PUBLICIDADE
  1. Home
  2. Logística
  3. Invenção de ‘Professor Pardal’ curitibano salva milhões de toneladas de grãos do apodrecimento
made in brazil

Invenção de ‘Professor Pardal’ curitibano salva milhões de toneladas de grãos do apodrecimento

Engenheiro-mecânico se inspirou no furacão Katrina para criar um exaustor que evita perdas em armazéns por ataque de pragas, calor e fungos

Marcos Tosi Invenção de curitibano recebeu prêmio nacional em 2013 | Marcos Tosi

Invenção de curitibano recebeu prêmio nacional em 2013

  • Marcos Tosi* Não-Me-Toque (RS)

Ele é dono de uma metalúrgica no bairro Boqueirão, em Curitiba, que fabrica um único produto. Werner Uhlmann matutou por anos a invenção de uma engenhoca para evitar perdas de milhões de reais por umidade, ataque de pragas e fermentação de grãos guardados em silos e armazéns de todo o Brasil.

Por um bom tempo, Uhlmann não precisará se preocupar em inventar mais nada, além de dar conta dos pedidos, que já chegam até do Japão. Ele fatura R$ 2,1 milhões por mês vendendo um exaustor metálico estático, devidamente patenteado, que já lhe rendeu o prêmio “Gerdau Melhores da Terra” em 2013.

A invenção é simples e atende às exigências das normas federais e do Corpo de Bombeiros para ventilação e exaustão de áreas confinadas, de forma a evitar os riscos à saúde humana e de explosão. O sucesso de vendas, no entanto, está relacionado à interrupção de processos físico-químicos que deterioram milho e soja guardados por meses em galpões metálicos gigantes, corroendo a renda dos produtores.

Há mais de 20 anos, após uma viagem aos Estados Unidos, o alemão curitibano foi um dos primeiros a produzir no Brasil exaustores giratórios - aqueles chapéus de mestre-cuca metálicos bastante comuns no telhado de barracões e fábricas. No entanto, ao serem colocados no alto dos silos - onde os ventos são mais fortes e provocam alta rotação - os aparelhos giratórios tendem a torcer o eixo central e enguiçar, perdendo a utilidade.

Foi depois de visitar um primo fazendeiro no Rio Grande do Sul que o engenheiro-mecânico começou a pensar num exaustor estático. Ele viu que, dentro dos silos, por causa do calor, os grãos perdem umidade e peso, provocando condensação na parte superior. Essa condensação, por sua vez, se não combatida, provoca a fermentação e o apodrecimento de toneladas do produto. Além de propiciar o ataque de insetos, que se multiplicam mais rapidamente em espaços escuros e quentes.

Divulgação

Solução vem sendo adotada em silos de todo o País

Uma tentativa comum de atenuar esses problemas é o uso de ventiladores, que têm o efeito colateral de secar os grãos e diminuir seu peso. “Para cada ponto percentual de umidade de grão perdida, perde-se 1,18% em peso. Daí você precisa de mais grãos para encher uma saca de 60 kg. Estamos falando em silos com mais de 300 mil sacas e prejuízos de centenas de milhares de reais”, aponta Uhlmann.

O engenheiro teve, então, um ‘estalo’ de inventividade. “Eu me inspirei naquela imagem do furacão Katrina, do vento se deslocando em alta velocidade para o centro do ciclone”. Foram anos desenvolvendo o produto até chegar a um modelo de exaustor estático que combina a função de sugar o ar com a de iluminar o ambiente.

Basicamente, são dois cilindros justapostos entre si e com venezianas invertidas, que não permitem a entrada de respingos de chuva. Ao centro, uma tampa de policarbonato garante a passagem de até 90% de luz. O exaustor combate fungos e mofo ao retirar o ar quente do ambiente e, de quebra, deixa entrar luz natural, inibindo a proliferação de mariposas e bicudos que se alimentam dos grãos. Os gastos com energia elétrica caem 60%, por que não é preciso ligar secadores.

“Como é um produto que não se movimenta, ele não quebra. Faço uma única venda, mas o cliente sai satisfeito”, diz o inventor que comercializa, em média, 3500 aparelhos “Cycloar” por mês, cobrando R$ 600 pelo produto e a instalação.

A Cooperativa Cotrijal, que atua no Norte do Rio Grande do Sul, instalou exaustores de Uhlmann em sete armazéns de 400 mil sacas e mais de 50 silos menores.

Payback

“A prática nos mostra que os graneleiros de alta capacidade e os silos metálicos são os lugares com mais problemas de condensação e calor. Se fosse fazer um estudo de ‘payback’, logicamente verificaríamos que o investimento se paga em curto prazo, porque os grãos não sofrem a mesma perda de qualidade”, assegura Tadeu Garibotti, gerente de Armazenagem de Grãos da Cotrijal.

O consultor em agronegócio e professor aposentado da disciplina de Máquinas Agrícolas da Universidade Federal de Santa Maria, Arno Dallmeyer, destaca a criatividade de Uhlmann. “A engenharia é isso. Não se trata de fazer coisas complicadas, que precisam de 400 mil peças eletrônicas. Mas é propor soluções simples e geniais. Esse é o grande mérito dele, sua ideação é mais importante do que seu lado de empresário”.

Os exaustores de Werner Uhlmann ornamentam hoje as coberturas de silos de propriedades rurais, agroindústrias e cooperativas nas principais regiões agrícolas, do Rio Grande do Sul ao Paraná e Mato Grosso, chegando também às unidades armazenadoras da fronteira Norte. E ao melhor estilo professor Pardal, ele viaja o País de motor-home promovendo seus negócios: “Quer me encontrar não me procure em Curitiba. Estou sempre na estrada”.

Siga o Agronegócio Gazeta do Povo

Assista agora

VOLTAR AO TOPO

NOTÍCIAS POR CULTURA