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Sábado, 31/07/2010

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Antônio Costa/ Gazeta do Povo / A vivência feita em grupo permite, segundo Nélida, o aprendizado pessoal. A vivência feita em grupo permite, segundo Nélida, o aprendizado pessoal. "O outro é o nosso espelho."
Bem-estar

Roda viva

A biodança é uma prática que tenta resgatar a memória do corpo físico e emocional

Publicado em 15/06/2008 | Larissa Jedyn - larissa@gazetadopovo.com.br

Se a vida tivesse de ser representada por uma dança, qual seria? Quais seriam os movimentos característicos e em que momento exatamente eles ocorreriam? Quem sabe um rodopio ao se levantar da cama ou uma seqüência de saltos para atravessar a rua... A biodança é bem mais simples que isso: é um andar cadenciado, uma espreguiçada boa, um abraço terno e todos os outros gestos que compõem o conjunto de movimentos do nosso dia-a-dia. A diferença é que nas aulas esses movimentos não são aleatórios, a prática propõe uma vivência em grupo, ao som de músicas específicas (leia box), que têm como objetivo resgatar a “memória do corpo”, como se fosse um tipo de programação inicial. Os adeptos desta atividade acreditam que isso serve para desfazer os problemas decorrentes do mau uso das estruturas corporais e das emoções.

“Vivemos em uma cultura que não é a vida original, mas uma criação do homem. Com a biodança, você sai do ovo que é essa cultura para vivenciar todas as leis da vida”, diz Nélida Pérez, professora de biodança há 23 anos e formadora de facilitadores (os instrutores da atividade).

Giuliano Gomes/ Gazeta do Povo

Giuliano Gomes/ Gazeta do Povo / Isabel e Margarete: no lugar de uma coreografia pronta, movimentos e toques que testam os limites de cada um Ampliar imagem

Isabel e Margarete: no lugar de uma coreografia pronta, movimentos e toques que testam os limites de cada um

5 passos

Conheça como funciona a biodança na prática. Os movimentos não podem ser classificados como dança e sim seqüências de ações, que repetem as que fazemos naturalmente:

A sessão de biodança é composta de duas partes: a primeira, verbal, na qual as pessoas contam o que vivenciaram nas aulas anteriores. A segunda parte é com os movimentos – nesta fase não se fala, pois entende-se que o verbal tolhe as sensações –, que se dividem em cinco linhas:

Vitalidade

A intenção é resgatar a alegria e o desejo de viver com músicas alegres e movimentos que lembram brincadeiras.

Criatividade

É a fonte de inovação existencial – nas relações, no trabalho, nas atividades que se gosta de fazer. O cotidiano leva à mecanização e à padronização das respostas. Se você muda a resposta, muda a situação, oferece outras possibilidades de vida. As músicas são mais complexas e expressivas.

Sexualidade

Trabalha o sentido amplo do feminino e do masculino, do yin e yang, tudo o que tem a ver com as relações de gênero e humanas em geral. A cultura bloqueia o corpo no que se refere à afetividade, ao olhar e ao cuidado com o outro. As canções são mais melódicas, geralmente com saxofone.

Afetividade

Amplia o mundo dos sentimentos para reconhecer as emoções sem preconceito. “Temos aqui a possibilidade de dançar as emoções, movimentá-las, pois os sentimentos que não são elaborados se prendem ao corpo, podendo originar doenças. Mas você pode tomar consciência deles, movimentar o corpo e se desfazer desses sentimentos. Há emoções que curam e outras que adoecem”, diz Nélida Pérez. Nesta parte, as músicas são clássicas, melódicas, com conteúdo afetivo e amoroso.

Transcendência

Aborda o mundo espiritual, a conexão com o universo, de como silenciar o ego para ouvir o outro, transcender os problemas, integrar, relacionar-se com o deus de cada um. É a vez de harmonias mais leves como o new age.

