Bebidas

Denominação de Origem

Espécie de “champagne nacional” está prestes a nascer na Serra Gaúcha

Inspirados na região de Champagne, na França, a cidade gaúcha de Pinto Bandeira deve ser a primeira área fora da Europa com essa certificação

por Anderson Hartmann, de Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha, especial para a Gazeta do Povo Publicado em 12/02/2019 às 19h
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Champagne é o mais famoso vinho espumante produzido pelo método tradicional no mundo. O seu nome provém da região homônima, situada no Norte da França. Trata-se de uma grife, geralmente associada a grandes marcas, à qualidade excepcional, a muito valor agregado e a uma explosão de sabores em nossas papilas gustativas.

Inspirados neste sucesso, produtores de Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha, querem fazer valer as características únicas de seu terroir com cerca de 82 quilômetros quadrados – ideais para a produção de espumantes de alta qualidade – e devem conquistar nos próximos meses o título de primeira Denominação de Origem (DO) de espumantes do método tradicional do Novo Mundo.

Espera-se que ainda no primeiro semestre seja criada a DO Altos de Pinto Bandeira. Na prática, essa chancela atua como uma espécie de selo de qualidade que garante que a bebida é feita a partir de uma série de normas, tal qual ocorre na França.

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Vinhos de Pinto Bandeira. Foto: Anderson Hartmann/Gazeta do Povo

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o produto da futura DO Altos de Pinto Bandeira é o espumante fino, elaborado com uvas das variedades Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico (esta variedade com um limite de 25%) cultivadas em espaldeira na região.

Os espumantes finos da Denominação de Origem devem cumprir diversos requisitos, incluindo: ser elaborados exclusivamente pelo método tradicional (segunda fermentação na garrafa); prensagem realizada exclusivamente com uvas não desengaçadas; com tempo mínimo superior a 12 meses para o período que vai da tirage (colocação do licor de tiragem) até o dégorgement (eliminação dos sedimentos de leveduras – líes, depositados no bico da garrafa); apresentar padrões físico-químicos diferenciados; ter a tipicidade comprovada por degustação dos espumantes finos realizada às cegas. Farão parte do selo apenas os espumantes dos tipo Nature, Extra Brut ou Brut, conforme a graduação de açúcar.

De acordo com o produtor Daniel Panizzi, da Don Giovanni, uma das vinícolas que está encabeçando o projeto, o objetivo do selo é padronizar, certificar e garantir a procedência, qualidade e processo de elaboração do produto: “A Denominação de Origem é um norte para novos produtores, com a valorização da sua uva, seguindo os critérios estabelecidos no regulamento de uso. O produto, o qual seguirá processos bem definidos, apresentará ao consumidor uma garantia de procedência e elaboração. Tudo isso irá refletir, consequentemente, na valorização do produto. Ou seja, todo mundo sai ganhando”, diz.

Daniel Panizzi, da Don Giovanni. Foto: Anderson Hartmann/Gazeta do Povo

Apenas cinco regiões vinícolas do Brasil possuem indicação geográfica, certificação concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e criada para conferir reputação, valor e identidade a um produto. São quatro com a Indicação de Procedência (IP), que demarca a origem das uvas e da produção: Altos Montes, Farroupilha, Monte Belo, Pinto Bandeira (todas no Rio Grande do Sul) e Vale das Uvas Goethe (em Santa Catarina). O Vale dos Vinhedos é o único com Denominação de Origem no Brasil – o que assegura padrões até para a identidade visual de seus vinhos. A Campanha Gaúcha, o Vale do São Francisco (Bahia e Pernambuco), e Região do Planalto Catarinense (Santa Catarina) estão com processos em andamento para conseguir a IP.

Em Pinto Bandeira, além da Don Giovanni, outras três vinícolas estão à frente da campanha pela DO: Aurora, Valmarino e Cave Geisse. Como a indicação será restritiva, quem quiser entrar, terá de se adaptar às normas e ao padrão de qualidade da região: “Historicamente, identificamos que independentemente de quantidades, o equilíbrio entre acidez e açúcar, necessários para a produção de um espumante de excelente qualidade, sempre são atingidos aqui no nosso terroir. Garantindo assim, ano após ano, um produto com características diferenciadas”, assegura o diretor da Don Giovanni.

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A Região Vitivinícola

Foto: Anderson Hartmann/Gazeta do Povo

Pinto Bandeira é uma Indicação de Procedência (IP) de vinhos finos tranquilos e espumantes, reconhecida pelo INPI em 2010. Situada no contexto da Serra Gaúcha, esta origem – em particular a área dos Altos de Pinto Bandeira e entorno, onde as altitudes chegam a mais de 700m, tem ganhado projeção ao longo dos anos na produção de espumantes finos de alta qualidade. De fato, o terroir vitivinícola da região possui identidade própria na combinação dos fatores naturais (relevo, clima, solos), com o saber-fazer dos produtores de uva e de espumantes finos deste território.

A Estruturação da IG

A estruturação da Denominação de Origem (DO) Altos de Pinto Bandeira está sendo desenvolvida em um projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação executado pela Embrapa Uva e Vinho com a participação da Embrapa Clima Temperado, Universidade de Caxias do Sul (UCS) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O setor vitivinícola da região é representado pela Associação dos Produtores de Vinho de Pinto Bandeira (Asprovinho).

Linha do tempo

2001 – Criação da Associação dos Produtores de Vinho de Pinto Bandeira.
2010 – Reconhecimento da IP Pinto Bandeira, de vinhos finos tranquilos e espumantes pelo INPI.
2014 – A Asprovinho encaminha demanda à Embrapa Uva e Vinho para a estruturação de uma Denominação de Origem (DO) para espumantes finos na região.
2016 – Tem início o projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) para a estruturação da Denominação de Origem para os espumantes finos da região dos Altos de Pinto Bandeira (projeto em andamento, com finalização prevista para 2019).

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