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Ian Hutchinson, professor do MIT: “É prejudicial mostrar a ciência com um poder que, na realidade, ela não tem”

Não me perguntem por que eu demorei tanto para publicar essa entrevista, porque eu realmente não sei. A história é a seguinte: em julho do ano passado, como vocês lembram, estive em Cambridge para um curso do Instituto Faraday para Ciência e Religião. A primeiríssima aula foi de Ian Hutchinson, professor de Engenharia e Ciência Nuclear no Massachusetts Institute of Technology (MIT, localizado em outra Cambridge); ele falou do cientificismo e deu uma palhinha do livro que tinha acabado de lançar, Monopolizing Knowledge. Já no fim do curso, fiz com ele uma entrevista curtinha, que ficou adormecida no meu computador, shame on me, até eu me lembrar dela recentemente. Resolvi transcrever, traduzir e publicar antes que o mundo acabe. Falamos um pouquinho mais sobre o cientificismo, mas também sobre o erro contrário, o fundamentalismo religioso. Confiram aí:


Ian Hutchinson, do MIT, um cientista contra o cientificismo. (Foto: Divulgação)

Em sua aula, a série CSI foi citada para fazer uma analogia ao pensamento cientificista, segundo o qual a ciência é o único meio de se resolver tudo. De que outros modos o cientificismo chega à opinião publica?

O CSI é um jeito de mostrar como a ciência é poderosa; o problema ocorre quando ela é mostrada com um poder que, na realidade, não tem. A ficção cientifica seria um outro caso, mas o exemplo que eu daria é um pouco diferente. Não sei como é no Brasil, mas nos jornais norte-americanos existe uma tendência de organizar pesquisas de opinião sobre certos temas ou polêmicas, o que leva a pensar que essas pesquisas são a maneira certa de decidir a resposta para uma questão. Isso é uma maneira de o cientificismo se manifestar: uma necessidade constante de ter parâmetros mensuráveis, quantificáveis, jeitos de investigar o mundo. Em muitas questões isso é difícil, e o jeito que encontraram para contornar o problema é perguntar a 500 pessoas qual é sua opinião, e isso triunfa sobre a discussão filosófica e a análise cuidadosa. Este é um exemplo de uma necessidade que temos de transformar tudo em termos com os quais estamos familiarizados em ciência; como muitas vezes esses termos são quantitativos, há uma tendência a tratar todas as questões sob essa ótica.

Outra observação sua foi de que muitas áreas nas humanidades acabam dimunuídas porque não são mensuráveis. Outros campos, como a religião, também sofrem com a alegação de que a ciência pode resolver tudo. No dia a dia, que outros conhecimentos e visões de mundo são afetados pelo cientificismo?

Muitas disciplinas têm sido afetadas pelo cientificismo. A História é um exemplo imteressante, porque na virada do século 19 para o século 20 havia uma moda entre historiadores, que falavam em transformar seu campo de estudo em ciência e encontrar “leis da História”. Marx foi um exemplo de alguém que queria achar leis na História, mas até mesmo pessoas sem militâncias ideológicas, historiadores profissionais, pensaram que podiam descobrir leis na História que seriam tão certas quanto a gravidade. Essa tendência diminuiu hoje, porque as pessoas finalmente perceberam a pobreza dessa abordagem.

Esse processo pelo qual a História passou nos dá esperança e encorajamento de que as pessoas tenham uma abordagem mais racional e frutífera daqui em diante, mas repare que ainda falamos de Ciências Sociais, Ciência Política, e parte da razão pela qual ainda usamos esses termos é uma tendência de pensar que, se algo é conhecimento de valor, tem de vir da ciência. De uma certa forma, ainda existe uma influência do cientificismo. Como físico, não posso julgar meus colegas de outras disciplinas e não quero fazer isso, mas penso que, olhando a certa distância, percebe-se uma distorção do que é considerado conhecimento real nesses campos e nos programas dessas disciplinas; podemos ver o cientificismo em ação aí.

Qual o perigo, para a pessoa comum, de pensar em termos cientificistas, mesmo sem saber?