Segundo o facilitador de biodança Alceu Venâncio Jr., a cultura tradicional propõe um código de conduta a ser seguido – não mate, faça assim, isso é certo, aquilo é errado – e apela para a “consciência” das pessoas. “A vivência, por meio da biodança, gera essa consciência naturalmente. Por exemplo, você sabe que precisa amar e respeitar a natureza. Mas que diferença faz isso pra você se não tem contato com ela? A vivência proporcionada pela biodança leva você até uma árvore, faz você senti-la, sentar-se à sua sombra, provar dos seus frutos, olhar os bichos que vivem nela. Depois de estabelecida essa relação, fica muito mais fácil amar e respeitar a natureza.”

Assim, a biodança é considerada uma experiência pedagógica e terapêutica. Diferentemente das terapias convencionais, em que a pessoa é levada a trabalhar suas limitações para mudar o padrão “doente”, nesta prática se prega o reaprendizado das funções originais – o que acaba sendo terapêutico por conseqüência. “Você não fala para uma árvore crescer e ter dois metros de altura. Basta dar condições a ela para isso, como água, luz e nutrientes. A vida é plena, só precisa de condições para se manifestar. Por isso não trabalhamos sobre a parte doente. Nós queremos produzir saúde.”

Dance você

Segundo os professores de biodança, a música, o movimento corporal e as vivências em grupo estimulam o restabelecimento da saúde integral: vitalidade (resistência ao estresse), inteligência emocional, capacidade de amar, alegria e coragem de viver. “Não é mágica, é progressivo. Se você tem medo, vai percebendo a música, fazendo os movimentos e reconhecendo a sua capacidade e a dos outros de lidar com certos sentimentos. Você entra em contato com as suas elaborações e a dos outros. Eu era muito tímida, mas fui me movendo e trabalhando essas questões, ainda que indiretamente. Passei a gostar de mexer o meu corpo e percebi que a vida pode ser prazerosa”, comenta a psicóloga e gestalt-terapeuta Isabel Cristina Wachhlz, que é facilitadora de biodança junto com Margarete Pereira Bosa.

A idéia ainda parece muito abstrata? Venâncio explica que o natural seria que de toda emoção surgisse um pensamento, e dele viesse uma ação. “Somos vitalidade, sexualidade, criatividade, afetividade e transcendência. Essas características são tolhidas pela nossa forma de viver. De que jeito? Quando chegamos com uma criança a algum lugar é natural que ela corra, brinque. E o que nós dizemos? ‘Pare, fique quieta’. Ou ‘não chore’, ‘não faça barulho’.” Em decorrência disso surgem as chamadas “couraças” – termo retirado da teoria do psiquiatra Wilhelm Reich – , que retêm a energia das emoções no corpo podendo gerar doenças. “O engraçado é que moramos numa casa (o corpo) e não conhecemos nada dela. Não aprendemos a ouvir o nosso corpo. Por isso sofremos. E é aí que entra a biodança: para reprogramar esse comportamento”, diz Nélida.

Origem

A biodança foi criada há trinta anos, a partir das observações e experimentações do chileno Rolando Toro, antropólogo, psicólogo e professor. Desde a sua origem, o sistema partia do princípio biocêntrico, ou seja, da colocação do fenômeno da vida como centro de percepção e organização do mundo. Toro percebeu que a música permitia tanto a expansão da personalidade, como a introspecção, em momentos diferentes, conforme a harmonia, o ritmo e os movimentos. “O mais saudável é quando conseguimos ir de um lado para outro facilmente. Ter vitalidade não significa, por exemplo, ficar ligado o tempo todo. O certo é acordar com pique e depois, deitar e dormir. Você consegue isso com a biodança, que age como mecanismo auto-regulador”, diz Alceu Venâncio. A prática não requer pré-requisitos e não tem contra-indicações.

* * * * * *

Serviço

Alceu Venâncio Jr., Sesc Centro, José Loureiro, 578, (41) 8841-6544, 2ªs e 6ªs, às 19 horas.

Nélida Pérez e Osvaldo Marcón, Espaço Energia Vital, Rua Atílio Bório, 1.177, (41) 3676-1489.

Isabel Cristina Wachhlz e Margarete Pereira Bosa, fones (41) 3233-1366 e 3262-4587. Curso Vivencial de Iniciação à Biodanza, dias 7, 14, 21 e 28 de julho, às 19h30, na Rua 21 de Abril, 158.

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