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Sobre agressividade, violência e Educação

Luciano Mendes/ Gazeta do Povo

Qualquer pessoa que esteja razoavelmente atenta aos noticiários ficará muito aflita com as manifestações da chamada violência escolar. Recentemente oi veiculada uma reportagem com cenas sérias, que mostram agressão física grave entre adolescentes e professores. Não podemos esquecer, contudo, o óbvio: entre a realidade e aquilo que aparece na televisão existe um recorte.

Tomei conhecimento desta reportagem na Audiência Pública realizada na Câmara dos Vereadores de Curitiba, no dia 27/05. Mais um indício de que existe uma preocupação conjunta acerca da questão. Intitulada “Reféns da Violência Escolar”, logo de entrada o presidente da mesa transmitiu as cenas acima descritas. O curioso é que de vários modos os ditos ‘reféns’ são entendidos como apenas os professores. Das figuras que ocuparam a Tribuna nesta discussão, as falas que geraram maior entusiasmo da plateia, ao que me pareceu, foram as que compactuaram com esta visão. Gostaria de propor brevemente outra forma de olhar, que talvez nos ajude a agir de modo educativo e a produzir uma convivência melhor nas escolas e na sociedade em que vivemos.

Agora cabe perguntar: o que é um indivíduo moral e ético? Por oposição aos monstros que espancam seus professores, é aquele desprovido de qualquer atitude agressiva? Certamente esta seria uma maneira muito reducionista de interpretar a pergunta. Freud falava que temos uma pulsão amorosa (Eros) e uma pulsão agressiva ou de morte (Tânatos). Ambas precisam ser controladas, pelas vias da educação e da cultura, para que possamos viver uns com os outros. Dessa perspectiva, é necessária uma renúncia para que se estabeleçam comportamentos adequados para a coletividade, salvando-nos todos das nossas próprias paixões.

Quando experimentamos uma profunda desestruturação das relações de autoridade entre crianças, jovens e adultos devemos admitir – embora muitas vezes nosso instinto seja negar – que são as vias da educação e da cultura que precisam ser transformadas. Ou seja, miramos numa determinada direção e hoje colhemos os resultados. Só que não nos reconhecemos no espelho que são os mais jovens, os espelhos da educação e da cultura.

Afinal, como crianças e adolescentes aprendem condutas e comportamentos? Há um ditado que diz que as palavras comovem, mas os exemplos arrastam. Essa frase é simples, parece apenas um jargão bobo, mas resume bem algo que nos doemos em admitir: se crianças e adolescentes se mostram refratários ao controle saudável da sua agressividade é porque não têm oportunidades realmente educativas para o fazerem. É porque não vivenciam cotidianamente os adultos, que são suas referências morais. Vamos pensar no caso do trânsito: ataques constantes entre motoristas, xingamentos, falta de gentileza, extremo egoísmo e desejo de vingança. Essas atitudes são esperadas de crianças pequenas, que ainda não sabem se controlar, mas não deveriam ser atitudes corriqueiras de adultos – ainda mais se forem pais ou professores.

Toda demanda que se pretende educativa tem eficácia maior quando vence a prova da coerência entre o discurso e a ação. Isso é capaz de produzir um sentimento de estabilidade na criança e facilita o processo pelo qual ela precisa internalizar regras e normas. Tornar-se um ser moral – já que essa passagem é realmente difícil e exige de nós uma renúncia. Tomando essa coerência como base de tudo que fazemos como pais e educadores, teremos certamente um resultado melhor naquilo que esperamos dos menores.

Se desejamos reverter o quadro geral da violência hoje, precisamos começar a perceber como nós somos de alguma forma co-autores da mesma. Em Educação não existem respostas simples e instantâneas: apenas uma reflexão profunda sobre as múltiplas causas do sentimento de desintegração nas relações humanas poderá oferecer a real possibilidade de vivermos melhor. Como sempre, o caminho mais difícil é o caminho certo e isso é, aliás, falar sobre moralidade.

*Artigo escrito pela equipe do Instituto Não-Violência

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