Bebidas

Volta às origens

Criada em 1870, primeira cerveja do Paraná volta a ser produzida em Curitiba

A Cruzeiro Keller Bier surgiu a partir de uma receita tradicional austríaca e agora será vendida em edição limitada de apenas 200 litros por mês

por Guilherme Grandi Publicado em 23/11/2018 às 14h
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Criada há mais de 140 anos e encerrada em meados de 1950, a primeira cerveja do Paraná volta a ser produzida e será relançada em Curitiba neste final de semana. A Cruzeiro Keller Bier teve a receita original resgatada pelo bisneto do criador, utilizando os mesmos ingredientes e simulando o exato processo de produção trazido ao Brasil em 1870 pelo imigrante austríaco João Leitner.

Beto Glaser Cerveja Cruzeiro

Bisneto do fundador, Beto Glaser decidiu resgatar a receita histórica trazida da Áustria no século 19. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

A façanha de pesquisar a receita familiar surgiu quando o publicitário Beto Glaser começou a se interessar pelas cervejas, em meados de 2015. Ele contou ao Bom Gourmet que decidiu colocar em prática o hobby de experimentar cervejas especiais e também de produzir a sua própria bebida.

“Quando eu comecei a fazer o curso, o meu pai comentou que a família já teve uma fábrica de cervejas que era muito procurada pelas pessoas nos finais de semana. E como eu queria empreender nesse mercado, achei que seria interessante resgatar a receita centenária do meu bisavô. Assim surgiu a ideia de trazer a cerveja de volta, mas exatamente como ela era feita naquela época”, conta.

Fábrica Cerveja Cruzeiro

A fábrica original foi aberta em 1870 no final da Alameda Dom Pedro II, no bairro do Batel. Foto: Acervo pessoal.

Foram necessários quase dois anos de pesquisas entre bate-papos com o pai e tios, pesquisas em livros sobre a imigração alemã e muitos testes. Beto explica que precisou fazer pelo menos cinco lotes de cervejas até acertar a receita. O último foi em maio deste ano, quando bateu o martelo da produção.

O resultado final foi uma cerveja lager que realça o malte em si com notas de carvalho e um teor alcoólico de 4,9%. “É uma cerveja extremamente simples, com alta drinkability [fácil de beber] em dias frescos”, explica o mestre cervejeiro.

>> Leia também: 10 roteiros em Curitiba para quem ama cerveja artesanal

Beto conta que a ideia não é fazer uma cerveja de grande produção ou para vender em qualquer lugar. Para ele, o objetivo é resgatar o hábito das pessoas de irem até o bar. Serão apenas 200 litros por mês no formato de chope. “Quando acabar, acabou. Vai ter que esperar até o próximo mês”, brinca.

Como no século 19

Porão Fábrica Cruzeiro

Uma das curiosidades descobertas por Beto foi a de que os barris de maturação ficavam no porão da fábrica, a uma temperatura de 4 graus. Na foto, o bisavô dele, João Leitner. Foto: Acervo pessoal.

Durante a pesquisa da receita da Cruzeiro, Beto descobriu algumas curiosidades sobre as técnicas usadas pelo bisavô. Uma delas foi o próprio processo de produção, como o uso da chamado decocção – que consiste em ferver parte do malte até caramelizar – e da maturação em barris de carvalho no porão da fábrica.

“A característica principal dessa cerveja é que ela usa a técnica de decocção no processo de mostura, que não conheço praticamente nenhuma fábrica que o utilize. A gente extrai uma parte do malte, faz o processo, e depois devolve para a panela a 67 graus. Isso realça o aroma do malte no mosto. Depois vem a maturação a 4 graus e a infusão de chips de carvalho francês – para simular a que era feita na época”, pontua.

Cerveja Cruzeiro

A cerveja é uma lager com teor alcoólico de 4,9%, seguindo a prática da época, de elaborar bebidas leves. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

A fermentação da cerveja leva em torno de uma semana, e depois são necessários mais 21 dias maturando e outros dois carbonatando já na chopeira – quando a bebida gera uma determinada quantidade de gás carbônico. Só após todo esse processo é que a bebida pode começar a ser servida.

Como a ideia de Beto é fazer a Cruzeiro apenas em pequenas quantidades, a produção foi terceirizada para a fábrica da Cervejaria Turbinada, em Colombo. “É uma prática muito comum no mercado das cervejas especiais. Eu não tenho uma cervejaria e nem pretendo ter, quero manter nesse formato”, completa.

Ponto de encontro

Loja Cruzeiro

Beto toca a sua própria loja de cervejas em família, com a esposa e a filha ajudando no negócio. Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

No ano passado, com a vontade de empreender e seguir os passos do bisavô, Beto abriu uma pequena loja de cervejas no bairro do Água Verde. Além do próprio chope vendido, ele também oferece outras opções de cervejarias locais e bebidas importadas.

Beto toca a Cervejaria Curitibana com a esposa, a administradora Adriane Aumann Glaser, e a filha Louise, servindo os mais diversos rótulos e comidinhas para acompanhar a partir de R$ 12. O objetivo, segundo o publicitário, é tornar o lugar um ponto de encontro assim como era na fábrica do bisavô, no bairro do Batel.

“A fábrica ficava no final da Alameda Dom Pedro II, onde hoje está um prédio residencial. Ali havia um bosque que ia até a antiga Churrascaria Cruzeiro, na Avenida do Batel, e as pessoas se reuniam para conversar e tomar cerveja”, conta Beto Glaser.

>> Leia também: Qualidade faz de Curitiba um dos principais polos de cerveja artesanal do país

A Cervejaria Cruzeiro foi vendida para a Brahma em 1940 e transferida para a fábrica da Avenida Pres. Getúlio Vargas. Mas a produção da cerveja foi encerrada na década seguinte.

Lançamento

A volta da cerveja Cruzeiro Keller Bier será comemorada neste sábado (24), com uma festa a partir das 15h na Cervejaria Curitibana – Rua Nestor Victor, 400, Água Verde. A bebida será vendida em copos de 500ml a R$ 15.
Serviço

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