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Vanderlei Bagnato, físico e membro da Pontifícia Academia de Ciências: “A forma séria de lidar com os acadêmicos mostra o respeito que a Igreja oferece às ciências e aos cientistas”

Desde novembro, o Brasil tem dois membros na Pontifícia Academia de Ciências. Naquele mês, o físico Vanderlei Salvador Bagnato, do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo, se juntou ao órgão vaticano que já contava com o neurocientista Miguel Nicolelis. “Sou católico, mas isso não é a parte mais importante. Antes de mais nada, sou um cientista que está comprometido com a verdade das coisas que nos rodeiam”, afirma Bagnato, que se mostra entusiasmado com o que já viu em seu primeiro evento como membro da Academia e está animado com futuras colaborações. O físico concedeu entrevista por e-mail ao Tubo de Ensaio há algumas semanas, antes ainda do anúncio da renúncia de Bento XVI.


Vanderlei Bagnato é membro da Pontifícia Academia de Ciências desde novembro do ano passado. (Foto: Assessoria de Comunicação IFSC/USP)

Como o senhor avalia essa nomeação dentro do panorama mais amplo de sua carreira como cientista?
Como cientista, sempre queremos estar entre nossos pares para discutir, aprender mais e vislumbrar novas e excitantes possibilidades. Ser eleito membro da Academia do Vaticano é uma dessas oportunidades. Nesse caso em especial, pelo elenco que compõe a Academia, cria-se um espaço quase que único para essas discussões. Eu considero esse um dos pontos elevados de minha carreira. Ser reconhecido como uma fonte legítima a contribuir para uma academia tão importante é uma honra para mim e um grande reconhecimento ao meu trabalho.

O senhor participou da plenária da Academia sobre “Complexidade e Analogia na Ciência”. Que impressões o senhor teve do evento, do nível dos debates e do trabalho da Academia como um todo?
Primeiro, deixe-me dizer que o Vaticano como um todo causou um impressão muito boa em mim. A forma séria de lidar com os acadêmicos, o tratmento especial dispensado, o carinho etc. mostram o respeito que a Igreja oferece às ciências e aos cientistas. Depois, há a seriedade com que os temas são discutidos. Numa única sala tivemos palestras de oito prêmios Nobel em diferentes áreas sobre o mesmo tema. Deu para ter uma visão clara do panorama desse tópico. Finalmente, o discurso feito por Bento XVI sobre o tema mostra o grau de profundidade com que o assunto está sendo visto pela Igreja, além de seu grande interesse. O nível dos debates foi o mais alto que já presenciei. Acho que terei momentos muito bons como membro dessa Academia. Já estou pensando na próxima reunião.

O senhor também teve a oportunidade de ouvir e encontrar [o agora papa emérito] Bento XVI. O que o senhor teria a dizer sobre a maneira como ele encara a relação entre ciência e fé? O senhor destacaria algum trecho do discurso que ele fez no encerramento da plenária?
Os momentos de conversa com o papa serviu para me mostrar a resposabiliade que temos como braisleiros. Quando ele disse que o Brasil tem responsabilidades com o mundo que vão além da economia, acho que ele deixou claro o quanto todos acreditam no Brasil e, em especial, nos brasileiros. Achei suas posições com relação à ciência muito maduras e despreocupadas de qualquer outra interpretação. O papa me pareceu interessado e compromissado com a verdade dos fatos científicos, sem fantasias. Agora, o mais imporntate de tudo é a credibilidade que as ciências vêm ganhando como elemento de integração dos povos e nações. Ciências não causam guerra, cientistas não causam guerra, e além disso eles podem ajudar a evitá-las…


O nível de profissionalismo na Pontifícia Academia de Ciências impressionou o físico da USP. (Assessoria de Comunicação IFSC/USP)

Antes da indicação, o senhor já conhecia o trabalho da Pontifícia Academia de Ciências?
Sendo a mais antiga Academia do mundo, com Galileu em seu início, e com grandes imortais da ciências modernas, como Pauli, Heisenberg e Bohr, dentre outros, sempre ouvimos notícias sobre ela. Mas tornando-me parte dela é que pude ver em seus arquivos e instalações o quanto de história e contribuições ela apresenta. Acho que vou aprender muito frequentando a Academia.

