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produção limitada

Casal de Curitiba tem vinícola boutique na Áustria e quer exportar para o Brasil

Weingut Klamas, que começou no Brasil, mudou-se para o país europeu em 2014 com a esposa Vanessa; rótulos devem chegar no Brasil em 2018

por Flávia Schiochet Publicado em 15/07/2017 às 18h
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Na contramão da expansão de grandes vinícolas, com máquinas agrícolas e volume para abastecer um supermercado, o casal de Curitiba, Breno e Vanessa Klamas, comanda uma vinícola boutique na Áustria, que produz anualmente apenas 6 mil litros.

Weingut Klamas é o nome da vinícola, que é entusiasta do “wine craft“, um movimento similar ao que aconteceu no universo da cerveja: o processo dos vinhos artesanais é integralmente feito por uma ou duas pessoas, da colheita da fruta à distribuição da garrafa.

Vanessa Klamas trata os vinhedos, poda e colhe à mão cada cacho de uva das 12 toneladas anuais. Foto: Arquivo/Família Klamas

Vanessa Klamas trata os vinhedos, poda e colhe à mão cada cacho de uva das 12 toneladas anuais. Foto: Arquivo/Família Klamas

É o que acontece nos vinhedos e na vinícola Weingut Klamas: Vanessa é quem poda, colhe as uvas e trata dos parreirais próximos ao Vale do Danúbio, enquanto Breno leva as caixas de uvas para a vinícola e trabalha na vinificação.

A primeira colheita comercial foi em 2015, quando 12 toneladas de uva viraram 8 mil garrafas numeradas de cinco tipos de vinhos, um vermute e um conhaque. “Não vamos passar disso. Nossa ideia é manter a produção pequena”, diz Breno.

Apesar de artesanal, o produto não é rústico. “Temos no Brasil vinhedos e técnicas de vinificação de 100 anos atrás. Na Europa a nova geração continua ou volta para a área rural para produzir vinhos com nova tecnologia, mas no Brasil a condição sócio-econômica dificulta, não vale a pena trabalhar no campo. Ao redor de Curitiba a viticultura foi muito prejudicada pelo aumento no valor dos imóveis e os viticultores acharam outros meios de ganhar a vida. Quem é da cidade e faz vinho de qualidade no Brasil nem sempre consegue acompanhar e dar identidade a todo o processo, precisa pagar alguém para tratar o vinhedo, um enólogo, e assim por diante”, explica Breno.

Zweigelt é uma das variedades típicas da Áustria e Alemanha cultivada pelos Klamas. Foto: Arquivo pessoal/Família KlamasZweigelt é uma das variedades típicas da Áustria e Alemanha cultivada pelos Klamas. Foto: Arquivo pessoal/Família Klamas

Zweigelt é uma das variedades típicas da Áustria e Alemanha cultivada pelos Klamas. Foto: Arquivo pessoal/Família Klamas

A colheita começa nos vinhedos da Áustria entre setembro e outubro. No 1,5 hectare do casal, são cultivadas as uvas Grüner Veltliner, Riesling Renano, Zweigelt e Rösler, que são vinificadas em um casarão com mais de 250 anos, com uma adega de pedra no subsolo. A maior parte é vinificada em aço inox, sendo que os tintos passam por barrica.

Um dos rótulos mais exclusivos é o vinho laranja, vinho branco vinificado como um tinto: o processo prevê que o mosto fique em contato por duas semanas com as cascas até atingir a cor e as notas desejadas. O vinho é feito com 20% de uvas com podridão nobre, um fungo que concentra aromas e sabores da fruta e é vinificado em ânfora de cerâmica.

Além da tendência de produção em pequena escala e com a participação do produtor-enólogo-proprietário da vinícola em cada etapa, as uvas alemãs e austríacas, como as que a Klamas vinifica, estão em ascensão no Velho Continente.

