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Comandante do Exército abriu brecha para interpretações

O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, conseguiu unir esquerda e direita na interpretação de que estaria dando o sinal para o início do golpe (ou intervenção, dependendo do matiz ideológico do intérprete) contra a concessão de liberdade a Lula. Se ele quis dizer isso, não usou todas a letras, deixando o entendimento na cabeça do leitor.

Há muita gente que apoiaria uma “intervenção” militar como solução definitiva para o país. E muita gente que vive na paranoia de que as Forças Armadas estão prontas para tomar o poder a qualquer momento. Declarações de militares em eventos e redes sociais reforçam essas duas visões sobre a possibilidade de eles voltarem ao poder.

Na terça-feira (3) mesmo o general reserva Luiz Gonzaga Schroeder Lessa falou que o STF poderia se tornar o indutor da violência e que poderia ensejar uma intervenção militar. Não são poucas as vozes nas Forças Armadas, especialmente na reserva, que endossam esse discurso, que reforça o medo de quem acredita que isso realmente possa acontecer.

Ao se manifestar na véspera do julgamento do habeas corpus pedido pelo ex-presidente Lula ao STF, o general Villas Bôas incendiou essas duas correntes, de apoio e receio. Afinal, há muitas entrelinhas nos poucos caracteres dos dois tuítes do general. Ele começa com uma pergunta: quem está pensando no bem do país? E na mensagem seguinte diz que o Exército compartilha o anseio de todos “os cidadãos de bem” no repúdio à impunidade e respeito à Constituição. E arremata dizendo que o Exército está atento às suas missões institucionais.

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Fica subentendido que o Exército está pensando no bem do país, e que esse bem só é possível com o repúdio à impunidade e o respeito à Constituição. O general deixa claro que quem pode falar pelo Exército é ele e parece dar dois recados: ele entende que o STF pode estar criando um precedente de impunidade ruim para o país, mas ao mesmo tempo garante que o Exército manterá sua missão institucional. Se você acredita que essa missão inclui impedir um político condenado de assumir a Presidência, está armada a bomba da intervenção. Se você acredita que a missão é outra, mas é assim compreendida nas Forças Armadas, está armado o golpe.

As entrevistas recentes do general, no entanto, levam a uma interpretação diferente. Nos últimos meses, ele falou várias vezes sobre a Lava Jato. Ele entende que a operação é importante para o país e que a punição dos envolvidos é o caminho mais saudável. “O que pode acontecer se a Lava-Jato atingir a todos indiscriminadamente? Que seja. Esse é o preço que tem que se pagar. Esperamos que tenha um efeito educativo”, disse o militar em entrevista ao Valor em fevereiro.

Esse apoio à Lava Jato não inclui o uso do “braço forte” para fazer cumprir a lei e punir os envolvidos. Villas Bôas disse que não é possível fazer um paralelo com o país em 1964 e que a saída para o Brasil virá das eleições deste ano. “No entendimento que temos, e que talvez essa seja a diferença em relação a 1964, é que o país tem instituições funcionando”, disse na mesma entrevista. Para ele, o sistema de pesos e contrapesos, que inclui a pressão social, Ministério Público e Judiciário, é que deve dar conta da crise política, não as Forças Armadas.

Em outra entrevista, para a Folha de S. Paulo em julho do ano passado, o general falou mais sobre eleições: “É preciso que a crise que estamos vivendo provoque uma mudança no debate político para 2018. É necessário discutir questões que possibilitem preparar um projeto de nação, decidir que país se quer ter e aonde se pretende chegar.”

O discurso do general é de respeito às regras, manutenção da democracia e do processo eleitoral como saída para os impasses do país. Não é uma visão política neutra, mas sim uma posição ativa que o comandante do Exército reafirmou na véspera do julgamento de Lula para marcar posição – contra, inclusive, quem defende a “intervenção” no caso do ex-presidente conseguir seu habeas corpus.

O recado pode ser bem diferente do que esquerda e direita entenderam: não estamos em 1964 e a sociedade vai ter de se mobilizar se não quiser a impunidade como solução para a crise política.

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