Domingo, 01/08/2010
Daniel Castellano/ Gazeta do Povo
“Se você só anda de carro, está perdendo um tempo valioso que poderia investir em leitura. Já quem pega ônibus diariamente não tem desculpas para não ler.” Melissa de Andrade, formada em Direito
Enquanto muitas pessoas reclamam da falta de tempo para ler um livro, outras aproveitam o trajeto do ônibus para se dedicar à literatura
Publicado em 07/03/2010 | Mariana Sanchez, especial para a Gazeta do Povo - marianab@gazetadopovo.com.brMelissa de Andrade, 29 anos, formada em Direito, vem fazendo isso há pouco mais de quatro anos. “Comecei com jornais e revistas. Eu comprava, entrava no ônibus e, por ser impaciente, não conseguia esperar até chegar em casa para ler. Depois pensei: por que não ler um livrinho também?”, conta. Entre o Novo Mundo, onde mora, e o Centro Cívico, onde trabalha, Melissa passa uma hora e meia todos os dias dentro de um biarticulado da linha Santa Cândida/Capão Raso. Sem muito tempo para ler em casa – ela sai para trabalhar às 7h30 e, como faz aulas de flamenco e espanhol após o expediente, só volta depois das 23 horas –, a leitura em movimento tornou-se hábito. Hoje, pode até esquecer o guarda-chuva, mas nunca sai de casa sem um livro na bolsa. “Quando ele é bom, não vejo a hora de entrar no ônibus para continuar lendo”, garante.
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Melissa de Andrade: viagens diárias e cerca de 30 livros lidos por ano
Mas o que se lê a bordo do Mercedes-Benz não é o mesmo que se lê na tranquilidade de casa, explica a jovem, que acabou desistindo do livro de um filósofo chileno, escrito em espanhol, porque exigia constantes paradas para consultas e anotações. Por outro lado, seu exemplar de O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, já está gasto de tantas releituras e viagens urbanas. “No ônibus, o ideal são aquelas leituras envolventes, de ‘fácil digestão’” – não necessariamente breves, já que Melissa lê um volume de contos curtos com a mesma concentração com que lê um longo romance. Peso tampouco é um problema: “Quem tem carro costuma dizer que o veículo é a extensão de sua casa. Eu digo o mesmo em relação à minha bolsa: trago tudo nela, da escova de dente e maquiagem a remédios e livros, já estou acostumada com o peso”.
Tontura e enjoo
Algumas pessoas costumam reclamar que ler em movimento causa tontura. Segundo o oftalmologista Jackson Barreto, a movimentação da paisagem do lado de fora do veículo pode fazer com que a pessoa desenvolva momentaneamente um distúrbio conhecido como nistagmo, espécie de tremor dos olhos, que balançam para os lados e precisam recuperar o foco no livro. “Este exercício visual é cansativo e está conectado por um estímulo nervoso ao labirinto (ouvido interno), que tem a ver com o equilíbrio. Ao mesmo tempo que a pessoa se esforça para manter a atenção na leitura, o labirinto fica tentando manter o equilíbrio da cabeça e do corpo, devido ao movimento do ônibus”, explica. Outra reclamação é quanto a náuseas e enjoos, que também podem ser sentidos por conta dos efeitos do movimento sobre o labirinto. Neste caso, segundo o oftalmologista, quanto menor o estímulo visual, menos desconforto a pessoa terá. Uma forma de amenizar o problema é escolher, sempre que possível, os assentos frontais do veículo, que balançam menos do que os do fundão – no caso dos ônibus biarticulados isso faz toda a diferença.
Melissa de Andrade afirma que não sente nenhum desconforto ao ler no ônibus, mas explica que algumas “técnicas” garantem maior conforto à sua leitura. Uma delas é sentar ao lado da janela, onde há melhor iluminação e “um cotovelo a menos para incomodar”. Segundo ela, ler sentado é muito mais confortável, mas, se isso não for possível, o jeito é escolher cantos onde se encostar para não ficar tão vulnerável aos sacolejos do veículo. “Já se o ônibus está realmente lotado, fica impossível”, admite.
Iniciativas por aí
Em Brasília, os passageiros que partem do terminal Núcleo Bandeirante pela linha 82 já estão acostumados a ler em movimento. Há alguns anos, o cobrador Antonio Conceição Ferreira, criou, por iniciativa própria e graças a doações, uma biblioteca móvel onde qualquer pessoa pode emprestar um livro para ler e devolver quando quiser. O serviço não tem custo e o cadastro não exige documentação do leitor, basta assinar o nome e o telefone em uma folha sulfite. O acervo começou timidamente e, hoje, já ultrapassou os 4 mil títulos, incluindo a obra completa de Jorge Amado.
Outra iniciativa interessante é o projeto A Tela e o Texto, realizado por alunos da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Nele, textos importantes da Literatura Brasileira são impressos em lâminas e pendurados nos assentos dos ônibus que circulam em Belo Horizonte, à disposição de novos leitores. Em Porto Velho, Rondônia, usuários do transporte coletivo não se entediam mais durante a viagem. A cada quinze dias, o folhetim Leitura no Ônibus tem distribuição gratuita em várias linhas da cidade, desde 2006, trazendo passatempos, curiosidades e pequenas doses de literatura. Até agora já saíram 100 edições, cada uma com tiragem de 10 mil exemplares.
Do outro lado do Atlântico, em Portugal, a Carris, empresa pública de transportes de Lisboa fechou uma parceria em novembro do ano passado com a editora Objectiva, que prometeu distribuir gratuitamente alguns capítulos de livros aos passageiros de ônibus, numa inteligente ação de fomento à leitura (e de marketing!).
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