­­mundo, baiano que conhece 192 países, a dica é nunca perder a chance de viajar. “Viaje já! Não fique esperando ter mais dinheiro, ou ter mais tempo, ou ter companhia. Comece por alguns estados brasileiros, depois vá ao Peru e Bolívia que, apesar de tão próximos, são tão distintos do Brasil”, afirma.

Associar o trabalho com o turismo também ajuda a colecionar países. Diretora de uma empresa de eventos, Daniela D’Ávila, 40 anos, de Curitiba, começou a viajar ainda criança, mas a profissão ajudou a desbravar o planeta. “Desde menina meu sonho foi sempre viajar e conhecer lugares. Mi­­nha profissão facilitou, me dando a oportunidade de visitar lugares inesquecíveis”. Pa­­ra ela, o mun­­do é grande, mas tornou-se mais fácil para co­­nhecer lugares e pessoas que vivem nas diferentes partes do planeta.

Promotor de vários destinos turísticos, o paulistano Mau­­rício Mateus Barbosa, 31 anos, conseguiu conhecer 56 países em dez anos. A experiência foi amplamente enriquecedora. Quando começou a viajar, em 2001, mal sabia falar inglês. “Eu queria me encontrar, pois sabia que o mundo não era só São Paulo”, revela.

Os 50 países visitados pelo comerciante curitibano Clau­­dio Antonio Cetenareski, 35 anos, também lhe deram muitas lições de vida. Toda semana ele visitava clientes na Europa, África e Ori­­ente Médio. “O mundo é fascinante e do tamanho que queremos dar para ele. Em todos os lugares, não deixei de perceber que as dificuldades, necessidades, sonhos, aspirações e desejos de todos são similares”, diz.

Um álbum de viagem gigante

Assim como os filatelistas ou qualquer outro tipo de colecionador, elencar países visitados pode ser um feito oficializado. Nos Estados Unidos, um clube reúne esses incansáveis viajantes. O seletíssimo Traveler’s Cen­­tury Club (TCC – Clube dos Via­­jantes Centenários) só aceita co­­mo membro quem prove ter conhecido pelo menos cem países. Criado em 1954, hoje possui 2 mil associados.

Para facilitar a façanha, o TCC tem um critério próprio para definir um país, o que ajuda na hora de contabilizar os destinos visitados. A contagem atual chega a 321, número muito superior aos 193 integrantes da ONU ou os 208 da FIFA.

Para o clube, basta que região apresente algum grau de autonomia. Por exemplo, Fernando de Noronha (Brasil), Ilha de Páscoa (Chile), Galápagos (Equa­­dor), Ilhas Malvinas (Reino Uni­­do) e o Alasca (EUA) são considerados países. Embora não seja uma exigência, o estatuto do clube recomenda que viajante permaneça uma ou duas noites em cada destino. No entanto, se a pessoa conseguir provar que passou pelo lugar, mesmo que tenha sido apenas no aeroporto, ele pode ser contabilizado.

Mesmo com esse subterfúgio, 14 membros do TCC já visitaram todos os 321 lugares da lista. O primeiro do ranking é o empresário norte-americano Charles Veley, de 47 anos. Aos 37 anos de idade, ele já contabilizava a proeza de conhecer o mundo inteiro. A empreitada demorou 11 anos.

Quatro brasileiros fazem parte do TCC: dois curitibanos, um baiano e um paulistano. O restaurateur Roberto Vezozzo, 70 anos, de Curitiba, conseguiu atingir a marca de 110 países. A extensa lista começou em abril de 1966 por Assunção, no Para­­guai, e terminou nas Ilhas Mau­rício, em 2011. Foram 7,2 mil horas de voo até agora. A esposa dele, Rosilene Vezozzo, 45 anos, fez 102 países em 14 anos, de 1997 a 2011.

Segundo Vezozzo, o sonho de conhecer o mundo nasceu quando ainda era menino, ao ouvir as histórias do irmão que morava no exterior. Na segunda viagem, ainda em 1966 para a Inglaterra, teve a oportunidade de conhecer outros 11 países. “Fui gerente do Banco do Brasil em Nova York, Caracas e Quito. Durante este tempo, conheci muitos lugares”, conta. “Eu também morei dois anos na Espanha, quando tive a oportunidade de conhecer 15 países. Foi quando eu cheguei aos 60 destinos”, lembra.

A ideia de atingir a marca dos 100 veio quando faltavam 40 territórios no passaporte e soube da existência do TCC. Agora, o objetivo é chegar aos 150 destinos. O álbum de Vezzozo tem registros como as Sete Maravilhas do Mundo Moderno, entre outras proezas, como ter voado no avião e no trem comerciais mais rápidos do mundo. “Adoro a Tailândia e o Canadá”, revela.

Serviço

Traveler’s Century Club. Informações no site travelerscenturyclub.org/

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