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Coleta seletiva de óleo em restaurantes evita danos ao meio ambiente

Campanha Óleo Não Se Mistura, da Abrasel, foi lançada visando a conscientização e ampliação do número de restaurantes que dão destino correto ao óleo de cozinha

por Patrícia Dorfman, especial para o Bom Gourmet Publicado em 16/07/2019 às 18h
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Óleo de cozinha tem cor de ouro. Brilhante, faz os apreciadores de comidas mais substanciosas terem água na boca quando o prato traz uma fritura bem feita. Para garantir os preparos, seja nos restaurantes e bares ou mesmo nas cozinhas caseiras, são produzidos no Brasil nove bilhões de litros de óleos vegetais por ano. Porém menos de 1% dessa produção é descartada de forma correta.

A quase totalidade do produto, depois de utilizado, é despejada no ralo da pia ou nas bocas de lobo pelas ruas. O resultado é uma série de danos ao meio ambiente. Segundo dados da Sanepar, são gastos mensalmente R$ 318 mil com processos de desobstrução e limpeza para retirada da gordura da rede e nas estações, bem como tratamento do esgoto. São realizados cerca de 1.200 serviços por mês para esses fins.

Óleo não se mistura

Só 1% do total do óleo utilizado nas cozinhas tem destino correto. Foto: Shutterstock

Mas o óleo utilizado no preparo dos alimentos pode ter uma destinação mais nobre e realmente se transformar em ouro, deixando de poluir as águas. Em junho, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Paraná (Abrasel-PR) assinou um programa de parceria com o Instituto Lixo e Cidadania (Ilix).

O objetivo é sensibilizar proprietários de bares e restaurantes em Curitiba e Região Metropolitana para que passem a fazer o descarte correto do óleo utilizado em suas cozinhas. Dessa forma, será possível reverter essa matéria-prima para beneficiar catadores e catadoras de materiais recicláveis, elevando a renda dessas famílias.

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A coleta correta do óleo será destinada ao projeto Bioeco Cataparaná, do Ilix. “Participamos de uma chamada da Fundação do Banco do Brasil e do BNDES e fomos aprovados para reaplicação do projeto Bioeco. Estamos no processo de levantamento dos custos efetivos da usina de refino e de aprovação da campanha de sensibilização ‘Óleo Não Se Mistura’, da agência Social Ideias. Iremos usar a campanha para, junto com a Abrasel, conquistar restaurantes e bares de Curitiba como nossos parceiros”, explica Rejane Paredes, coordenadora do projeto e assessora do Instituto.

Segundo dados do Ilix, o consumo por pessoa de óleos no Brasil é de 20 litros por ano. “Temos quase dois milhões de habitantes em Curitiba, o que nos leva a uma previsão de consumo/mês de três milhões de litros de óleos. Nossa meta é, nos três primeiros meses do programa, coletar 50 mil litros de óleo, passando depois a 90 mil. Em cinco anos, queremos que o projeto tenha coletado e beneficiado cerca de 6,5 milhões de litros de óleo.”

No que o óleo se transforma?

Biotech retira galões de óleo de cozinha em recipientes adequados e transforma em biodiesel. Foto: Divulgação.

Depois de coletado, o destino mais interessante do óleo é para produção de biodiesel. Luiz Eduardo Coelho Hauer, diretor da Biotech, uma empresa curitibana que atua no mercado de coleta de óleo desde 2013, avalia que a demanda do mercado é promissora. “A tendência é de crescimento do consumo de óleo e a coleta e destinação correta do que já é consumido é muito pequena”, esclarece.

A Biotech tem planta própria para o refino do óleo coletado e Luiz Eduardo conta que o principal cliente da empresa após o tratamento são as refinarias de gasolina e biodiesel. “Com o crescimento das políticas verdes no país, há o incentivo para maior produção do biodiesel. Mas, o óleo refinado também pode ser utilizado em indústrias de ração animal, de asfalto, de produtos de limpeza, de lubrificantes vegetais, de concreto, de vidro, entre muitas outras”.

A grande maioria dos clientes fornecedores da Biotech são bares e restaurantes, que compreendem a importância de destinar corretamente o óleo utilizado em suas cozinhas. A rede de lanchonetes Kharina é uma delas. “Fazemos essa coleta há mais de 10 anos. Acreditamos que toda empresa, principalmente de gastronomia, tem obrigação de ter responsabilidade com o consumo consciente e retorno social”, enfatiza Rachid Cury Neto, diretor na rede. A empresa é certificada pelo selo Green Kitchen e a destinação correta do óleo é um dos itens para manutenção da certificação.

Conscientização

A rede de pizzarias Abaré também mantém a coleta seletiva do óleo. “O processo foi iniciado em 2010, com destinação inicial para uma cooperativa de reciclagem em Campo Largo. Com o crescimento da rede e o aumento do consumo de óleo, foi preciso profissionalizar a coleta, que hoje é feita por empresa especializada. Destinamos cerca de 600 litros/mês e estamos em constante treinamento da nossa equipe para a importância desse processo”, esclarece Israel Costa dos Santos, supervisor da rede.  Ele conta que a empresa coletora deixa uma bombona própria para o descarte do óleo e a recolhe quando está cheia.

“Na Biotech trabalhamos com recolhimento em empresas, mas também em condomínios e projetos sociais. Damos atenção a líderes de comunidades que buscam um retorno social do projeto”, explica Luiz Eduardo. Ele confirma que há, ainda, pouco conhecimento dos empresários sobre o quanto o óleo despejado na rede de esgoto polui o meio ambiente.

Além disso, existem também empresas ilegais que atuam na área. “É preciso ter as licenças do Ibama e do IAP para fazer o processo. Além do recolhimento do óleo, é preciso fazer o transporte e o refino dentro das normas, para então devolver ao mercado como insumo para novos usos”, esclarece. A coleta é feita de forma gratuita e, ainda, é dado um retorno sobre o que é coletado em forma de produtos de limpeza.

Para Luciano Bartolomeu, diretor executivo da Abrasel-PR, só em Curitiba são 600 restaurantes filiados. “Sabemos que alguns já estão adequados ao processo, mas a grande maioria não. Vamos iniciar o processo de sensibilização com a campanha ‘Óleo Não Se Mistura’ visando torná-los fornecedores de óleo para o programa do Instituto Lixo e Cidadania. Temos certeza, também, que nossos afiliados ajudarão a ampliar o conhecimento da campanha, influenciando outros restaurantes e bares em sua região”, confirma.

Hoje, a Abrasel-PR não tem nenhum dado que demonstre como é o verdadeiro cenário do descarte do óleo nos bares e restaurantes em Curitiba. “Com esse projeto teremos dados concretos para avançar na conscientização e no descarte correto.”

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