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Café Haiti fecha as portas após 48 anos no calçadão da XV

Comandado por Elias e Maria Albertina Massabki, lanchonete encerra as atividades nesta quarta-feira (7/02)

por Bruna Bill, especial para a Gazeta do Povo Publicado em 05/02/2018 às 15h
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Desde 1970, muita gente que passa pelo calçadão da Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba, não resiste a uma parada no Café Haiti para saborear as esfihas caseiras, tomar um mate batido feito na hora. Logo na entrada, você só precisa cumprimentar o dono, seu Elias Massabki, 87 anos, que fica no caixa, sentar no balcão e fazer o pedido. Você será instantaneamente atraído para as esfihas, feitas pela esposa de Elias, dona Maria Albertina, 79 anos. Antes de sair, o pagamento é feito em dinheiro e vai para a máquina registradora, que é mais antiga que o próprio café. Além de guardar as notas e moedas, a máquina também é o mural de seu Elias, com diversos papéis com números de telefones de fornecedores, parentes e outras informações importantes.

Localizado na entrada da Galeria Lustoza, o café é um dos pontos mais tradicionais do centro de Curitiba. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo.

Localizado na entrada da Galeria Lustoza, o café é um dos pontos mais tradicionais do centro de Curitiba. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo.

Se você pretende fazer um lanche no Café Haiti, que é um dos mais tradicionais cafés da cidade, e conhecer esse simpático casal, corra, pois a lanchonete irá fechar as portas nesta quarta-feira, dia 7 de fevereiro, após 48 anos de funcionamento. “Estamos com idade avançada para trabalhar tanto. Já não temos a mesmo disposição ou entusiasmo, então decidimos que era a hora da aposentadoria definitiva”, diz seu Elias. O imóvel próprio, que fica na entrada da Galeria Lustoza, está aguardando um locatário. Segundo o dono, o locatário não precisa continuar o negócio do café, só precisa pagar o aluguel de R$ 18 mil por 2 pavimentos, além do café. “Mas eu preciso ter confiança na pessoa, de que ela irá conseguir manter o lugar, pois é um dos pontos mais movimentados aqui do centro”, explica.

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O movimento é intenso. As portas abrem às 7h e os pedidos de cafezinho (coado) e pão de queijo se acumulam. Um suco de laranja, uma esfiha. Notas e moedas vão circulando na caixa registradora de seu Elias, com cliente fieis que certamente se sentirão órfãos. “O dia que falta esfiha, mate ou pão de queijo, os clientes reclamam. Agora muitos já disseram que não tem mais lugar para tomar café aqui no centro. Eu digo que às 6h30 o café já está pronto lá na minha casa”, brinca dona Albertina, que chega no café todos os dias antes das 7h para abrir as massas de esfiha e orientar as funcionárias. “Estamos fechando aqui para descansar mesmo, porque o que não falta é trabalho e movimento”, finaliza.

  • Clientes aproveitam para registrar os últimos momentos do café. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo
  • Maria Albertina Massabki prepara e abre a massa das esfihas. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo.
  • O café funciona à moda antiga e não aceita nenhum tipo de cartão. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo.
  • A máquina registradora é mais antiga que o café e funciona como um mural para seu Elias. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo
  • O movimento é intenso desde as primeiras horas da manhã. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo
  • O mate gelado batido com limão é um dos destaques do café. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo.
  • O ponto é um dos mais tradicionais da rua XV de Novembro, no centro de Curitiba. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo.
  • Dona Albertina também prepara a massa de pizza e o molho caseiro de tomate. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo.
  • Elias Massabki e Maria Albertina Massabki, casados há 60 anos, trabalham e administram juntos o Café Haiti há 48 anos. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo.
  • Localizado na entrada da Galeria Lustoza, o café é um dos pontos mais tradicionais do centro de Curitiba. Crédito: Daniel Caron/Gazeta do Povo.

Seu Elias e dona Albertina se casaram em Andirá, interior do estado, em 1958 e têm três filhos e cinco netos. “Todos já estão criados e tudo que conseguimos dar para nossa família veio daqui do café, é uma história de muito orgulho”, conta Elias. Dos filhos, dois são dentistas, um é médico e apenas um deles mora em Curitiba. “Eles nunca quiseram continuar com esse negócio, então fomos tocando nós mesmos. Só que chega uma idade em que não damos mais conta”.

Quando veio para Curitiba, em 1969, Elias era dono de um posto de gasolina no bairro Bacacheri. “As coisas aconteceram sem muitos planos. Eu nunca esperava ter um café como esse”, conta ao relembrar a oportunidade que o fez comprar o ponto. “Eu estava passando aqui na rua quando ainda passavam carros, já era um lanchonete. No início, o dono ficou um pouco desconfiado de mim, mas fechamos negócio. Depois de fazer algumas reformas, eu percebi como era bom o movimento e fui me relacionando com as pessoas, fazendo amizades”.

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Dona Albertina se orgulha de ter clientes fiéis que frequentam o café desde o dia em que abriu até hoje. “Fui muito feliz aqui, tenho certeza disso, construímos nossa vida aqui, criamos nossa família. Agora é o momento de descansar e inventar outra coisa para fazer”, brinca a professora aposentada. Ela também relembra o início do Café Haiti, quando chegava às 5h30 da manhã para fazer as massas e recheios das esfihas. Às 12h ela ia para o colégio onde era professora primária e às 17h voltava para o café para adiantar o preparo dos salgados para o dia seguinte, saindo dali só às 22h.

Então se você é um apaixonado pela história gastronômica de Curitiba, que resiste nos cafés e galerias do centro da cidade, não perca a oportunidade de ir ao Café Haiti e saborear todas as delícias. Peça a esfiha, o mate batido e o pão de queijo. Aproveite para trocar algumas palavras com este casal que, junto com o fechamento da lanchonete, levará com eles muita tradição, amizades e histórias para contar.

Serviço

Rua XV de Novembro, 556 – Centro, Curitiba.

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