Notas Báquicas

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Degustamos 9 safras do maior tinto da Espanha; veja como foi

Em uma degustação vertical, nove safras diferentes do lendário Vega-Sicilia Único foram provadas e avaliadas

por Guilherme Rodrigues, colunista do Notas Báquicas Publicado em 25/07/2019 às 14h
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O nome dispensa apresentações. Sonho de consumo, o Vega-Sicilia Único é daqueles grandes tintos obrigatórios a ser provados pelos súditos de Baco na passagem por esta vida terrena. E quem experimentou não dispensa abrir mais garrafas, sejam de novas safras ou das mais antigas, nos seus diversos estágios de evolução. Enfim, o Vega é uma grande paixão que eleva o espírito e enobrece qualquer mesa.

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Provamos, em uma degustação vertical, nove diferentes safras do maior tinto da Espanha. Foto: André Rodrigues/ Gazeta do Povo.

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Sem dúvida, o maior tinto da Espanha. Também é um dos mais invejados e disputados ícones do mundo. Tem personalidade muito própria: quente, viva, sensual, audaciosa, desafiadora, forte, visionária, orgulhosa, provocativa. As palavras são poucas para descrever este inigualável tinto.

As origens do vinhedo que gera o Vega são bem documentadas há séculos. Tudo indica que o nome se refere ao topônimo de origem medieval, relativo a um local de terras férteis ribeirinhas (“vega”), no lugar chamado Sicília, possivelmente em louvor da santa homônima. Eram as terras, ou “vegas” Sicilia y Carrascal, adjacentes ao Rio Duero (Douro).

A identidade do rótulo lendário começou a se formar na década de 1840, quando o magnata basco Toribio Lecanda adquiriu uma propriedade agrícola maior, com cerca de 1.000 hectares, dentro da qual está o vinhedo, este de aproximados 200 hectares. Seu filho, Eloy Lecanda, plantou 18.000 cepas das castas cabernet sauvignon, merlot, carménère, malbec e pinot noir, trazidas de Bordeaux, alternadas com as castas locais, garnacha e aragonese tinto. O experimento foi um sucesso e a vinícola se tornou uma referência.

Em 1890, a propriedade passou para a família Herrero, que cedeu o manejo a Cosme Palacio. Aí começou o milagre do Vega-Sicilia Único. O criador foi Domingo “Txomin” Garramiola, inspirado bodeguero, enólogo da época, contratado por Palacio. Criou o mito. Até o desenho atual do rótulo mantém fidelidade ao de 1915.

No começo, o vinho não era vendido comercialmente, mas oferecido em reconhecimento aos amigos dos donos da propriedade. Daí a fama de que Vega-Sicilia só se adquire com amizade.

A propriedade viveu altos e baixos até 1982, início de outra fase de ouro, quando David Álvarez adquiriu Vega-Sicilia. Até hoje sob o controle da família, sob a inspirada batuta de Pablo Álvarez.

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O que faz do Vega-Sicilia Único um vinho tão extraordinário?

Primeiro, o terroir excepcional. Situado numa pequena planície aluvial, quase junto à margem do Rio Douro, cerca de 700 metros acima do nível do mar, o solo é profundo e marcado por composição diversificada, com argilo-calcário, areias vermelhas e pedregulhos aluviais. Nele florescem as castas tinto fino (tempranillo), com cerca de 80% do encepamento, e o restante em cabernet sauvignon, merlot e malbec.

Depois, a elaboração. Para o Vega Único selecionam-se apenas as melhores uvas, dos parreirais mais velhos do vinhedo. O processo mantém-se fiel à filosofia original, das prolongadas crianzas (estágios), com rigorosíssimo controle da qualidade dos recipientes, bem como de sua sanidade. São alternadas passagens em grandes tonéis de madeira usada, de cerca de 7 a 20 mil litros de volume, com estágios em barris novos e usados bordaleses de 225 litros, de carvalho francês e americano. Por fim, engarrafado, o vinho só partirá ao mercado após 10 anos da colheita.

