Bebidas

Tradição do Parque Barigui: “vai um caldo de cana”?

Dona Léia e a família trabalham em um carrinho no estacionamento do parque, em frente ao Museu do Automóvel

por Mariana Domakoski, especial para a Gazeta do Povo Publicado em 05/02/2017 às 09h
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Quem vai ao Parque Barigui e passa pelo estacionamento que fica em frente ao Museu do Automóvel, na Av. Cândido Hartmann, já deve ter visto. Se São Pedro ajuda e não manda chuva, lá está Dona Léia com seu carrinho de caldo de cana, acompanhada do filho, do genro e da sobrinha. O líquido delicioso atrai atletas, passeadores de cachorro, crianças, idosos, de todos os cantos da cidade e do mundo – enquanto o Bom Gourmet esteve por lá, turistas foram comprar o caldo, vendido em copos de 300 ml ou 500 ml e em garrafas de 500 ml ou 1 litro, nos sabores abacaxi, gengibre ou limão – o carro chefe. Além do caldo, água de coco.

Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

O genro de Léia, Silvano Bertolino, a sobrinha, Rosa Carneiro, e o filho Marcos Vinicius Santana (da esquerda para a direita) trabalham com Léia no carrinho de caldo de cana. Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

David Braun aproveita para tomar o caldo de cana da Léia. Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

Dona Léia, como é conhecida Léia Machado, mata a sede do pessoal do parque há mais de 25 anos. Com 60 anos, tem disposição de menina. Catarinense de Lages, veio aos 18 anos para Curitiba com três dos seis irmãos, para tentar uma vida melhor. Desde 1991 está no ponto do parque. O caldo de cana chegou para ela alguns anos antes disso, quando precisou sair do banco em que trabalhava para cuidar da filha Carla, que iria nascer. “Precisava encontrar um trabalho que me desse mais tempo, para ficar com ela”, lembra. Com um ex-marido, abriu uma pequena panificadora em casa, que não deu certo. “Dela, só sobrou uma kombi, que vendemos para começar um novo negócio”. Era de caldo de cana.

O começo foi difícil, como todo negócio. “Eu não entendia nada de caldo de cana. E a mudança foi bem radical: saí de um emprego de escritório, em que passava o dia no ar condicionado, para um que é ao ar livre”. Mas ela tirou isso de letra e, como a prática é amiga da perfeição, com o tempo Léia domou a primeira máquina de moer cana que teve – movida à gasolina e que exigia força braçal para dar a partida.

Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

No início, Léia não entendia nada de caldo de cana. Mas, com o tempo, foi aprimorando suas técnicas e hoje tem segredos para entregar um caldo bem feito. Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

Entre os segredos do caldo, o filho Marcos Vinicius Santana, 18 anos, revela alguns: peneirar bem para não haver resquícios de fiapos e colocar o gelo de uma forma especial, para não ficar aguado. Tanto esmero garante uma boa clientela: de 80 a 100 clientes por dia, diz ela. E muitos são fiéis há tempos. É o caso do funcionário público Reynolds Lopes, de 43 anos, que nem lembra mais da primeira vez que provou o caldo de cana de Léia. Ele e a mulher, a administradora de empresas Elisângela Silva, de 35 anos, levam o filho de 12 anos desde que era pequeno. “Tomava na mamadeira”, lembram. E garantem que vão levar a filha mais nova, que vai nascer agora neste mês.

Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

Reynolds Lopes e Elisângela Silva são clientes fiéis e levam o filho de 12 anos desde pequeno para tomar caldo de cana da Dona Léia. Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

Sempre que o fisioterapeuta Lucas de Macedo, 35, e a head hunter Luciane Rosa, 35, trazem Nina, de 9 meses (no chão) e Floki, de 1 ano e meio (no colo) para passear no parque, aproveitam para tomar o caldo de cana de Léia. Foto: Mariana Domakoski/Arquivo

Dia a dia

No verão, todos os dias o fornecedor de cana-de-açúcar descarrega no carrinho de três a quatro feixes, cada um com cerca de 30 Kg. No inverno, essa quantidade cai para um e meio a dois feixes. Aí é a hora de avaliar, ver o que está bom e descartar o que não está.

Entre as maiores dificuldades do trabalho, Léia aponta o fato de ser refém do clima. E, como Curitiba muitas vezes engana, fica ainda mais complicado. “Às vezes, a previsão é de sol. Pedimos cana para atender várias pessoas e, de repente, chove. Não conseguimos vender tudo. Ou o contrário: vemos que vai chover no fim da tarde, fazemos metade do pedido e faz sol. Aí não temos produto para atender a clientela”, explica.

Muitos nem sabem, mas Léia passou por um mau bocado. Há sete anos, adoeceu. Câncer de mama. O tratamento acabava com boa parte de suas forças e, por isso, não conseguia aparecer para o batente. Quando ia, estava mais magra e usava chapéu. “Tinha gente que não me reconhecia. Pensava que era outra pessoa”. Com o tratamento, muita força e a ajuda da família e amigos, venceu essa. “Você precisa das pessoas para te apoiarem”, reflete. E ela também agradece o trabalho com o caldo de cana. “Mantinha minha cabeça ocupada, evitava que eu pensasse besteira”.

SERVIÇO: O carrinho de caldo de cana da Dona Léia depende do clima da cidade (se chove, eles não ficam no parque, chegam mais tarde ou vão embora mais cedo). Mas, se o tempo colabora, o horário funcionamento é todos os dias, das 10 horas às 21 horas no horário de verão e das 10 horas às 18 horas no horário normal. Aceitam pagamentos em dinheiro e em cartão de débito e crédito de todas as bandeiras.

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