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Cinco momentos em que o naturalismo deu tilt

o matemático austríaco Kurt Gödel
O Teorema de Gödel é apontado como um desafio à noção materialista segundo a qual a mente humana é mera máquina. (Foto: Reprodução)

Vejo, no site Strange Notions, um texto sobre um livro de Stephen Barr publicado em 2003, Modern Physics and Ancient Faith. O autor do texto, Brandon Voigt, mostra que, segundo Barr, não existe exatamente um conflito entre ciência e fé, mas entre ciência e naturalismo, a ideia de que o mundo natural é tudo o que há, e que essa ideia moldou toda a narrativa sobre o universo desde a Revolução Científica até o início do século passado. Mas foi justamente no momento em que essa narrativa naturalista parecia ter finalmente triunfado que começaram a aparecer rachaduras no dique do naturalismo, e Voigt enumera cinco desses momentos decisivos.

o matemático austríaco Kurt Gödel

O Teorema de Gödel é apontado como um desafio à noção materialista segundo a qual a mente humana é mera máquina. (Foto: Reprodução)

Quatro desses momentos são descobertas específicas, como o caso do Big Bang, que desafiou a noção de um universo eterno, conveniente para os naturalistas por (na mente deles) dispensar um criador. Ou, então, a emergência das questões relacionadas ao princípio antrópico e ao “ajuste fino” que permitiu o surgimento da vida na Terra. Ou, ainda, o surgimento da Mecânica Quântica, que desafiou o determinismo absoluto na Física, por sua vez derrubando poderosos argumentos contra a existência do livre arbítrio (não é que a Mecânica Quântica prove o livre arbítrio; o que ela faz é, ao contestar o determinismo, destrói também as alegações deterministas a respeito). Por fim, Voigt lista o Teorema de Gödel, que desafiaria o conceito naturalista da mente humana como mera máquina. Já o último item da lista não seria um momento propriamente dito, mas um processo, que deriva da própria busca pelas leis que regem o mundo natural e da descoberta de que essas leis são parte de um todo muito mais intrincado, o que leva a perguntas muito mais profundas não sobre o comportamento desta ou daquela substância, mas do universo como um todo.

A lista parece interessante, mas às vezes parece tirar conclusões apressadas. Como quando Voigt escreve que “o próprio Big Bang prova a doutrina judaico-cristã da criação”. O padre Georges Lemaître ficaria alarmado ao ler isso, pois ele mesmo teve de dar umas aulinhas de Física ao papa Pio XII quando este, entusiasmado com a teoria do Big Bang, também viu nela a prova de um Deus criador, uma ideia que o papa Francisco repetiria décadas depois. Afinal, como sabemos, o Big Bang não é necessariamente o início do universo, mas deste universo. Pode ter havido outro universo “antes” do nosso (sei que o “antes” aqui é meio complicado, entendam como força de expressão), ou pode haver outros universos simultaneamente ao nosso. Não é o Big Bang que exige um criador, mas o próprio fato de existir algo em vez do nada (o que leva ao “twist #2” da lista de Voigt).

Isso tudo me lembra que está na minha estante o Where the conflict really lies, do Alvin Plantinga, que parece ser uma análise ainda mais aprofundada desse antagonismo entre religião e a visão naturalista do mundo.

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