Fácil entender o enorme custo que representa esse laborioso e longo processo de seleção e educação do vinho. Só em estoque, pelo menos 10 anos. O objetivo é que o Vega esteja bom de beber quando chegue ao consumidor. A magia e a extrema qualidade do mito justificam essa dedicação extraordinária.

Não obstante seja muito agradável desde o lançamento, o Vega Único evolui lindamente com o tempo, do que nossa prova é uma demonstração cabal. Bem armazenado, é capaz de uma vida superior a 50 anos, nas melhores colheitas.

É difícil falar em um ápice, pois na verdade o que ocorre é o vinho mudar suas nuances com o passar dos anos. De todo modo, fica ainda mais macio e adquire a sofisticação adicional do envelhecimento em garrafa, após cerca de 20 anos da colheita. Ficou bem visível nos vinhos de 1999 para trás, na nossa prova.  São também produzidos o Vega-Sicilia Valbuena 5º, com um processo de estágio de 5 anos; e o Vega-Sicilia Único Reserva Especial, não safrado, resultante da mescla de vinhos de grandes safras.

A Casa é proprietária de outros sensacionais vinhedos e vinícolas, de onde saem grandes néctares: Alión (fundada em 1991- Ribera del Duero); Oremus (1993, Tokaji, Hungria); Pintia (2001, Toro) e Macán (2013, Rioja).

Os vinhos degustados possuem em comum uma acidez viva, vibrante, que lembra cítricos, notadamente tangerina. Mas não é dura, antes pelo contrário, serve como nervos ao corpo do vinho, fazendo vibrar as sensações e conferindo uma pujança todo especial ao conjunto. O corpo é usualmente cheio de um frutado bem maduro, voluptuoso, às vezes lembrando confeitos de frutas, muito para o lado dos morangos silvestres, rico e ao mesmo tempo refinado, fresco, sedoso e estimulante.

A forte estrutura confere uma expressão do mais puro e desafiador poder em grande harmonia com os demais componentes. Sem falar na complexidade adicional a especiarias, ervas aromáticas, balsâmico sadio, tostado, trufas e uma miríade interminável de sensacionais nuances.

A prova vertical evidentemente não foi às cegas. Vinhos servidos em copos bordaleses. As garrafas foram aportadas pelos presentes, que as garimparam e guardaram através do tempo. Transcorreu no restaurante Durski, dono da melhor adega do Brasil, com o serviço primoroso dos sommeliers Addison Dupczak e Arlei Kulik. Dela participaram, além deste redator, os experientes degustadores João Manuel Garcia, Junior Durski, Flávio Bettega, Rodrigo Linné Neto, Pedro Oliveira, Ricardo Fernandes e a editora do Bom Gourmet, Talita Boros Voitch.

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Notas de degustação

Vega-Sicilia Único
Vinho tinto.

Produtor: Bodegas Vega Sicilia. S.A.
Região: Valbuena del Duero (Valladolid), Ribera del Duero, Espanha
Uvas: Tinto Fino (tempranillo) (TF), cabernet sauvignon (CS), merlot (Me).
Volume de produção em uma safra: aproximadamente 100 mil garrafas de 750 ml, mais algumas magnum (1,5 l) e double magnuns (3,0 l)
Garrafas provadas: volume de 750 ml.