A família Klamas: Breno, Vanessa e a filha Liesl. Foto: Arquivo pessoal/Família Klamas

A família Klamas: Breno, Vanessa e a filha Liesl. Foto: Walter Skokanitsch/Divulgação

Os vinhos da Weingut Klamas devem chegar ao Brasil no início de 2018, com preços estimados entre R$ 90 e R$ 150 a garrafa. “Um vinho bom não precisa ser caro. Quero que seja acessível, apesar da pouca quantidade”, defende. “A dificuldade é a tributação para entrar no Brasil e como diluir esse custo com um lote tão pequeno. Vamos acabar absorvendo e baixar a margem de lucro para o mínimo”. No total, serão enviadas 640 garrafas ao Brasil, incluindo algumas dezenas do vinho laranja, cuja safra de 2015 produziu apenas 300 garrafas.

Breno é formado em enologia pela Universidade de Trento, Fundação Edmund Mach e pela Escola de Vinicultura de Krems e já havia feito vinhos na Região Metropolitana de Curitiba antes de se mudar para a Áustria, em 2014. Ele conversou com o Bom Gourmet sobre sua experiência como vitivinicultor na Áustria e as descobertas em solo europeu:

Você vem de família vitivinicultora? Como foi parar na agricultura?

Não, foi uma busca minha mesmo. Meu pai tinha uma indústria em Curitiba. Sempre fomos da cidade, mas tínhamos uma fazenda na Lapa para onde íamos no fim de semana. Em 2004 herdei essa propriedade e me dediquei à vida rural. Tornamos orgânica e biodinâmica e comecei a criar minha cultura de agricultor e viticultor.

Fui para Trento, na Itália, em 2007 estudar enologia e eu e Vanessa moramos na região do Tirol até 2011. Nós nos sentíamos muito em casa, queríamos voltar para o Brasil só para buscar as malas. A época que passei no Brasil até 2014, eu vinifiquei uvas Malbec e Merlot produzidas na fazenda da Lapa. Foi bem satisfatório, repercutiu bem em Curitiba e o Malbec ficou inesquecível.

Vinhos da Weingut Klamas feitos por Breno entre 2011 e 2014, período em que morou em Curitiba após estudar enologia na Itália. Foto: Arquivo pessoal/Família Klamas

Vinhos da Weingut Klamas feitos por Breno entre 2011 e 2014, período em que morou em Curitiba após estudar enologia na Itália. Foto: Arquivo pessoal/Família Klamas

Por que produzir vinhos na Áustria?

Escolhemos a Áustria por afinidade, temos uma ascendência germânica em nossas famílias. Langelois é a principal cidade vitivinícola da Áustria e nosso objetivo era implantar uma vinícola no melhor lugar para as uvas. Hoje moramos na montanha, há duas horas e meia da vinícola. Temos outras ocupações na cidade e concentramos nosso trabalho na vinícola nos fins de semana.

Eu prezo muito pela originalidade do projeto e respeito o terroir. Malbec é minha uva predileta, mas não é daqui. Na hora de produzir o vinho procuro não usar técnicas que alterem as propriedades naturais. Nossa linha de vinhos tintos chama Alte Heimat, “a velha terra natal”, um termo muito usado pelos germânicos colonos. Esse nome faz muito sentido na nossa história porque nós nos sentimos no alte heimat que, ao mesmo tempo, é um “neue heimat”. É como fechar um ciclo.

Os tintos da Weingut Klamas foram batizados de Alte Heimat ou "de volta ao velho lar". Foto: Divulgação

Os tintos da Weingut Klamas foram batizados de Alte Heimat ou “de volta ao velho lar”. Foto: Divulgação

A safra de 2015 é a primeira a ser comercializada. Como foi a “descoberta” dos vinhedos na Áustria?

É como reformar um carro antigo (risos). Eu vinifiquei 300 litros a nível de teste na safra de 2014, que foi terrível porque choveu o ano inteiro. Deu pra sentir o potencial. O ano de 2015 foi perfeito, porque fez muito calor, muito sol no fim do ano.

