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SIMPÓSIO FRUTO

Como alimentar 7 bilhões de pessoas com comida de qualidade?

Soluções apontadas por palestrantes passam por horta urbana a políticas públicas que privilegiem a alimentação escolar

por Flávia Schiochet Publicado em 26/01/2018 às 19h
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Como plantar e distribuir alimentos de qualidade foi o tema predominante na tarde de sexta (26) durante o Simpósio FRU.TO, organizado pelo chef Alex Atala e pelo produtor Felipe Ribenboim. O evento segue no sábado (27), com palestras de 20 minutos a partir das 9h. Todas as palestras são transmitidas por streaming pelo site e ficarão disponíveis no YouTube.

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O objetivo do FRU.TO é apresentar estratégias para alimentar a população mundial, que segundo o Centro de Excelência contra a Fome das Nações Unidas, chegará a 8,6 bilhões de pessoas em 2030. A mudança, apontaram os palestrantes, virá do comportamento individual nos hábitos de consumo, na atuação em comunidade e na alimentação escolar.

Veja o que foi debatido nas palestras da manhã de sexta

Alimentação escolar

Quem fechou a programação do primeiro dia do FRUTO foi Isadora Ferreira, oficial de comunicação do Centro de Excelência contra a Fome. O centro, inaugurado em novembro de 2011, é uma iniciativa do Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas em parceria com o governo do Brasil e atua principalmente na alimentação escolar. O modelo desenvolvido virou exemplo para 40 governos, cujos representantes visitaram o Brasil nos últimos anos para conhecer a experiência contra a fome e na alimentação escolar.

O diagnóstico de Isadora é que há comida suficiente para alimentar as 815 milhões de pessoas com fome no mundo, porém a falta de investimento em agricultura, desafios climáticos, conflitos como guerras, instabilidade no preço dos alimentos e o desperdício de ⅓ da comida produzida no mundo dificultam a distribuição.

“A prioridade do Centro de Excelência Contra a Fome é a alimentação escolar, que combate o baixo peso e a baixa estatura, melhora o estado geral de saúde. Crianças bem alimentadas aprendem melhor. Elas formam hábitos alimentares e nutricionais melhores e reproduzem isso em casa”, explicou. Outro impacto positivo é na economia local quando os alimentos produzidos na região são usados para fazer a merenda.

Sob a gestão do PMA no mundo há 70 aviões, 20 navios, 5 mil caminhões e 15 mil funcionários que atuam em 80 países para levar comida “até arremessando de catapulta”. “Mas isso não resolve a fome no mundo”, vaticinou. Isadora apresentou resultados das políticas públicas contra a fome no Brasil, anteriores ao Centro de Excelência Contra a Fome: “Atualmente 2,5% da população brasileira passa fome. Em 2000/2002, esse número era de 10,7%”.

Mudanças na ponta final

Se há fome de um lado, há descarte de alimentos do outro. Para Gabrielle Mahamud, idealizadora do Good Truck, a mudança no comportamento do consumidor é a chave. “Quem educa o produtor é o consumidor. O excedente de produção é alto porque muito se perde no transporte e muitos alimentos são descartados por uma aparência “feia””, destacou. O Good Truck é uma iniciativa que transforma alimentos em bom estado, mas que seriam jogados fora, em refeições para pessoas em situação vulnerável socialmente.

GoodTruck leva a comunidades refeições preparadas com comida que iria para o lixo. Foto: Divulgação

GoodTruck leva a comunidades refeições preparadas com comida que iria para o lixo. Foto: Divulgação

Jussara Voss, autora do blog Vosso Blog de Comida, do Bom Gourmet, observa que o momento é propício para a discussão. “Não faltam políticas públicas e informação, como o Guia alimentar para a população brasileira, mas investir em comunicação e educação”, avalia. “Depois que comecei a frequentar congressos e a alta cozinha, passei a enxergar como a comida está relacionada a muitas áreas do conhecimento”, completa Jussara.

Frutos da horta: convívio e comida

Dentre os destaques, a fala do designer, artista e ativista Ron Finley sobre hortas urbanas deu o tom: depois de ser notificado pela prefeitura de Los Angeles por plantar alimentos em uma faixa de gramado em frente à sua casa, o jardineiro foi defendido pela comunidade.

Ron Finley, ativista que palestrou durante o simpósio FRUTO, organizado pelo chef Alex Atala. Foto: Reprodução

Ron Finley, ativista que palestrou durante o simpósio FRUTO, organizado pelo chef Alex Atala. Foto: Reprodução

Situação semelhante aconteceu em Curitiba em 2017, quando a Horta Comunitária de Calçada Cristo Rei foi notificada pela Prefeitura e posteriormente foi indicada pela Organização das Nações Unidas (ONU) ao primeiro Feed Your City (Alimente sua Cidade, em inglês), projeto que destaca casos de agricultura urbana em pequena escala.

Atualmente, Finley e o grupo Green Grounds trabalham implantando hortas urbanas em outras áreas da cidade para diferentes grupos, como um abrigo para pessoas em situação de rua. “Eu ia ser preso [se não fosse a mobilização popular]. Por que é tão conveniente comprar comida ruim do outro lado da rua e para conseguir uma maçã orgânica temos que dirigir por quilômetros?”, questionou Finley, com uma linguagem irreverente (e alguns palavrões).

Manter uma horta, segundo Finley, é mais que produzir alimentos: plantar e colher em grupo ensina responsabilidade às crianças, cria grupos que se auto-organizam dentro da comunidade, além de mudar a relação das pessoas com a cidade.

Na avaliação de Luiz Mileck, idealizador do Coletivo Alimentar, em Curitiba, a experiência de uma horta urbana vai além de produzir alimento. “É uma ferramenta para gerar autonomia alimentar, subsistência e incentiva a produção, mesmo que pequena, de uma grande diversidade de folhagens e legumes”, diz Mileck. O Coletivo Alimentar é um espaço que reúne iniciativas diversas em gastronomia, como uma padaria de fermentação natural, escritório empresas ligadas à alimentação e gastronomia, uma cozinha experimental, uma cafeteria e um empório com produtos paranaenses.

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