Conversa Temperada

Nádia Schiavinatto

As deliciosas mineirices de Beth Beltrão

por Nádia Schiavinatto Publicado em 13/02/2014 às 00h
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FOTO ANTONIO MILENA/AE
Foto: Antonio Milena/AE

Ir a Tiradentes, a cidade histórica de Minas Gerais, e não conhecer o Viradas do Largo é quase uma heresia. O estrelado restaurante da mineiríssima Beth Beltrão, um dos maiores nomes da cozinha mineira, é visita obrigatória. Sem sofisticação, comida é saborosa e preparada no fogão à lenha, com cuidado.

O Viradas, ou restaurante da Beth, é simples, aconchegante e com vista para a horta, de onde vem boa parte das verduras e legumes servidos. A parede, decorada de pratos da Boa Lembrança e prêmios, tem ainda plaquinhas como a “A pressa é a inimiga da refeição”, que traduz a proposta da chef. “Aqui não temos a pressa da vida moderna. Comemos devagar, saboreando a comida”, diz ela, que faz parte do slow food.

Beth é apaixonante, recebe com carinho e é boa de papo. Com ela, dá vontade de um “cadinho” mais de conversa. Nascida na região da Serra da Canastra, a terra dos queijos, está em Tiradentes há 23 anos e o início de sua nova trajetória profissional foi algo inesperado. “Foi um susto. Em 1990, eu trabalhava em uma estatal, na área de informática. Era a época do Collor e muitos foram demitidos. Eu também. Aí, vim passear em Tiradentes e ‘garrei’”, diz ela, com seu jeito mineiro.

Seu talento culinário foi desenvolvido com a prática. “Eu tinha o dom pra cozinhar, mas nenhuma noção de restaurante. Mesmo assim, decidi investir”. O começo do Viradas foi um desafio. “Eu olhava os cardápios de outros restaurantes, mas não queria copiá-los. Então, quando um cliente chegava aqui, eu perguntava o que ele estava com vontade de comer. Eu ia pra cozinha e recorria a um livro – o Be-a-bá da Cozinha: vovó Sinhá – para preparar os pratos. Assim, fui montando meu cardápio. Quando a cozinha está em seu coração, você cozinha bem, com leveza.”

A premiada Beth, que já representou nossos pratos mundo afora, não fez nenhum curso de gastronomia. Seu grande mérito é a comida bem feita. “Sou autodidata. Adoro viajar e garimpar tudo da nossa terra e da nossa cultura. Tenho o prazer de servir, respeitando o gosto do cliente. Se for preciso, tiro uma cebola aqui, um alho ali”, explica.

O melhor da comida mineira está ali em seu cardápio: tutu com costelinha e lombo, feijão tropeiro, frango com quiabo, frango caipira, pernil a pururuca. O prato que mais desperta a curiosidade é o frango com ora-pro-nobis, planta popular em Minas, que pertence à família dos cactos. A Cara da Riqueza (arroz vermelho, pancetta crocante, quibebe de abóbora, farofa de pipoca e redução de jabuticaba) e Misturinha Chocante (arroz, peito de frango, lâminas de amêndoas, ovo e couve) são algumas de suas criações.Nossa, que trem bão sô!

Misturinha Chocante (11)

Misturinha Chocante

 

«Ora-pro-nóbis»

Comum no estado mineiro, o ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) é uma planta da família dos cactos, de folhagem verde escura, espinhos afiados e de alto valor nutricional. Rica em ferro, cálcio, fósforo, vitaminas A, B e C, as folhas secas e moídas são usadas em sopas, tortas e refogados. Muitos preferem consumir as folhas cruas em saladas, acompanhando o prato principal. Além do frango, Beth prepara omeletes, caldos e massas com ora-pro-nóbis.

Dizem que o nome, do latim “rogai por nós”, teria sido criado por pessoas que colhiam a planta no quintal de um padre, enquanto ele rezava em latim: ora pro nobis.

Onde:
Viradas do Largo – Rua do Moinho, 11. Tiradentes (MG)– (32) 3355-1111. www.viradasdolargo.com.br

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Nadia Schiavinatto, jornalista e apaixonada pela gastronomia e seus personagens.

nschiavinatto@gmail.com

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