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Daniel Derevecki / Gazeta do Povo

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Entrevista

A ditadura das cadeiras

Acreditar que uma hora na academia elimina o prejuízo de ficar sentado por horas não passa de uma cilada, diz o coordenador do programa Agita São Paulo, Victor Matsudo

16/01/2014 | 00:12 |
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Elas estão por toda parte, ergonômicas, aconchegantes e, por isso mesmo, muito sedutoras. Onde quer que estejam, sempre são a opção para quem tem como alternativa apenas ficar em pé. Onipresentes no trabalho, lazer ou em casa, as cadeiras – e também as poltronas, bancos e sofás – comandam.

O médico do esporte e ortopedista Victor Matsudo, coordenador do programa Agita São Paulo, não faz volteios na hora de apontá-las como as grandes responsáveis pela piora da nossa saúde. Baseado nas pesquisas do norte-americano Peter Katzmarzyk, ele alarga a crítica a uma “cilada” a que muitos atletas de uma hora por dia estão submetidos. Matsudo assinala que vale mais o que você faz ao longo do dia do que os 60 minutos de academia. Ele atendeu a reportagem da revista Viver Bem Saúde e Bem-estar por telefone, mas sempre andando pelo seu consultório.

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Divulgação / “Nossa espécie tem quatro milhões de anos no planeta. E como nos desenvolvemos? Caminhando de manhã, de tarde e de noite. Nunca corremos, não há e não havia tribos que corriam na selva dia e noite.” Ampliar imagem

“Nossa espécie tem quatro milhões de anos no planeta. E como nos desenvolvemos? Caminhando de manhã, de tarde e de noite. Nunca corremos, não há e não havia tribos que corriam na selva dia e noite.”

“No futuro, todos trabalharão em pé”, vaticina Matsudo em meio a uma respiração ofegante. Confira a entrevista:

Sua opinião sobre a pouca eficiência dos treinos limitados de academia é heterodoxa?

Não é heterodoxa, ela é a mais atual. As pessoas estigmatizaram que se pode “apagar” os prejuízos de uma vida sedentária fazendo uma hora de academia. Muitas delas ficam sentadas ao longo do dia, porém estão convictas de que ao treinarem fizeram o suficiente para melhorar sua qualidade de vida. Mas a verdade é que o tempo que você fica sentado está diretamente ligado a maior mortalidade. É uma cilada achar que porque você fez academia você carimbou o passaporte para a saúde.

Quais são os efeitos desse sedentarismo cotidiano?

Em 2009, o pesquisador norte-americano Peter Katzmarzyk avaliou 13 mil pessoas por 14 anos e concluiu que quem ficava a maior parte do tempo sentado tinha chance de morrer maior do que os outros. Recentemente, um artigo publicado na PlosOne dividiu grupos em relação a tempos sentados, e conseguiu mostrar a relação deles com o aumento do índice de massa corporal, dos níveis de triglicérides, da resistência à insulina e das pressões sistólica e diastólica. O grupo que fazia apenas atividades minimamente intensas rotineiramente, como ficar em pé e caminhar, teve resistência à insulina menor que o grupo de pessoas que ficavam somente sentadas ou que faziam apenas uma hora de exercício por dia e ficava o restante do tempo sentado.

Quais foram as conclusões sobre a efetividade dos exercícios de uma hora?

A primeira conclusão é que uma hora de atividade física por dia não compensa os efeitos negativos da inatividade sobre os níveis sanguíneos de insulina e lipídeos. Ela não resolve os efeitos negativos que o tempo sentado causa no organismo. Outra conclusão é que uma redução da inatividade física ficando em pé ou caminhando tem mais efeito que aquela hora de exercícios. Gastar 400kcal levantando e caminhando tem mais efeitos gerais sobre a saúde que realizar exercícios por uma hora. Isso porque as pessoas ativas, mas que ficam sentadas, perdem o efeito dos exercícios.

O que pode ser considerada uma atividade minimamente intensa?

Ficar em pé ou no máximo caminhar em velocidade normal. Aqui cabe um apontamento sobre a corrida: nossa espécie tem quatro milhões de anos no planeta. E como nos desenvolvemos? Caminhando de manhã, de tarde e de noite. Nunca corremos, não há e não havia tribos que corriam na selva dia e noite. Correr é um mero mecanismo de emergência, não habitual. Parece óbvio que nossa espécie foi ajustada a andarmos, nosso coração, pulmão, intestino, cérebro, tudo foi adaptado por sermos uma espécie que anda. Nossos antepassados caminhavam 6 km por dia.

Como inserir esse hábito de ficar em pé no dia a dia, no ambiente de trabalho?

Estou dando esta entrevista caminhando, me coloco em pé quando toca o telefone. Você, em um futuro próximo, vai se lembrar de mim: vai trabalhar em pé, porque senão terá mais hipertensão, derrame, diabete. No futuro as estações de trabalhos serão adaptadas a isso, as pessoas andarão sobre esteiras enquanto digitam no computador ou atendem telefone. É claro que é importante fazer 30 minutos por dia de atividade moderada, acumulada, porém temos que diminuir nosso tempo sentado: a cada 30 minutos sentado, passe 5 minutos em pé. Se não der, a cada 60 minutos sentado, fique 10 minutos em pé.

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