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Não só Chardonnay e Pinot Noir: Aligoté é a outra uva da Borgonha

Aligoté foi deixada de lado porque pouco lucrativa, mas alguns produtores ainda cultivam essa casta que dá vinhos brancos muito gastronômicos

por Eric Asimov, New York Times Publicado em 24/07/2017 às 18h
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Marsannay, França – Em uma adega apertada, instalada sob um pátio, nesta pequena cidade no extremo norte da Borgonha, Sylvain Pataille pegou uma amostra de um vinho branco de 2016 de um velho barril e encheu nossos copos.

O vinho era jovem e um pouco nublado, mas sua energia e amplitude já eram evidentes, com sabores cítricos, de ervas e, acima de tudo, uma mineralidade penetrante e pedregosa. Era delicioso. “Eu adoro a expressão precisa de terroir da Aligoté“, disse Pataille.Embora seja mais conhecido por seu excepcional tinto de Marsannay, Pataille começou a explorar o potencial da Aligoté, a terceira uva da Borgonha, quase esquecida. Os grandes tintos e brancos da região, feitos com Pinot Noir e Chardonnay, estão entre os vinhos mais cobiçados e caros do mundo, mas e a Aligoté?

Poucas uvas foram tão desprezadas nos últimos 50 anos. Ela é frequentemente descrita como fraca, ácida e insípida, boa apenas para servir de base para o kir, quando o vinho branco é aromatizado com licor de cassis. Nos últimos dois anos, experimentei tantos Aligotés deliciosos que vim para a Borgonha para tentar entender por que os vinhos não eram mais apreciados.

Vergisson e os vinhedos da Borgonha

A Borgonha é famosa pelo Chardonnay e Pinot Noir, mas outra casta, a Aligoté, tenta ganhar espaço. Foto: Bigstock.

Desde 2013, Pataille vem engarrafando cuvées separados da Aligoté, plantada em alguns dos seus melhores terrenos, para demonstrar como ela pode transmitir bem o caráter do local. “A Aligoté expressa o terroir quase mais que a Chardonnay“, disse ele.

Muitos dos nomes mais reverenciados da Borgonha, incluindo propriedades famosas como Leroy e Coche-Dury, Roulot e Ramonet, Lafarge e d’Angerville, de Villaine e Ponsot, insistem em plantar a Aligoté.

Por quê? Porque quando as uvas são cultivadas de forma conscienciosa e os vinhos são feitos com precisão, eles podem ser deliciosos e característicos, cheios de energia e mineralidade, que são as características do Aligoté.

O produto acompanha muito bem a comida. É um vinho ótimo com mariscos e outros frutos do mar, e Pataille disse que vai muito bem com frango em molhos cremosos. “É um vinho de dar água na boca”, disse Frédéric Lafarge, cuja família, mais conhecida por seu soberbo Volnays, produz o Aligoté há gerações. Ele o chama de “vinho local, muito característico da Borgonha“.

Jean-Marc Roulot, famoso por seu Meursault, cultiva a Aligoté na planície, que mantém mesmo podendo ganhar mais dinheiro se cultivasse a Chardonnay. As vinhas foram plantadas há décadas por seu avô. “Nem penso em fazer outra coisa. Essa uva está em todas as histórias da família”, disse Roulot.

Ele as cultiva organicamente e faz o mesmo trabalho no vinhedo que usa para seu melhor Meursault, mas o tratamento diverge na adega, onde ele fermenta e envelhece o Aligoté em tanques de aço, em vez de madeira de carvalho, o que preserva o frescor, ao invés de encorajar a complexidade.

“É simples, mas tem que refletir a propriedade. Não quero que seja um vinho pretensioso, todo cheio de nove-horas. Era um vinho para a família e o trabalhador. Talvez eu esteja preso a velhos hábitos, mas um vinho simples é um vinho simples, e não há vergonha nisso”, disse Roulot.

O potencial do Aligoté pode ser negligenciado até mesmo por quem o fabrica. A Borgonha venera a ideia de que o bom vinho é a expressão do lugar e da cultura que o produziu e essa noção é comunicada no rótulo de cada garrafa de vinho Borgonha que leva Pinot Noir ou Chardonnay.

No caso de um vinho de aldeia, você não vai encontrar o nome da uva nem o lugar onde elas foram cultivadas – Gevrey-Chambertin ou Chassagne-Montrachet, por exemplo. Para um premier cru, um pouco acima da média, o nome de vinhedo pode ser mencionado; para um grand cru, o ápice da hierarquia do terroir, apenas o nome do vinhedo já é suficiente, como La Tâche ou Musigny.

Mas quando o sistema de denominação Borgonha foi criado, em 1936, a Aligoté foi considerada incapaz de expressar as características do lugar. Os vinhos que usam essa uva são genericamente rotulados de Bourgogne Aligoté. Como resultado, ela foi confinada a terroirs menores, com as melhores terras recebendo a Chardonnay ou a Pinot Noir, mais lucrativas. “Os melhores terroirs para a Aligoté são os melhores terroirs, ou seja, nas encostas e de calcário”, disse Pataille.

Há duas exceções à regra genérica de denominação: uma é a pequena área na encosta acima do vinhedo grand cru Clos de la Roche, em Morey-St.-Denis. A Domaine Ponsot cuida dessa área há mais de um século, e a Aligoté de lá é a única que tem o direito de ser chamada de premier cru.

O vinho, o Clos des Monts Luisants de Ponsot, custa cerca de US$ 125 a garrafa, muito mais do que qualquer outro da categoria. O de 2014 teve a energia e a linearidade típicas, mas com profundidade e ressonância inesperada.

A outra exceção é a uva cultivada em Bouzeron, uma aldeia fora do centro da Borgonha, na Côte Chalonnaise. Lá, em 1971, Aubert de Villaine, o codiretor da Domaine de la Romanée-Conti, e sua esposa, Pamela, estabeleceram sua propriedade familiar, a Domaine A&P de Villaine. Desde 1979, Bouzeron tem sido a única denominação onde os vinhos Aligoté podem usar o nome do lugar, em vez do da uva.

“É o único lugar onde os vignerons não ouviram o chamado da Chardonnay. Somente em Bouzeron a Aligoté continua a ocupar os melhores terrenos nas encostas“, disse Pierre de Benoist, sobrinho de Aubert de Villaine, dono da propriedade.

Segundo Benoist, manter as melhores cepas da Aligoté também é importante. Grande parte dessa uva plantada na Borgonha é a vigorosa Aligoté vert, que produz quantidade em vez de qualidade. Só a Aligoté doré, como insistem muitos, pode produzir bons vinhos. Em um esforço para preservar a melhor cepa, de Benoist criou uma organização para conservá-la.

Mesmo com seus vários cuvées, Pataille faz apenas pequenas quantidades de vinhos. “Ninguém na França entende a Aligoté. Ninguém se importa”, disse ele. Isso pode valer para todo mundo, menos para os vinicultores, que se preocupam profundamente.

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