A “Patética” de Tchaikovsky é um bilhete suicida? Nova gravação reforça o mito - Falando de Música
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A “Patética” de Tchaikovsky é um bilhete suicida? Nova gravação reforça o mito

Tchaikovsky na época de sua morte
Tchaikovsky na época de sua morte

A Sinfonia Nº 6 de Tchaikovsky, batizada pelo irmão do compositor como “Patética”, é uma das obras mais enigmáticas do repertório sinfônico. Estreada alguns dias antes da misteriosa morte do compositor, fez com que muita especulação a respeito da ligação entre a obra e a morte de seu autor fosse vista quase que como um bilhete suicida. O aspecto tétrico da partitura, pelo menos no primeiro e último movimentos, reforça esta tese.  A estrutura da obra já parece anunciar algum tipo de mensagem, pois é a única sinfonia escrita no século XIX que termina em pianíssimo com um andamento lento. Muitos indícios: uma introdução lenta nos instrumentos mais graves da orquestra, a citação de um canto de morte da Igreja Ortodoxa em meio ao desenvolvimento do movimento inicial, toques de um gongo (Tam-Tam) no movimento final. Há quem veja que o desespero do compositor em lidar com sua sexualidade (ele era homossexual) fazem com que a escrita enigmática dos violinos no início do último movimento fosse uma espécie de mensagem cifrada, já que o escrito não é o que soa. Seria uma dissimulação? A dúvida que persiste até hoje sobre a morte do compositor, que oficialmente morreu de cólera, mas que teria se contaminado por vontade própria ou por pressão de um grupo de nobres irritados com uma relação intima do compositor com um jovem de uma família influente, permanece não resolvida até hoje. Em relação à estreia da Sinfonia “Patética”, regida pelo próprio compositor, que teria ficado de cabeça baixa no final da obra, que aliás não foi bem recebida, existe algo que reforça ainda mais este sentido autobiográfico da partitura. Muito da popularidade da belíssima obra repousa no lírico segundo tema do primeiro movimento e na pompa exterior do penúltimo movimento, sem dúvida nenhuma um lance genial, pois uma página tão brilhante, por acentuado contraste, potencializa o drama com que a sinfonia termina.

O polêmico maestro Teodor Currentzis

Nova e polêmica gravação

Na segunda metade deste ano foi lançada uma nova gravação da obra lançada pelo selo Sony Classical com a orquestra MusicAeterna regida por Teodor Currentzis. O maestro Teodor Currentzis, nascido na Grécia e com formação musical russa, vem demonstrando um talento inquestionável aliado a uma ousadia incomum entre os maestros de sua geração. Nascido em 1972 é desde 2011 diretor musical do Teatro de ópera e Ballet da cidade russa de Perm. Lá ele desenvolveu um grupo musical que pratica desde a música renascentista até a música contemporânea e que foi batizado genericamente de MusicAeterna. Os músicos do teatro de Perm realizam a parte orquestral deste grupo. Não há dúvida que um dos maiores feitos do maestro é tornar conhecida mundialmente a excelente produção musical de um teatro russo de província . Suas gravações de obras de Stravinsky (Sagração da primavera e Les Noces) e de Mozart (Don Giovanni, Bodas de Fígaro) são notáveis. Na última sinfonia de Tchaikovsky Currentzis se utilizou, além de uma execução refinada e visceral, de recursos técnicos de gravação para realizar coisas impraticáveis numa execução real: as dinâmicas idealizadas por Tchaikovsky de “pppppp” confrontando com um “fff” na parte central do primeiro movimento é a utilização mais evidente desta tecnologia. Trompas com efeito “bouché”, pouco sonoras, ficam claramente audíveis (e tétricas) no final da obra e os tímidos fagotes ganham sonoridade de trompas. Neste aspecto Currentzis divide as glórias (e as eventuais críticas negativas) com Damien Quintard, o responsável pela engenharia de som.

Mravinsky, grande intérprete da obra

A “Patética” de Tchaikovsky já teve leituras muito excêntricas, como a do americano Leonard Bernstein que nos últimos anos a dirigiu de forma inusitadamente lenta numa execução que dura quase uma hora. Por mais que admire certos aspectos de Currentzis, mesmo com o aparato tecnológico ele não supera Evgeny Mravinsky e a Filarmônica de Leningrado. A gravação de Mravinsky, realizada em 1960, não necessitou de tecnologia para tornar este “bilhete suicida” tão comovente e emocionante. No entanto, ignorar a forte personalidade artística de Currentzis seria injusto. Na minha visão ele é o maestro mais interessante que apareceu no cenário musical ultimamente. Mesmo a Orquestra de Perm não sendo uma Filarmônica de Viena ou de Berlim soa, graças a ele, como uma orquestra de primeiríssima qualidade. Em resumo: uma execução marcante.

 

Vídeos:

Currentzis em ação I:

Currentzis em ação  II:

 

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