Blog André Pugliesi
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Atlético, zoar é vencer o Flamengo com time B no Maracanã; não vídeo tolo

Não lembro de ter visto algo tão desastrado quanto o vídeo promocional publicado pelo Atlético horas antes do primeiro jogo da final da Sul-Americana, contra o Junior Barranquilla. Talvez aquela filmagem do Arnold Schwarzenegger no carnaval do Brasil no início dos anos 80.

A começar pela extemporaneidade. Justamente na data da partida mais importante da última década do clube, o Furacão lançou peça que não tem absolutamente nada a ver com o gramado. Campo que, em tese, e como vimos, só em tese, deveria ser o o foco do momento.

Mas, tudo bem. Deixo de lado a completa falta de senso de oportunidade. O problema é que o conteúdo é ainda mais estapafúrdio e inadequado. Parece uma obra desses Youtubers garotões que gritam, fazem uma fumaça danada, e ninguém sabe ao certo sobre o que estão falando.

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Para promover a sua nova identidade, bem, foi o que deu para intuir, o Rubro-Negro preferiu atacar quatro clubes que, não há dúvida, têm passados gloriosos e personalidades consolidadas. Na tentativa de exaltar a si mesmo, buscou diminuir Flamengo, Grêmio, Corinthians e São Paulo.

No caso do rubro-negro carioca, por exemplo, a mensagem foi até meio incompreensível. “O que é ter uma nação? É ter a maior torcida do mundo? Aqui é torcer com quem você gosta. Sem medo”. Confesso, não ficou muito claro.

Primeiro, é certo que o Mengo tem a maior torcida do Brasil, há décadas, e uma das mais expressivas do mundo. Entretanto, na visão turva atleticana, ter uma “nação” ou mesmo a “maior torcida do mundo” (???) é “torcer com quem você gosta”, “sem medo”.

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Não é preciso ser nenhum gênio em interpretação de texto para entender que, logo, nas arquibancadas do Maracanã os flamenguistas não torcem com quem gostam e, ainda, torcem com medo. Curioso para o clube que obteve média de público de 47.139 pessoas no Brasileiro, quase cinco vezes a do Atlético.

Mas, voltando. “Torcer com quem você gosta” seria o pitoresco conceito de “torcida humana”? É infiltrar os visitantes entre os locais? Sem camisa, sem poder se manifestar? É especular com a segurança? É pedir às pressas a intervenção da polícia? Tudo isso é “torcer sem medo”? Ficam as perguntas.

As provocações aos demais clubes são tão baratas que soam infantis. Para cutucar o São Paulo, o Furacão diz que ser soberano é ser “dono da própria casa, sem dever nada a ninguém”. Eu estou muito enganado ou há na Justiça uma dívida de mais de R$ 500 milhões da reforma da Arena para a Copa?

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Curiosamente, o clube detona a ofensiva midiática justamente quando volta a experimentar respeito dentro de campo. Com a excepcional recuperação no Brasileiro, com a chance concreta de uma taça internacional, e com o reconhecimento do bom futebol praticado, entre os melhores do Brasil.

Desempenho com a bola nos pés que sempre fala mais alto do que qualquer outra coisa. Mais do que uma estrutura portentosa, que é o caso do Rubro-Negro e, evidentemente, muito mais do que peças promocionais supostamente “ousadas”. Consideração se ganha enfileirando taças.

“Zoar” com a bola nos pés foi o que o Furacão fez também no Maracanã. Com seu time recheado de bancários, virou um jogo com recorde de público e pretensão, por parte dos donos da casa, de que fosse a despedida da revelação Paquetá. Sem precisar de uma declaração sequer, atropelou o Flamengo.

Não sou contra a “flauta”, a provocação, a zoação, e entendo que o futebol precisa relaxar, distender um cenário contaminado pela violência. Agora, há formas mais efetivas que “gerar buzz” aproveitando a audiência alheia ou “viralizar” com polêmica vazia.

O Furacão tem conteúdo de sobra para se promover e, até, afrontar aos rivais. Uma história quase centenária de títulos, craques e personagens marcantes. Uma estrutura invejável e, especialmente, seu principal patrimônio, que é sua inflamada torcida.

Ao cabo de tudo isso, o Atlético só acertou na última frase da infame obra publicitária: “Porque no futebol é assim. Você pode querer ser qualquer coisa”. No caso específico, o clube conseguiu ser ao mesmo tempo extremamente inoportuno e pedante.

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