Há muitos perigos; o primeiro é pensar que os cientistas sabem o que é correto e, por isso, concluir que qualquer coisa que o cientista diga, então, está certo. Isso não é verdade; os cientistas sabem muito sobre o mundo e a natureza, sabem como o universo se comporta naquilo que a ciência pode apreender, mas eles vêm extrapolando e dando opinião sobre assuntos que estão fora de seu campo de conhecimento, nem sempre deixando claro que se trata de mera opinião: às vezes eles jogam nessas opiniões seu peso como cientistas, mas quase nunca as afirmações têm base em descobertas científicas. É importante ser cético quando um cientista fala sobre religião, filosofia, política ou sobre como a sociedade devia ser organizada, porque nisso o cientista não tem nenhuma vantagem em termos de conhecimento; a opinião dele vale tanto quanto a de qualquer outra pessoa. Há, portanto, o perigo de superestimar a credibilidade do que os cientistas dizem para além de seu campo. Não quero dar uma visão negativa de ciência; ela é incrivelmente poderosa, eu sou cientista e sei que os cientistas realmente sabem muito, mas o problema é extrapolar as coisas de forma ilegítima, e por isso precisamos ser cuidadosos, tanto os que falam quanto os que ouvem.

Além disso, o cientificismo per se leva a uma ênfase exagerada na tecnologia. Esse é outro perigo: frequentemente (e inconscientemente) as pessoas passam a crer que, se existe um problema com a sociedade ou com os indivíduos, o que precisamos fazer é buscar a solução tecnológica. Essa é uma consequência do cientificismo: uma dependência exagerada da tecnologia ao ponto de ela adquirir vida própria. Basta ver como as pessoas falam da tecnologia, chegando ao ponto de pensar que, se algo é tecnologicamente viável, esse algo vai ser feito e, ainda pior, deveria ser feito. Isso não é verdade; há ótimas razões para, diante de uma certa tecnologia, recuar e dizer “não” por causa das suas consequências. Há situações em que a tecnologia não é a resposta. Acho que muitos desafios que nós, como indivíduos e sociedade, enfrentamos não podem ser resolvidos pela tecnologia, mas pela adoção de novas configurações sociais, pela ênfase na virtude e não na tecnologia.

Em sua aula ouvimos que o oposto do cientificismo é o fundamentalismo religioso. Como, então, evitar esses dois extremos?

Quando estou falando para pessoas que são religiosas, digo que os cristãos são chamados a adorar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de toda a força e de toda a mente; isso inclui respeitar o intelecto e reconhecer quando Deus nos chama a responder mais com a mente que com o coração. A tendência do fundamentalista é pensar “bem, temos as Escrituras, temos nossa experiência com Deus, e isso basta para que eu entenda tudo” – e isso acontece com o cientificista também, só troque as Escrituras e a experiência com Deus pelos dados científicos –, mas todos precisamos de um pouco mais de humildade. O cientificista, para entender que o cientista não tem a resposta para tudo, que a ciência não é o único conhecimento que existe; e os cristãos, para entender que não conhecemos totalmente os planos de Deus e não entendemos totalmente as Escrituras. Humildade ajuda a manter uma posição mais balanceada.

(Aviso: o blogueiro viajou para o curso em Cambridge graças a uma bolsa do Instituto Faraday)

Tubo de Ensaio no rádio


O blogueiro e o pastor Felipe Ferro: um papo descontraído e interessante sobre ciência e religião no rádio. (Foto: Cristina Cezar Campos)

Hoje cedo participei do programa Celebrando a Vida, na rádio Sara Brasil FM Curitiba, apresentado pelo Jones Mendes Lima, com a presença do pastor Felipe Ferro. Foi um papo muito interessante e produtivo, falamos um pouco sobre teoria da evolução, a importância de saber pelo menos um pouco sobre ciência, personalidades históricas que foram grandes cientistas e homens de fé, e sobre como ciência e fé se auxiliam mutuamente. Teríamos abordado muitos outros temas se o tempo deixasse, mas as duas horas de programa voaram. Por isso, já aceitei o convite para retornar ao programa no futuro. Queria deixar registrado o agradecimento ao pastor Felipe e ao bispo Robson Rodovalho, que recomendou o meu nome para a participação de hoje.

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