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Conheça Alejandro Galaz, enólogo que faz vinhos de personalidade no Chile

Enólogo da Ventisquero fala sobre a profissão, os terroirs chilenos e castas desafiadoras em degustação exclusiva em Curitiba

por Guilherme Rodrigues Publicado em 20/10/2019 às 17h
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Após o sucesso da região de Casablanca para vinhos elaborados com uvas de climas mais frios, como a chardonnay, pinot noir e mesmo a sauvignon blanc, o Chile passou a desbravar outras regiões costeiras, buscando maior frescor do clima, propiciado pelas águas geladas do Pacífico que banham a costa. Alejandro Galaz, enólogo sênior da Ventisquero, é reconhecido mestre nessa arte, como bem demonstram os vinhos da linha Kalfu – nome que significa azul, no caso o azul e frescor do mar, na língua Mapucho. Em recente passagem por Curitiba, concedeu uma entrevista exclusiva ao Bom Gourmet, seguida de uma prova de algumas de suas famosas criações.

Alejandro Galaz esteve em Curitiba apresentando os vinhos da linha Kalfu, da Ventisquero. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Destacaria um aspecto importante de sua filosofia na elaboração de vinhos?

Alejandro Galaz: O terroir é fundamental. Busco a expressão máxima da pureza e das qualidades naturais do terroir. A casta adaptada a certo local faz vinhos de personalidade única, realçando o melhor potencial. Veja, por exemplo, como são diferentes nossos Kalfus  Sauvignon Blanc de Casablanca (Molu), Leyda (Kuda) e Atacama (Sumpai). Do mesmo modo, todos os outros vinhos que produzimos nas diversas regiões do País.

Falando em terroir, qual deles desatacaria no Chile?

Felizmente, o Chile é muito rico em terroirs bem diversificados e de alta qualidade. Creio que o Alto Maipo, com a cabernet sauvignon, seja de todos o mais célebre.

E mais outras regiões e castas desafiadoras?

Chamo atenção para a região de Atacama, vale do Huasco, próximo da costa, onde fazemos alguns Kalfu e os ícones Tara, estes vinhos de corte e em muito pequenas quantidades. Apesar de estar no deserto e mais ao norte, desfruta de clima bem fresco e solos com composição calcária, perfeitos para castas de climas frios, como a pinot noir, sauvignon blanc, chardonnay. Também no extremo sul vinícola, itata e bio bio, além das manchas de solos vulcânicos presentes na Cordilheira dos Andes.

Qual a base para um grande vinho de sauvignon blanc?
Um fator essencial é o ponto de maturidade das uvas. A partir de minha experiência pessoal, observei que a sauvignon blanc tem quatro etapas principais de amadurecimento. Na primeira, fruto mais novo, sobressaem notas de tomate, ainda sem expressão do terroir. Na segunda, já maduro, características de cítricos (lima, pomelo), aspargos e boa expressão do terroir. Na terceira, marcas tropicais, lembrando, por exemplo, manga, maracujá, goiaba, também com boa expressão do terroir. Por fim, a fase sobremadura, com baixa acidez e notas a mel e figos, sem expressão do terroir. A segunda e a terceira fase são fundamentais. Esse é o modelo de trabalho que adoto para, em cada colheita, organizar a vindima de modo ao vinho poder expressar o ideal do terroir.

Como descobriu a vocação para enólogo?

Foi um longo percurso, cheio de alternativas. De início almejava a arquitetura, depois negócios. Desisti de ambos por perceber haver muitos arquitetos e homens de negócios. Fui para a escola naval, mas também acabou não sendo o que queria. Meu pai então perguntou-me o que achava da agricultura. Interessei-me, voltei-me à criação de gado. Mas quando vi o tamanho do Brasil e da Argentina, nossos concorrentes, mudei de ideia e fui para o lado da fruticultura.

Na fruticultura já estava perto do vinho, mas como chegou lá?

Um dia convidaram-me para uma vindima. Imediatamente percebi que era tudo que queria, ali estava minha vocação. Completei o curso de enologia da Universidade de Concepción. Minha primeira safra como enólogo foi a de 1999. No Chile, Ventisquero, depois Amayna. A seguir, desde 2006 estou em Ventisquero. Sinto-me feliz e realizado com a profissão de enólogo. Destaco também minha experiência no exterior, junto a Kendall Jackson (Monterey, Califórnia), Castel Virginie (França) e Domaine Le Grand Clos (Geneve, Suiça).

O que faz quando não está trabalhando como enólogo?

Gosto muito de tocar guitarra clássica, interpretando principalmente música latino-americana e anglo. Também gosto muito da vida silvestre, junto à natureza, o que me atrai para as pescarias.

Colunista Guilherme Rodrigues, enólogo Alejandro Galaz, chef Claudia Krauspenhar e Luca Fumagali, da Cantu Importadora. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Degustação

Provamos com exclusividade alguns dos encantadores vinhos criados por Alejandro Galaz. Foi em companhia dele, no restaurante K.sa, da inspirada chef Claudia Krauspenhar. Os tintos e brancos surpreenderam. Muito bem-acabados, de personalidade, com a expressão cativante do terroir. Passaram com louvor também no teste de harmonização. Combinaram às mil maravilhas com as ostras, vieiras, linguine nero com lulas, cordeiro em crosta e demais iguarias servidas.

Vinhos degustados durante jantar no K.Sa. Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Kalfu Molu Sauvignon Blanc 2017 (Casablanca)

Bela fruta madura, com nuances elegantes a ervas finas. Mineralidade que lembra pedra de isqueiro. Estilo que lembra o de um Pouilly Fumé.
Nota 90

Kalfu Kuda Sauvignon Blanc 2018 (Leyda)

Mais encorpado e firme, com belo frutado a pomelo, pêssegos, abricots, groselha e um leve abacaxi. Amplo, estilo para o lado do Sancerre.
Nota 90

Kalfu Molu Pinot Noir 2018 (Casablanca)

Belo Pinot Noir, limpo, definido, zimbros, suave mineral e violetas sobre frutado maduro e fresco.
Nota 90

Kalfu Kuda Pinot Noir 2017 (Leyda)

De uma parcela especial do vinhedo, mais intenso e profundo, mais cheio, nuances a jabuticabas e gengibre. Profundo, surpreendente, lembra o estilo de um Nuits St. Georges.
Nota 92

Kalfu Sumpai Pinot Noir 2016 (Leyda)

Frutado maduro a framboesa e cerejas, cálido, elegante e jovial, belas nuances florais ao fundo, especiarias, longo.
Nota 91

Ramirana Reserva 2017 (Maipo)

Muito bem resolvido, fruta copiosa, boa complexidade, bebe muito bem. Cabernet Sauvignon (65%) e Carmenere (35%).
Nota 90

Ramirana Gran Reserva 2017 (Maipo)

Uma bela expressão da Cabernet Sauvignon no Chile. Frutado maduro hedonista a cassis, notas de caixa de charutos, suave toque a goiaba, amplo e bem equilibrado.
Nota 91

Ramirana Viña Trinidad 2015 (Maipo Costa)

Trinidad é o nome da vinha onde florescem as uvas deste entusiasmante tinto. Potente, vigoroso, com muita energia e ao mesmo tempo bom acabamento, um single vineyard de charme especial.  Syrah (65%), Cabernet Sauvignon (25%), Carmenere (10%).
Nota 93


Serviço:
Os rótulos provados e os demais produzidos pela Ventisquero são importados pela Importadora Cantu.

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