Estamos reformando o vinhedo de Zweitgel para ter 20% de Rösler, uma uva que coincide de ser o sobrenome da minha avó. Queria muito trabalhar com essa uva e a comprei do vizinho ano passado para fazer um rosé. É uma uva relativamente nova na Áustria, criada em 1970 na escola mais antiga de vitivinicultura do mundo. Nosso rosé está fazendo sucesso. Você espera cerejas ou frutas do bosque em um rosé e este tem aromas até de goiaba e abóbora, é muito exótico.

A vinícola produz seis mil litros anuais e não quer passar disso. Um dos rótulos é feito em ânfora de cerâmica (à esquerda). Foto: Arquivo pessoal/Família Klamas

A vinícola produz seis mil litros anuais e não quer passar disso. Um dos rótulos é feito em ânfora de cerâmica (à esquerda). Foto: Arquivo pessoal/Família Klamas

Na safra de 2015 tem um vinho com podridão nobre, laranja, vinificado em ânfora. Como é o processo deste vinho?

O vinho de ânfora é o único que tem fermentação espontânea e todo o processo se dá em ânforas de cerâmica. É uma uva branca que passa duas semanas em contato com a casca e ganha a coloração alaranjada além de mais aromas. Engarrafo no outono, porque é um vinho de reserva.

O fungo Botrytis cinerea nobilis pode fazer mal para a uva se aparecer muito cedo em anos úmidos. Em 2015 e 2016 o fungo veio próximo ao período da colheita e foi ótimo. No nosso caso ele foi espontâneo na Grüner Veltliner, mas pode-se inocular. A podridão nobre ataca a casca da fruta, onde está a pectina, os polifenóis e substâncias aromáticas e potencializa o sabor. Usamos 20% dessas uvas com fungos no nosso rótulo.

O vinhedo em Langelois, próximo ao Vale do Danúbio, comprado por Breno e Vanessa Klamas para produzir vinho artesanalmente. Foto: Arquivo pessoal/Família Klamas

O vinhedo em Langelois, próximo ao Vale do Danúbio, comprado por Breno e Vanessa Klamas para produzir vinho artesanalmente. Foto: Arquivo pessoal/Família Klamas

A previsão é chegar ao Brasil no próximo ano. Por enquanto, para onde escoa a produção?

Não tínhamos a pretensão de dar certo na Europa (risos). Achei que só ia vender para o Brasil, que é onde conhecemos as pessoas. Achei que mesmo que fosse um bom vinho, ninguém iria elogiar aqui, mas eles adoram nossa história. Sabem da colonização no sul do Brasil, bastantes deles têm parentes aí.

Eles ficam orgulhosos de saber que as pessoas que saíram daqui “deram certo” em outro país. Nosso principal mercado tem sido Áustria e Alemanha, principalmente, e vendemos on-line para toda a Europa: tanto Escandinávia quanto Luxemburgo tem tido uma saída bacana. Queremos enviar um pallet em breve para o Brasil, cerca de 640 garrafas. Estamos visando também o mercado da Inglaterra.

Breno Klamas e a filha Liesl no transporte das uvas do vinhedo à vinícola. Foto: Arquivo/Família Klamas

Breno Klamas e a filha Liesl no transporte das uvas do vinhedo à vinícola. Foto: Arquivo/Família Klamas

O preço final de um vinho artesanal é necessariamente mais caro que um industrial?

O craft wine aqui é a média do nosso preço, dez euros, 15 euros, até 50% mais caro. Nosso vinho tem o mesmo nível de qualidade das vinícolas austríacas. O que acontece muito é que novos vinicultores querem colocar um preço alto para mostrar que seu vinho é bom, mas eu não quero.

Faço vinho porque é minha arte, eu sinto até dó de vender, é a Vanessa quem vende. Procuro não supervalorizar o vinho e os encaixo na faixa mais baixa do mercado de craft wine. Para vender para o Brasil vou reduzir bastante minha margem de lucro. Não quero que só gente rica beba meu vinho, mas a dificuldade é a tributação.

 

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