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10 coisas que mais odeio na escola – Parte II

No mês passado compartilhei as duas primeiras coisas que mais odeio na escola e minhas humildes sugestões. 1 – padronização e massificação de alunos, 2 – lição de casa em excesso. Parte de minhas reflexões, pesquisas e palestras sobre educação, criatividade, filhos e a Escola nos tempos atuais. Hoje segue a lista, e compartilho mais quatro coisas que odeio na escola.

 

3 – A madrugada

Por que crianças e jovens devem acordar às 6h da manhã para estar na escola às 7h ou 7h30, quando nem mesmo a indústria mais pesada obriga funcionários a iniciar seu trabalho antes das 8h da manhã? Por que?  Simplesmente não entendo essa obsessão pela madrugada. Ao ver crianças  e adolescentes caminhando iguais a zumbis às 7h da manha para as Escolas me lembro rapidamente da imagem do clipe do Pink Floyd com sua marcante “The wall” onde crianças caminham enfileiradas para uma fábrica e diretamente jogadas em um forno. Um amigo, diretor de escola, confessou que recentemente fez uma enquete com pais de alunos, pois sugeriu que as aulas começassem às 8h da manhã e não mais às 7h30. Mas disse que a maioria rejeitou a proposta. E alguns ainda confessaram pessoalmente que o motivo era porque acreditavam que os filhos teriam que ter disciplina de acordar às 6h da manhã como eles também tiveram no tempo deles de escolas. Fica a pergunta a esses pais: Será que hoje todos eles acordam às 6h da manhã necessariamente e religiosamente todos os dias?

 

Solução

Por que não iniciar às 8h ou 8h30? E terminar 12h30 e se for preciso às 13h. Será que seria tão difícil para a rotina dos pais? Não sei, mas na rotina dos filhos poderia significar melhoria de aprendizagem, qualidade de vida e de sono. Chegam em sala de aula com sono, desinteressadas e vão despertando aos poucos lá pelas 8h30. Uma médica amiga minha, especialista em adolescentes, me disse que dos 11 aos 17 anos a capacidade de aprendizagem e atenção de um jovem é baixo nas primeiras horas da manhã até aproximadamente 9h. E neurocientistas já comprovaram que o sono é crucial no desenvolvimento cognitivo e aprendizagem de crianças e não apenas importante para seu crescimento e saúde.

 

4 – Professor que se acha (autoritário)

Não entendo, desde o meu tempo de escola, a figura do professor lá na frente da sala de aula com rosto sisudo e pouco tolerante aos seus alunos. Que se coloca como único dono da verdade, não permite a comunicação com o aluno, não admite o erro como parte do aprendizado e pune crianças e jovens pelas mais ridículas razões. Respeito ao professor, sim sempre, mas também ao aluno. Autoridade na dose certa, sim, mas poder exagerado em qualquer dose é inaceitável. Como aceitar nos dias de hoje um professor que não permite que uma criança vá ao banheiro na hora que for preciso, apenas com o argumento de que é preciso esperar até o final da aula? Onde está o exercício de autonomia, de delegar responsabilidade e de principalmente estabelecer laços de confiança com os alunos? Guarda pó, autoritarismo e imposição de superioridade não combina com relações humanas saudáveis e criativas.  Já dizia José Pacheco: muitas vezes o problema não está na aprendizagem do aluno, e sim na “ensinagem” do professor. O professor que não sabe identificar meios de estabelecer canais de comunicação e aprendizagem verdadeiros com todos os alunos em todas as suas diferenças e particularidades não deveria exercer tão nobre papel de educador em uma escola.

 

Solução

Ainda acho que o professor é o principal elemento de transformação da educação, mesmo em tempos de inteligência artificial e tecnologia. Ele pode ser o verdadeiro motor da inovação em sala de aula se estiver disposto a sair do palco e se colocar diante dos seus alunos abertamente. Ou o bloqueador da criatividade e do aprendizado caso se mantenha no papel de ditador em sala de aula que evita o relacionamento, não escuta e não interage. Tenho visto escolas com propostas arquitetônicas incríveis e com discursos inovadores ajustados aos tempos atuais, porém no final das contas a partir do momento em que um professor fecha a porta da sala de aula, está nas mãos dele o poder de estimular ou bloquear as habilidades de seus alunos. Por isso apesar de sua indiscutível importância e seu direito a autonomia no trabalho, é preciso que o professor passe por constantes avaliações para que  entenda seu papel e se adapte também às novas realidades, exigências e necessidades para o estudante atual. Novas técnicas, habilidades e práticas educacionais devem ser constantemente transmitidas aos professores para que possam aplicar em sala de aula. E treinamentos específicos como comunicação interpessoal, criatividade,  metodologias e psicologia na educação devem ser compartilhados. Mas no final das contas, cabe a ele, professor, aceitar o novo e mudar seu comportamento e atitudes para se comunicar verdadeiramente com seus alunos.

