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Kutiá: segredo compartilhado entre amigos

Eu nunca tinha provado o Kutiá até que conheci a família Halu em Curitiba… Este ano pedi que uma das filhas me mandasse a receita… A sobremesa é realmente especial e deliciosa…Minha amiga me mandou não só a receita mas também um pouquinho da história do prato:

Um segredo de família

– Mmmm! Mas que sobremesa deliciosa!
– É o kutiá que nossa tia sempre prepara para a véspera de Natal. Sobrou um pouquinho de ontem. É receita de família, típica dos ucraínos. Não conhecia? Acho que também é tradição dos poloneses. – explicou meu amigo.

Não, não conhecia, apesar de minha brasilidade ter uma pitada tanto do tempero polonês quanto do ucraíno, além da portuguesa e outras mais que não consigo traçar. Um creme docinho, os grãos de trigo para mastigar, as uvas passas, aquela “poeirinha” preta que eu não sabia o que era – as colheradas de kutiá me fizeram ficar como criança esperando na véspera de Natal pelo presente adivinhado.

Naquele Natal, desejei ganhar a receita daquela comida doce e saborosa. Não teve jeito. Já não acreditava em Papai Noel, mas, na hora em que a tia regateou, regateou e acabou guardando a receita como segredo de família, deixei de acreditar em toda a família Noel.

Isso aconteceu no século passado, nos idos dos anos 90, quando a internet havia recém-chegado em terras brasileiras. Estava ainda maravilhada com o mundo que conseguia alcançar brincando com o teclado. Foi lá que fui procurar meu presente. Procurar por: kutiá. Nada. Tinha pouca coisa ainda em português. Procurar por: recipe kutia. Achei!

Selecionei algumas receitas, adaptei de acordo com meu gosto (não sou muito fã de mel) e com o que era fácil comprar no mercado municipal e criei minha própria receita. Esperei não uma noite, mas um ano inteiro passar para retribuir a taça de kutiá que a família de meu amigo me serviu e presentear minha receita. A versão da tia continuou segredo de família.

Hoje há várias receitas disponíveis em português e páginas com informações sobre a tradição da Vigília natalina e a refeição típica que a acompanha. Da página que consultei então, e que continua online (http://www.polishworld.com/christmas), traduzo alguns trechos:

“Para os poloneses, a véspera do Natal é um tempo de reuniões em família e reconciliação. É também uma noite de magia em que, dizem, os animais podem falar e as pessoas têm o poder de prever o futuro. […] Do leste da Polônia vem a crença de que as jovens que moem sementes de papoula na véspera do Natal podem vir a se casar em pouco tempo.”

A “poeirinha” que vi naquele primeiro kutiá eram essas sementes de papoula amassadas.

“Na véspera de Natal, devia-se experimentar cada um dos 12 pratos que formavam uma ceia tradicional. Quanto mais comêssemos, mais prazer o futuro deixaria a nossa espera. Os mais corajosos à mesa escolhiam uma folha da grama ou feno que havia sido colocado sob a toalha. Uma folha verde era sinal de casamento, uma folha murcha significava que teria de esperar; uma amarelada, uma vida de solteiro e uma folha bem curta, uma vida breve.”

“Nos tempos pré-eletricidade, depois do último prato (que era o kutiá, uma mistura de grãos de trigo, passas, nozes e mel), assopravam-se velas e se observava a direção da fumaça. Se ela ia na direção da janela, a colheita seria boa; na direção da porta, um membro da família ia morrer; se ia para o fogão, um casamento.”

Os doze pratos (referência aos doze apóstolos para alguns, aos doze meses do ano para outros) variavam de região para região, mas na refeição toda não entrava carne vermelha – apenas peixe. Além do peixe, alguns dos pratos mais comuns eram sopa de cogumelo, borscht, repolho azedo com ervilhas, pierogi e compotas de frutas. E o kutiá.

A receita que passo, como disse, é minha adaptação. Há quem possa achar uma heresia trocar o mel original por leite condensado. Com certeza há quem condene como profana a inclusão de pequenas doses de bebidas alcoólicas (mesmo que seja uma Zubrówka, uma deliciosa vodka polonesa). É apenas uma versão que compartilho, mas com sabor e valor: doce, calórico e alegre.

Receita adaptada do Kutiá

Ingredientes:

200g de grãos de trigo
+/-10g de sementes de papoula
100g de nozes picadas
100g de amêndoas picadas
50g de passas embebidas em 70ml de rum/cognac
baunilha (em pó ou essência)
suco de 1/8 a ¼ de limão
1 lata de leite condensado
½ lata de creme de leite
Opcional: 2 ou 3 doses pequenas de bebida destilada (rum, whisky, gin)

Pode-se ainda adicionar avelãs ou frutas cristalizadas/secas (como figos, tâmaras).

Preparo:

Lavar os grãos de trigo e deixá-los de molho em água por cerca de 2 horas. Escorrer a água. Colocar em uma panela com água e deixar ferver por cerca de 15 minutos. Deixar esfriar por mais ½ hora e depois passar na escorredeira.

Colocar água fervente sobre as sementes de papoula, levar ao fogo e deixar levantar fervura. Apagar e deixar de molho por 1 a 2 horas. Passar por uma peneira. Espremer um pouco as sementes.

Em um recipiente, misture o leite condensado, o creme de leite, o limão, as passas com o cognac, a baunilha e o destilado (rum, gin, etc.), ajustando o creme a seu gosto. Adicione as nozes e amêndoas picadas e as sementes de papoula. Mexa bem e deixe em geladeira por 1 a 2 horas.
Espero que gostem. Feliz Natal a todos, Regina Halu

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