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Brasil tem mais de 65% do território coberto de áreas verdes | Albari Rosa/Gazeta do Povo
Brasil tem mais de 65% do território coberto de áreas verdes| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

País de vocação natural ao agronegócio, o Brasil ainda vive um intenso dilema entre campo e cidade, urbano e rural. Uma contradição difícil de entender, mais ainda de explicar. Ciência, números, economia, divisas comerciais e soberania. Questões ambientais, de abastecimento e segurança alimentar. Realmente, sob essa ótica, um universo bastante complexo. Mas não é – ao contrário, é mais simples do que se possa imaginar. Uma polêmica, portanto, desnecessária. O agro está no dia a dia de toda a população, da mesa de refeição, da roupa que cada um usa à condição econômica do país. O que falta é informação, diálogo e disposição ao entendimento.

A considerar a participação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o setor tem contribuição decisiva ao desenvolvimento econômico e social. Praticamente um quarto da economia brasileira – no caso 25,% do PIB – vem do agro. Um dado que por si só revela que o agronegócio é muito mais urbano que rural. Mostra que não é apenas plantar e colher. Que o efeito colateral dessa economia garante boa parte da geração de emprego e renda não apenas dentro, mas principalmente fora da porteira.

Em 2017 foi o agronegócio que tirou o Brasil da recessão, com 70% de participação no desempenho positivo de 1% do PIB nacional. Não fosse o agro, essa conta iria para o terceiro ano consecutivo no vermelho. O superávit da balança comercial está no azul graças ao setor rural. Mas o que isso significa? Aqui, outra informação importante. Mais de 40% de todas as exportações, de tudo que foi embarcado pelos portos brasileiros, vieram do campo. Sete entre os dez produtos mais enviados ao exterior são do agronegócio.

Chega de fogo amigo

Ótimo, mas o Brasil precisa exportar mais tecnológica e conhecimento. Todos concordamos. Mas também concordamos que não dá para ignorar a vocação primária, condição natural que provém da disponibilidade de terra, água e do clima tropical. Sem falar que, ao exportar soja, por exemplo, o grande ativo do agronegócio brasileiro, estamos, sim, exportando muita tecnologia. No livro Agricultura e Indústria no Brasil – Inovação e Competitividade, o professor Albert Fishlow, da Universidade Columbia (Estados Unidos), e o pesquisador José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), defendem que em um grão de soja existe tanta tecnologia quanto na indústria da aviação.

Mas como é possível haver tantos conflitos envolvendo o agronegócio, em especial na dicotomia entre produzir e preservar? A ciência, mais uma vez, não encerra a questão. E nem é essa a pretensão. Mas traz respostas, provoca e joga luz sobre questões técnicas e passionais. Estudo recente da Embrapa sobre a ocupação de terras no Brasil mostra que mais de 65% do território brasileiro está protegido ou preservado em processo mandatório, por dispositivos legais, ou pela simples consciência ambiental. E apenas 7,8% da extensão continental do Brasil é ocupada pela agricultura. Caso alguém questione a isenção no estudo da Embrapa, esse dado está em linha com outro levantamento de terras agrícolas, este feito pela Nasa.

A título de comparação, a média das áreas protegidas em dez países com produção agrícola relevante é de 10,5% do território. Os Estados Unidos, o grande produtor mundial, protege 20% da sua área e destina 17,3% da sua extensão ao cultivo agrícola. Somadas florestas plantadas para fins econômicos e pastagens, mais de 74% do país está ocupado pelo agronegócio. No Brasil, pastagens, florestas plantadas e lavouras somam 30,2%.

Na última década o Brasil praticamente dobrou sua produção de proteína animal e vegetal, assim como de agroenergia. Com volume, tornou-se competitivo no mercado doméstico e internacional, apesar de todas as limitações tecnológicas, logísticas e de posicionamento no comércio global. Foi aí que nossos concorrentes passaram a procurar elementos para tentar desqualificar o país e, assim, obter alguma vantagem comercial nas relações comerciais internacionais. Na prática, quando cobram do Brasil em questões de preservação, estão apontando o dedo porque passamos a incomodar.

Eles, no entanto, sabem que o Brasil faz, sim, a lição de casa. Nós, internamente, é que temos dificuldade em enxergar. Mas é chegada a hora de unir o Brasil que preserva e que produz. Chega de fogo amigo. E, se queremos produzir mais e melhor, se queremos e podemos preservar mais e melhor, paixão e razão precisam caminhar juntos. Agronegócio e preservação não são opostos, mas complementares, condição ao desenvolvimento socioeconômico e ambiental.

Precisamos de mais conhecimento e tecnologia tanto para produzir quanto para preservar. Mas também de políticas públicas adequadas, acesso à informação e de uma opinião pública devidamente esclarecida. São condições mínimas para garantir esse equilíbrio em um tema que não é apenas de interesse como utilidade pública.”

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