Logotipo Futebol 2019
Blog André Pugliesi

Ao enterrar o Atlético, Petraglia mostrou que é mesmo homem do seu tempo

Albari Rosa/Gazeta do Povo
Albari Rosa/Gazeta do Povo

Ao enterrar o Atlético, para uma refundação, na véspera do jogo mais importante do clube nos últimos 17 anos, Mario Celso Petraglia deu mais uma amostra, definitiva, de que é um homem do seu tempo. Alguém que está, para utilizar um termo afetado, conectado ao zeitgeist. Um cartola que sabe, talvez como nenhum outro, e agora emprego expressão bastante antiquada, “surfar na onda do momento”.

A repaginação do Rubro-Negro, ou melhor, o “rebranding”, veio apoiado no que há de mais moderno. Revisionismo histórico primário, carnaval publicitário tosco e autoritarismo travestido de democracia. É um resumo do que se viu na apresentação realizada na Arena da Baixada, na terça-feira (11), à noite.

Não é nenhuma novidade o quanto Petraglia renega o passado e as tradições do ex-Clube Atlético Paranaense. Entretanto, até então, o desprezo do dirigente servia apenas para aborrecer os atleticanos em entrevistas.  Agora não, entrou em ação, é matéria, produto, serviu de impulso para virar de ponta cabeça a identidade de uma agremiação quase centenária.

Para tanto, claro, Petraglia fez questão de reforçar sua revisão, fortemente singular e carregada de preconceitos pessoais, do que se passou nos 70 anos do Atlético antes de 1995, quando tomou o poder. Basicamente, era o nada: um clube de estádio modesto de tijolinhos, uniformes surrados, caloteiro e plagiador. “Temos que reconhecer que Atlético é o mineiro”, vaticinou Petraglia, na terça.

LEIA MAIS

Na Colômbia, diretoria do Atlético viu o que é realmente “torcida humana”

Com ‘torcida humana’, torcedores do Atlético não teriam ‘copado’ o Maracanã

Sim, em alguma medida faz sentido. Mas há, ainda, outras leituras possíveis sobre o que se viu na Rua Buenos Aires. Apesar das dificuldades, imensas, foi o Rubro-Negro das primeiras arquibancadas de concreto do Paraná, de Caju, a Majestade do Arco, do Furacão de Jackson e Cireno, de Jofre Cabral e Silva, Sicupira, Assis e Washington, Carlinhos Sabiá, do Caldeirão do Diabo, dos Fanáticos.

E mais, muito mais, incluindo, evidentemente, todos os feitos dos quais Petraglia participou ativamente. A abertura da Arena da Baixada, em 1999, as participações na Libertadores, o título brasileiro de 2001 com Alex Mineiro, do campeão mundial com a seleção brasileira Kléberson, e da reconstrução do Joaquim Américo para a Copa na tumultuada parceria com a prefeitura de Curitiba e o governo do Paraná.

Nada disso, no entanto, comoveu o cartolão. Diante do sentimento de milhões, triunfou a febre de um só. Confesso que jamais percebi o menor melindre dos atleticanos com relação ao nome do clube, ou como é chamado, nem sobre o escudo ou camisa. Ao contrário, a sensação que sempre tive é de que são apaixonados pelo Atlético, o símbolo CAP e a jaqueta listrada.

LEIA MAIS

“Torcida humana” dá errado e polícia improvisa em Atlético e Corinthians

Já era. O Atlético agora é Athletico, e não será surpresa se passar a ser grafado como Athletico-PR — a letra H não ajuda, só atrapalha, e os nomes realmente diferentes, Furacão e Paranaense, murcharam. O símbolo CAP tomou o mesmo rumo da versão de concreto da velha Baixada: a caçamba de detritos (foi salvo pela organizada). E a camisa listrada será aposentada contra o Junior.

Claro que para entregar o pacotão de mudanças foi fundamental contratar e armar o circo publicitário, erigido, especula-se, em milhões de reais. E depois de dois vídeos desastrados, o primeiro de contornos e narração épica e cenas do exterior de algum banco de imagens sobre um furacão, o outro uma provocação meio non sense com os maiores clubes do país, veio o big announcement. Imagem é tudo.

Mega evento transmitido via web em que a empresa contratada pôde revelar seus métodos, avançados, para reformular a marca, ou melhor, “brand” do Atlético. Visita ao CT do Caju, ida a um jogo do clube, entrevistas via formulário com sócios, contato com jornalistas esportivos, entre outras técnicas e estratagemas do setor. A torcida, de uma forma ampla, não foi consultada.

Por fim, a mudança de identidade, ao mesmo tempo em que refundou o Atlético, serviu para aposentar o Conselho Deliberativo do clube. Às pressas e sob o discurso de “voto de confiança”, e contra o princípio básico da existência do órgão, de deliberação, os “conselheiros” aprovaram, sem ao menos ver, todo o processo de transformação radical.

Evidentemente que não se esperava qualquer aceno de independência, no caso de uma apresentação, considerando o histórico e, até porque, trata-se de um conselho formado integralmente pelo grupo vencedor das eleições. Agora, o suicídio da opinião, foi, sem dúvida alguma, outro momento ímpar e exemplo rematado do que se pode classificar como autoritarismo disfarçado de democracia.

Foi uma noite histórica para o Atlético que, oficialmente, tem mais meio dia de existência (a depender de quando você ler, talvez já tenha “descansado”). Descaracterizado, será Athletico. A despedida, ao menos, pode ser triunfal, com a taça da Sul-Americana. Chance de eventual conquista que alçou o clube, outra vez, a um patamar de destaque nacional e, até, internacional. Só pelo que faz no campo. Não fora dele.

LEIA MAIS

Ao falar de torcida, Petraglia vem para confundir, não para explicar

Petraglia ou John Lennon? Quem compôs a a carta aberta do Atlético sobre torcida única?

8 recomendacões para você

 
 

mais comentadas da semana