O seu trabalho tem uma vertente social e também de difusão da ciência. O senhor considera que isso foi relevante para sua indicação à Academia? Que outros aspectos o senhor acredita terem sido levados em consideração?
Não sei dizer especificamente os pontos que foram relevantes. Mas estou convencido de que é interesse de todos que as ciências sejam algo de grande valor social. A ciência e os cientistas têm de estar comprometidos com a verdade científica e com o uso do conhecimento em prol do homem. Nesse sentido, acho que a forma com que venho conduzindo minhas atividades deve ter tido, sim, importância na escolha. Para mim, a relevância social da ciência está em local de destaque no valor que dou às coisas que faço. Por outro lado, tornar público o conhecimento científico é uma obrigação de todo homem de ciência. Somos pagos, na maioria das vezes, com recursos públicos. É, portanto, importante que todos tenham acesso aos nossos conhecimentos.

Como o senhor imagina a sua colaboração com a Pontifícia Academia de Ciências ao longo dos próximos anos?
Já estou propondo tópicos a serem discutidos, e com o passar do tempo pretendo estar bastnate envolvido com as discussões e ações conjuntas da Academia com o resto do mundo.

Como o senhor vê a relação entre ciência e religião atualmente? O que poderia ou deveria mudar ou ser melhorado?
Não vejo conflito. A ciência estuda as leis da matéria, enquanto a religião procura estabelecer as bases do espírito. Isso, para mim, cria uma forma elegante de não haver conflitos.

Sua participação na Pontifícia Academia de Ciências faz do senhor uma voz mais relevante sobre a relação entre ciência e fé. O senhor pretende tomar parte nesse debate de forma mais ativa?
A minha posição quanto a isso já é bem estabelecida. Sou um homem de fé, pois isso me torna um pouco melhor no meu relacionamento com os outros. Tenho em mim a convicção de que o homem precisa de momentos especiais de reflexão, e nesse aspecto ter um pouco de fé pode ajudar muito. Como disse, atuo nas descobertas das leis da matéria; tudo aquilo que extrapola a matéria pertence ao outro lado, em que a religião pode ajudar. Como poderia eu ser contrário a uma proposta que só procura o bem? Viver melhor e ser digno de sua existência… Há certas cosias em que a discussão não cabe. Por exemplo, toda vez que tentamos explicar a fé com ciências nos atropelamos e vice-versa. Acho que sou feliz separando essas partes.

A relação entre ciência e fé é um tema que aparece, ainda que ocasionalmente, em seu ambiente de trabalho? Em caso positivo, como o tema é tratado pelos seus colegas? Eles veem uma oposição intrínseca entre ciência e religião, ou tendem a acreditar em uma colaboração possível entre esses dois campos?
Eu procuro nunca entrar em debate sobre isso. Respeito a crença ou descrença de todos e espero ser respeitado pelas minhas convicções. Há sempre colegas que julgam além de seu próprio talento, fazendo comentários maldosos e indevidos. Há aqueles que, sem saber por quê, assumem que ciência e fé são incompatíveis. Isso me parece apenas um equívoco. Muitos, talvez a maior parte, de nossos grandes cientistas tiveram fé e fizeram a ciência existente, como Einstein, Newton e tantos outros. Acho que a sabedoria, nesse caso, é não procurar os conflitos, mas aquilo que cada parte nos fornece de bom. Entender a natureza para melhorar nossa existência é uma tarefa da ciência, e isso não deve conflitar com as coisas que vão além da matéria.

Saindo um pouco do tema “ciência e religião”, como o senhor vê o estado atual da divulgação científica no Brasil? Como estimular ainda mais o interesse do brasileiro pelo tema, seja para ampliar a cultura geral, seja para incentivar jovens a abraçar a carreira científica?
Temos um longo trabalho pela frente. A tarefa é de todos e em todos os lugares. Temos de alimentar nosso povo com conhecimento científico, não para serem cientistas, mas para não serem ignorantes. Temos de convencer a todos que só através do conhecimento a sociedade se torna mais justa e melhor. Também é importante desmistificar a ideia de que os países grandes só investem em ciência porque já são grandes. Na verdade, essas nações só chegaram a ser grandes justamente porque investem em ciência.

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