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“Isso é uma orgia, não uma missa” – A Missa Glagolítica de Janáček

São Cirilo e São Metódio, que teriam criado o alfabeto glagolítico
São Cirilo e São Metódio, que teriam criado o alfabeto glagolítico

A frase “isso é uma orgia, não uma missa” é do famoso novelista tcheco Milan Kundera (cujo pai trabalhou com o compositor) a respeito da Missa Glagolítica do compositor também tcheco Leoš Janáček (1854-1928). Esta fantástica obra foi escrita no final da vida do compositor, entre 1926 e 1927. Uma das obras dele que é marcada por dois fatos que estimularam muito o autor em seus últimos anos: a independência de seu país do Império Austro Húngaro em 1918 e sua fortíssima paixão por Kamila Stösslová, uma mulher casada e bem mais nova que nunca compartilhou este sentimento, mas sempre manteve com ele uma profunda amizade. Para Leoš Janáček a reciprocidade não tinha a menor importância: o que realmente era importante, para ele, era ser capaz de amar. A carreira de compositor de Janáček foi muito peculiar. Nascido na região da Morávia na metade do século XIX foi um humilde professor provinciano por pelo menos 50 anos. Compunha de maneira tímida até quando se fez notar por sua ópera Jenůfa em 1904. É a partir desta obra que sua linguagem típica se afirma, e cada vez mais ousado, o compositor vai se tornar figura de destaque entre os vanguardistas do início do século XX, sobretudo em suas últimas composições: a ópera “Da casa dos mortos” (baseada em Dostoievski), a Sinfonieta, os dois Quartetos de Cordas, o Concertino para piano e conjunto de câmera e essa monumental Missa Glagolítica.

Porquê Missa Glagolítica

O compositor Leoš Janáček em foto de 1920

O texto usado por Janáček em sua missa não é em latim, mas sim em eslavônio, um idioma próprio para cerimonias religiosas, utilizado nos países eslavos. Esse idioma foi originalmente escrito em alfabeto Glagolítico, um alfabeto criado supostamente por São Cirilo e São Metódio na idade média. Janáček, que não era religioso, era um entusiasta do “pan-eslavismo”, e valorizava muito mais as línguas eslavas do que as germânicas, por isso sua opção na obra não só é a de valorizar um idioma eslavo antigo, mas também as características arrebatadas da fé de seu povo. Neste aspecto Kundera tem razão em sua visão da obra, pois há tanta música dançante, efusiva, quase histérica, que estamos bem distantes de uma maneira circunspecta de se pontuar musicalmente a cerimônia da missa. A participação constante do órgão na obra cumpre o papel de dar um ar mais sacro, mas é, sobretudo no solo de órgão, penúltimo movimento da obra, que temos as mais claras evidências do modernismo do autor.  O aspecto mais telúrico da obra é perceptível no uso ostensivo dos tímpanos, dos metais e dos violinos em tessituras altíssimas. Tudo soa novo, original, moderno. A fanfarra inicial já nos transporta para um universo místico, o tilintar de sinos do “Gloria” (Slava) e o Amém (Amin) tonitruante do tenor solista e do coro no final do movimento são de franca exaltação. O soprano solista parece a personificação de um anjo guerreiro, e o Baixo parece mesmo ser um sacerdote de uma igreja ortodoxa. A beleza das harmonias parece reservarem belas surpresas a cada instante. Estamos realmente diante da mais importante versão musical de uma missa do século XX.

 

Várias versões

Kamila Stösslova, a musa do compositor

 

A Missa Glagolítica foi composta em 1926, e estreada na cidade de Brno, capital da Morávia, no final deste ano. Muitos trechos da obra foram escritos originalmente de forma muito experimental, com polirritmias complexas com usos inabituais de instrumentos distantes da orquestra e o trecho da missa que descreve a crucificação de Jesus solicitava originalmente três grupos de tímpanos. Para uma orquestra provinciana como a de Brno Janáček simplificou algumas coisas: aparou a polirritmia, mudou consideravelmente a música do “Crucifixus” passando toda a selvageria dos tímpanos para harmonias insólitas no órgão. No ano seguinte a obra foi executada em Praga, e foi retocada mais uma vez. Por fim, para a publicação na Editora Universal de Viena, em 1929, Janáček fez os últimos retoques, É nesta versão que, por quase 45 anos a obra foi executada. Foi no final do século passado que o musicólogo inglês Paul Wingfield resgatou a primeira redação da missa, incluindo o trecho orquestral final sendo executado também no início da obra, os polirítmos , os três grupos de tímpanos no momento da crucificação e alguns compassos omitidos no Sanctus (Svet). Esta versão foi defendida por maestros da estatura de Pierre Boulez e Charles Mackerras. Em 2012 o musicólogo tcheco Jiri Zahradka resgatou as modificações realizadas na apresentação em Praga em 1927. Resultado: hoje em dia é possível escolher três versões diferentes da obra. Mas fiquem tranquilos: em qualquer das versões estamos diante de uma obra prima. Para melhor comparar as três versões sugiro conhecer as gravações de Kubelik para a versão standard, a de Mackerras para a versão original e recém lançada de Jiří Bělohlávek  para a da estreia em Praga. Comecei o texto citando Milan Kundera e termino me referindo ao pai do escritor, Ludvík Kundera, um pianista e musicólogo que faleceu em 1971. Ele, que ajudou nos ensaios para a estréia da obra, escreveu numa crônica em 1927 que a obra era “escrita por um velho homem religioso”. Janáček respondeu de forma enfática: “Não sou nem velho nem religioso “.

 

A versão original da Missa Glagolítica

 

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