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Coletivo Alimentar reúne restaurante, café, mercearia e padaria orgânica

Empresário cria espaço aberto voltado à debater a alimentação, bem no centro de Curitiba

por Flávia Schiochet Publicado em 02/11/2015 às 22h
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Um endereço na Rua Comendador Macedo, no centro de Curitiba, tem atraído a atenção de diferentes grupos faz quase três meses. Há os que vão tomar um café e comer um croissant. Outros comparecem a uma reunião do Slow Food. Tem também povo do happy hour de sexta-feira e os que ligaram minutos antes para se inscrever em uma aula de panificação, corte de carnes, massa fresca ou de cozinha vegetariana. Tem os que começam o dia tomando café da manhã e os que almoçam às quartas. A turma é grande.

Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

O espaço fica no centro de Curitiba. Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

O Coletivo Alimentar, aberto na primeira semana de agosto, não sabe bem o que é ainda — e por isso evita dizer não para novos formatos. “Estamos próximos do conceito de living lab”, explica o idealizador, Luiz Mileck: um “laboratório vivo”, com espaço para inovação e experimentação em torno de um mesmo assunto. Neste caso, a comida.

Mileck quis abrir as portas mesmo sem ter um modelo de negócios convencional. Com esta liberdade de não se definir, o Coletivo Alimentar botou para funcionar o projeto Cem Dias Sem Projeto, um período de atividade intensa (e quase diária) para decidirem o que serão quando a primeira semana de dezembro chegar. A conta exclui os domingos e completou 75 dias na terça, 3 de novembro. A ambientação do espaço faz jus à proposta: mesas, bancos e cadeiras de papelão por enquanto, graffiti na parede, pallets e nichos de compensado como estante.

Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Desde o primeiro dia de funcionamento, diferentes iniciativas aportaram no espaço de 400 metros quadrados. No TNT, torneio de baristas para fazer latte arte, realizado no dia em que o alvará saiu, foram 20 profissionais participando da competição, o maior número registrado em Curitiba nos últimos tempos. Com uma máquina de espresso emprestada pela Astoria, o torneio reuniu 100 pessoas em uma noite fria. Beberam-se mais de 70 litros de chope só naquela noite. “Se fosse a inauguração de uma cafeteria, talvez não tivesse juntado tantos baristas. Acho que nossa negação em ser uma destas coisas junta as pessoas mais facilmente”, palpita Luiz.

Luiz Mileck, engenheiro mecânico há três anos imerso na gastronomia, é o idealizador do Coletivo Alimentar. Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Luiz Mileck, engenheiro mecânico há três anos imerso na gastronomia, é o idealizador do Coletivo Alimentar. Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

A ideia pouco explicável veio da cabeça de um engenheiro mecânico há três anos imerso no mundo da gastronomia. “O start foi quando fui na Laboriosa 89, em São Paulo. É uma casa aberta voltada ao trabalho e à convivência, sem curadoria e que funciona na economia da abundância, aproveitando o tempo em que os espaços ficariam desocupados”, diz Mileck, que estuda experiências como a vivência gastronômica em seu mestrado em Design, pela Universidade Federal do Paraná. Luiz é um dos sócios da Vivah Gastronomia, uma empresa especializada nestas vivências gastronômicas, em que os consumidores e clientes provam, debatem e aprendem sobre determinado ingrediente.

Reunião do Slow Food no Coletivo Alimentar. Foto: Munir Bucair Filho/Divulgação

Reunião do Slow Food no Coletivo Alimentar. Foto: Munir Bucair Filho/Divulgação

Acostumado a ver tudo de forma sistemática, Mileck se inquietou com a dependência que unia cozinhas e balcões de venda em uma relação exclusiva. “Se eu tenho uma cozinha que pode produzir para uma cafeteria e também para um chef que vai fazer eventos, por que eu deixaria essa estrutura trabalhando apenas para o café? Por que um espaço deve ficar ocioso quando o café está fechado?”, questionou. Ao estudar os modelos de um café ou restaurante, não conseguia encontrar um que abarcasse tudo o que gostaria de ter em um mesmo espaço. E acabou criando este híbrido entre co-working e casa aberta.

 

Estrutura e programação

Logo na entrada, a mercearia do Coletivo Alimentar recepciona os clientes com legumes e hortaliças orgânicas, kits para cultivo de cogumelos em casa, vinhos e cervejas paranaenses, chocolate orgânico, pães de fermentação natural, embutidos da paranaense Salumeria Monte Bello, mel de abelha nativa, melado e rapadura, entre outros produtos deixados no espaço em consignação. Para ter um produto à venda por lá, paga-se um percentual do valor ao coletivo, que varia de acordo com o produto.

