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E se a Arqueologia contradiz a Bíblia?

Meu sobrinho fez quatro anos no dia 26. Quando estive nos Estados Unidos, trouxe para ele, da loja do Metropolitan, um kit de arqueologia – uma pirâmde oca, que você abre para tirar lá de dentro um sarcófago e urnas em que os egípcios costumavam guardar os órgãos dos mortos. Tem até óculos e ferramentas, tipo para polir os objetos encontrados, já que o interior da pirâmide está cheio de areia.

Coincidentemente, no dia seguinte ao aniversário do meu sobrinho, o arqueólogo (entre outras coisas) Robert Cargill publicou um texto sobre a conciliação entre achados arqueológicos e a Bíblia. De fato, quando alguém vem nos dizer “a ciência leva as pessoas a perderem a fé”, costumamos pensar em Física, Química, Biologia, Astronomia… mas não em Arqueologia; pelo menos não em um primeiro momento.

Pelo que se depreende da sua biografia, Cargill também é uma pessoa religiosa (sim, ele escreve “deus” em minúsculas, mas reparem que ele não usa maiúscula em nenhuma ocasião). Em seu texto sobre Arqueologia e fé, ele explica que, diante de achados arqueológicos que parecem contradizer a Bíblia, existem duas posições básicas que o cientista pode tomar: se agarrar a uma suposta inerrância da Bíblia e buscar “metologias alternativas” para explicar o que se descobriu, ou concluir que talvez aquele trecho bíblico não deva ser tratado de forma literal e buscar novas, ainda que ortodoxas, interpretações. Cargill diz que muitos estudantes escolhem a primeira opção – a mais desastrosa, porque acaba estragando tanto a ciência quanto a religião.

Divulgação/Sony Pictures
Cargill diz que não devemos procurar o Santo Graal. Tem razão: melhor deixar para esses caras fazerem o serviço.

Isso nos lembra um pouco alguns assuntos que já discutimos aqui. Quando falei sobre o caso Galileu, recordei um texto de São Roberto Belarmino, cardeal inquisidor. Na carta a Foscarini, o santo diz que “se houvesse uma verdadeira demonstração de que o Sol está no centro do mundo (…) então seria preciso ir com muita consideração em explicar as Escrituras que parecem contrárias, e antes dizer que não as entendemos do que dizer que é falso o que se demonstra” (o negrito é meu). Belarmino está aqui aplicando à Astronomia um raciocínio que podemos muito bem abrir para outras ciências. O que o cardeal diz é que, havendo evidência científica forte que contradiga a Bíblia, não se pode desprezar essa evidência: o mais provável é que ainda não tenhamos chegado à melhor interpretação do texto bíblico.

E, quando resenhei uma biografia do bem-aventurado Nicolau Steno, contei que muitas pessoas encaravam a existência de conchas no alto de montanhas como evidência de um dilúvio universal. Steno ofereceu outra hipótese, muito mais consistente, e hoje aponta-se para um evento mais local. Aqui sim a Arqueologia tem muito a dizer, e um dos seis conselhos de Cargill ao jovem arqueólogo que não deseja perder sua fé é justamente não procurar por achados revolucionários que mais parecem saídos dos filmes do Indiana Jones.

A primeira dica é talvez a mais importante: ainda que um texto bíblico não possa ser lido literalmente por causa de uma descoberta arqueológica, esse texto ainda diz muito sobre seu autor e a mensagem que ele queria passar, e nem por isso se deve concluir que outras partes da Escritura não possam estar literalmente corretas. E o terceiro conselho também é fundamental: se os “grandes artefatos bíblicos” (como a Arca da Aliança) são provavelmente impossíveis de achar, outros objetos muito menores, muito menos espetaculares, podem revelar muita coisa. “Cuide de todo objeto com respeito”, diz Cargill. Acima de tudo, respeito pela verdade, eu acrescentaria.

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