 

5 – Recreio de 20 min

Pergunte a qualquer criança, qual o seu momento preferido na escola? E responderá: recreiooooooo. Mas só dura 20 min, e elas nesse tempo ainda tem que engolir rapidamente o lanche pra terem ainda 10 min de brincadeira e risadas no pátio. Pronto acabou, hora de voltar pra sala de aula.  É no recreio que compartilham, brincam, fantasiam, conversam, trocam, jogam jogo de mãos, correm, pulam, se sujam e são felizes. E aí…, de repente um sinal irritante bate e todas voltam correndo para suas salas, ficando aquele gostinho de quero mais. 5h de aula, e só 20 min de recreio? Por que? Acho que deveriam fazer um abaixo assinado exigindo mais tempo para o recreio ou dois tempos de recreio. Muitas das melhores ideias, risadas e inclusive aprendizados acontecem no encontro e confronto de crianças na hora do pátio. Mas pra piorar escolas ainda colocam inspetores que ditam regras o tempo todo para que as crianças não subam ali, não fiquem aqui, não pisem na grama, não corram, não pulem, não subam em árvores. Seria mais fácil dizer o que pode fazer?

 

Solução

Recreio de no mínimo 40 min. Tempo menor que uma aula de matemática, de história ou português. E o tempo onde os alunos aprendem juntos, descobrindo, explorando, conversando e resolvendo conflitos por conta própria. É o tempo da colaboração, do fazer junto, do jogar junto. É o momento de maior ebulição criativa na escola, de longe. Ou que tal a proposta de dois recreios de 25 min cada, assim o que criarem e fizerem no primeiro recreio fica quase como uma deixa para o segundo. Outra solução, caso não seja possível aumentar tanto o horário do recreio por conta do denso conteúdo escolar, porque então as próprias aulas não podem sair da sala de aula e utilizar o espaço externo? Aulas se tornam um pouco recreio se forem desenvolvidas de maneira criativa, interativa, envolvendo trabalho de grupo e desafios. Aulas recreios podem ser extremamente ricas e o aluno voltará para casa contando que sua aula de matemática foi no meio do pátio. Não é legal?

 

6 – Aulas fragmentadas e chatas

Não faz nenhum sentido essa fragmentação das áreas de conhecimento como ainda vemos na escola tradicional. 50min matemática, depois 50 min de português, 50 min de história e por aí vai. Que mundo é esse? Que falta de conexão e propósito é esse? A interdisciplinariedade é algo já longamente discutido e porém pouco praticado nas escolas. Enquanto isso o mundo está conectado em diversas redes e as empresas exigem cada vez mais conexões e trabalho colaborativo entre pessoas de diferentes perfis, habilidades e idades. Tá, tudo bem, eu sei, como falei na introdução, as escolas são avessas a mudanças e inovações muito bruscas. Mas é inaceitável que professores e escolas continuem a “treinar” crianças para pensarem como se as áreas de conhecimento fossem completamente desconexas e chatas, quando poderiam ser interligadas e empolgantes. Já percebeu quantas vezes seu filho ou sobrinho respondeu àquela famosa pergunta do adulto: Como foi a aula hoje? E a maioria diz: Chaaaata. Sim, as aulas em sua maioria são chatas, com exceção de algumas dadas justamente por aqueles professores que não se contentam com o mesmo.

 

Solução

Já disse que toda criança e jovem adora um desafio. O jovem precisa da “transgressão”, do desafio e do novo. A criança precisa do encantamento e da novidade, ou da surpresa. Professores devem preparar suas aulas como se fossem capítulos de seriados ou desafios em um filme. Ouvi um dia da diretora da escola de minha filha mais velha, Sandra Cornelsen o seguinte sobre professores e aulas: “Há aulas que são fáceis de dar, mais difíceis de aprender para muitos. Mas há aulas difíceis de dar, mas fáceis de aprender para a maioria. Por que aquela aula preparada com criatividade, desafio e encantamento será provavelmente absorvida por muitos, mas aquela aula padrozinada em que o professor já a aplica há anos repetidamente, provavelmente será absorvida pela minoria. Saber usar e aplicar conteúdos de maneira inovadora é possível sim, mas dói e dá trabalho, claro.  É preciso que as escolas exijam um trabalho de cooperação entre professores para que conectem seus conteúdos eventualmente para que os estudantes entendam desde cedo que na vida real os conhecimentos se intercalam e fazem muito mais sentido quando colocados em confronto com o outro. Um desafio pode ser criado misturando conteúdos de história e língua portuguesa. Outro pode ser criado entre o professor de matemática e de educação física. Outro entre a professora de artes e o de geografia. A responsabilidade das escolas em mostrar essa conexão se torna cada vez maior, e por isso depende muito de sua exigência e trabalho conjunto com os professores. Um mundo extremamente veloz e mutante, onde empregos desaparecem, e habilidades específicas não mais serão suficientes para que esses estudantes possam sobreviver no futuro. Se estas habilidades não estiverem ligadas a outras tantas, não apenas as tradicionais mas também às soft skills como comunicação, controle emocional, curiosidade, adaptação, liderança e cooperação, estaremos condenando jovens a viverem no passado.

 

No próximo mês você confere mais razões que me fazem acreditar que é preciso de mudanças no modelo escolar atual e quais são minhas singelas propostas para mudar isso.

 

 

*Artigo escrito por Jean Sigel, especialista em Marketing, Comunicação e Inovação, e co-fundador da Escola de Criatividade. O profissional colabora voluntariamente com o Instituto GRPCOM no blog Educação e Mídia.

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