A cafeteria do Coletivo Alimentar. Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

A cafeteria do Coletivo Alimentar. Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Mais adiante, uma cafeteria com café, croissant, pain au chocolat e a possibilidade de cada cliente montar seu sanduíche com os produtos da mercearia e os especiais da geladeira: pão multigrãos, ciabatta ou italiano com um embutido, um tipo de queijo e hortaliças (de R$ 9,50 a R$ 14, quente ou gratinado). Ao lado, um mapa explica de onde veio cada um dos insumos.

Mural do Coletivo Alimentar explica como montar seu sanduíche e de onde vêm cada ingrediente. Foto: Munir Bucair Filho/Divulgação

Mural do Coletivo Alimentar explica como montar seu sanduíche e de onde vêm cada ingrediente. Foto: Munir Bucair Filho/Divulgação

O café pode ser o espresso – feito em uma máquina que era da Cantina do Délio, que movimentou os comentários da fan page do restaurante com a campanha #mandaproColetivoDelio – ou em um dos três métodos de filtragem disponíveis: canadiana (um cone de metal em um pedaço de madeira), Hario V60 ou AeroPress (de R$ 6 a R$ 10, 200 ml). Os grãos são da Kaldi, Lucca Café, Moka e Léo Moço.

Os métodos de filtragem de café, da esquerda para a direita: Hario V60, AeroPress e canadiano. Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Os métodos de filtragem de café, da esquerda para a direita: Hario V60, AeroPress e canadiano. Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Às quartas é dia do Bistrô da Feira, em que o chef Renato Bedore, da Vivah Gastronomia e líder do Slow Food, vai à feira orgânica da Praça do Expedicionário e monta o almoço do dia (R$ 25, com salada, prato e bebida). Em outubro, a dupla de padeiros do Maçã Padaria e Mercearia Artesanal Brasileira, Gustavo Alberge e Lucas Chan, mudou-se para o auditório, com forno de lastro, levain, formas e afins e todos os dias, pela manhã e no fim da tarde, há o inigualável aroma de pão quentinho no ar. A especialidade do Maçã são pães sourdough feitos com farinha orgânica, que podem ficar quase um dia inteiro fermentando. Das 7h30 às 10h30 servem café da manhã (de R$ 6 a R$ 15), com opções de sanduíche, ovos com bacon, café com leite e também opções veganas.

Às quartas é dia de Bistrô da Feira. Outros almoços, como este feito pelo Maçã Padaria e Mercearia Artesanal Brasileira, são esporádicos. Na fan page do Coletivo Alimentar há a programação da semana. Foto: Munir Bucair Filho/Divulgação

Às quartas é dia de Bistrô da Feira. Outros almoços, como este feito pelo Maçã Padaria e Mercearia Artesanal Brasileira, são esporádicos. Na fan page do Coletivo Alimentar há a programação da semana. Foto: Munir Bucair Filho/Divulgação

No mesmo espaço, geralmente à noite, o Coletivo realiza semanalmente debates, oficinas, palestras e outros eventos similares. Alguns de graça, alguns com uma contribuição mínima para pagar custos: de R$ 20 a R$ 75, valor abaixo do que cobra o mercado. A programação está na fan page.

Semanalmente há cursos práticos com valores para pagar os custos. De sushi a análise sensorial de cervejas, todos os assuntos ligados à comida têm vez no Coletivo Alimentar. Foto: Munir Bucair Filho/Divulgação

Semanalmente há cursos práticos com valores para pagar os custos. De sushi a análise sensorial de cervejas, todos os assuntos ligados à comida têm vez no Coletivo Alimentar. Foto: Munir Bucair Filho/Divulgação

No segundo andar, funcionarão cinco escritórios de empresas ligadas à gastronomia e, por um acesso separado, uma cozinha industrial aberta à comunidade, que ainda está no projeto. Junto dela, uma horta no terraço. Para a cozinha e a horta, o coletivo aceita projetos de empresas que queiram assinar e sustentar as estruturas ou usar o espaço como showroom. Outra alternativa seria fazer um crowdfunding para colocar os projetos em prática. “Resumindo, a proposta do Coletivo Alimentar é essa: um lugar para comprar comida, para conversar sobre comida e para aprender sobre comida”, diz Mileck.

***

Serviço

Rua Comendador Macedo, 233, Centro – (41) 3121-1720. Abre de segunda a sexta das 7h30 às 20h e aos sábados das 10h às 20h. www.facebook.com/coletivoalimentar

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