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Vega-Sicilia Único 1989

Nota 98

O mais resplandecente da prova. Frutado intenso e radiante como sol, desmanchando-se em vagas sedosas que lembram morangos maduros e sopa de frutos vermelhos, notas de confeitos. Perfumado, prima pelo frescor, riqueza e finesse. Desmancha-se aos sentidos em puro prazer, com notas de especiarias, minerais, chá, café verde, leve balsâmico e toque floral. Equilíbrio e harmonia impecáveis, preciso, limpo, focado, cheio e muito fino. Final delicioso e muito longo. Prazer engarrafado. No auge, com vida gloriosa para muitos anos mais. 80% TF + 20% CS

Vega-Sicilia Único 1991

Nota 97

Mais meditativo e profundo. Frutado cheio e vivo a ameixa e morangos, lindamente temperado com nuances a noz moscada, alcaçuz, trufas, zimbros e outras especiarias bem dosadas. Algo de rosas brancas bem suaves. Vivo, possante e muito refinado, suave fumé, como que reverbera aos sentidos. Clássico, longo, prazer prolongado. 85% TF + 13% CS + 2% Me

Vega-Sicilia Único 1994

Nota 97

Começou mais tímido, talvez a garrafa, mas foi limpando e crescendo com tempo em copo. Cor escura e brilhante das mais intensas de todas. Frutado compacto e muito concentrado, super refinado, a morangos e blueberries, recoberto por notas de zimbros, minerais, rosas. Toque delicioso a caixa de charutos, bem delicado, uma zest de tangerina, taninos finos, refinado, algo a maresia, com um final longo e cristalino. Tudo para crescer nos próximos anos e se manter em glória muito tempo. 80% TF + 13% CS + 5% Me

Vega-Sicilia Único 1999

Nota 94

Bem temperado e com muitos aromas e sabores, que movimentam-se sobre um frutado voluptuoso e fresco a morangos maduros, sopa de morangos e algo confeitado. No auge e pronto a beber. Notas suaves de anis, coco, baunilha e algo de tabaco. 90% TF + 10% CS

Vega-Sicilia Único 2000

Nota 97

Um encanto de finesse, complexidade e intensidade. Bem no meio termo entre os mais velhos e os mais jovens. Perfumado, jovial, vivaz e cristalino, sopa de frutas vermelhas e azuis cristalizadas, com uma acidez viva e refinada que dá graça e leveza do vinho. Movimenta-se lindamente aos sentidos, sofisticado, intrigante, sedoso e estimulante. Sensual e refinado, um toque a trufas bancas.

Vega-Sicilia Único 2004

Nota 98

O que melhor bebe entre os novos, lembra o 1989, do qual tudo indica seguirá as gloriosas pegadas, quiçá com mais intensidade. Cor rubi escura. Muito bonito, voluptuoso, encorpado e elegante. Vagas de frutado maduro e confeitado perpassam os sentidos, com intensidade, frescor e finesse. Fruta que se desmancha em sensações muito agradáveis, complexidade admirável, taninos finos, bela estrutura, algo a trufas, cálido e muito atraente. 87%TF e 13% CS

Vega-Sicilia Único 2005

Nota 96

Como que uma síntese do 2008 e 2007. Sobressai pela linda fluidez, com muita energia, vigor e a elegância típica do Vega. Refinado, morangos maduros, baunilha, cassis, nuance deliciosa a caramelo. Escorre pelos sentidos como seda, deixando sensações atraentes e multi dimensionais. Grande juventude, ao mesmo tempo muito atraente e agradável de beber. 94% TF 6% de CS

Vega-Sicilia Único 2007

Nota 96

Um Vega de ótimos nervos, bem vivaz e encorpado. O belíssimo frutado maduro resplandece a morangos e amoras, com algo a geleia de fruta. Belíssima vida e energia, muito estimulante, com uma linda complexidade onde desfilam nuances a trufas, balsâmico, baunilha e especiarias. Algo a chá, zest de tangerina.

Vega-Sicilia Único 2008

Nota 95

De cor rubi retinta, apesar dos 11 anos de vida, um vinho esbanjando juventude. Ameixas, balsâmico e especiarias dão o tom, numa textura aveludada e mais compacta e profunda. Cheio, com bonitas notas minerais, textura untuosa, acidez, um pouco mais fechado no momento, com grandes expectativas. Safra mais difícil e seleção rigorosa que diminuiu em cerca e 30% a produção. 97% TF e 3% CS

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